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Archive for novembro \11\UTC 2014

O índio começou a coçar o saco (parecia, pelo menos) e, depois, foi-se chegando a Margarida, minha namorada e paixão; no começo, observou-a de uma forma selvagem, mas isso ainda seria natural, em se tratando de um índio, só que, de repente, arrancou-lhe os óculos escuros. Meu amor estremeceu, de susto, mas sorriu com aquele constrangimento que os civilizados demonstram diante dos silvícolas. Eu, um pouco mais afastado, ao lado dos sertanistas, de olho na cena.
O índio, Teruã, ou Teruanã, um nome de merda desses, continuou a examiná-la, e, dessa vez, deteve-se na miragem dos seus seios de estátua grega (Margarida permitia-se um leve decote sob a camisa safári, de cor cáqui, assim como as calças compridas cheias de bolsos) e demorou-se ainda mais no exame do baixo ventre do meu tudo, o qual arredondava, com muita graça, aquelas roupas de sertão; logo ali, no meu tesouro dourado, razão da minha vida, o puto foi enviar seus olhos pintados de baile à fantasia.
Então, aconteceu: Terabã, ou coisa assim, meteu a mão direita entre as coxas da vida da minha vida, e ela gritou, perdendo o equilíbrio, enquanto o índio agarrava e amassava (tinha mãos enormes, o depravado) as delicadas intimidades da minha paixão. Aí eu pulei. Foi somente um salto e já cheguei perto do Tramanbã, que se esquivou, com uma agilidade de índio mesmo, do soco que eu tentei lhe acertar. Pior para o padre, um tal de Belarmino, que pulou na seqüência, para proteger o selvagem, e acabou recebendo dois terços da pancada, mas no meio do nariz. Fez um ploc! que ecoou pela floresta amazônica. Ele caiu sem sentidos. Acredito que tenha sido o primeiro soco que levou na vida, não sei se vocês sabem, mas o primeiro é o que mais sangra. Foi inacreditável a quantidade de sangue que saiu do nariz do religioso, manchando toda a roupa, deixando até os sertanistas assustados, logo eles, tão acostumados a ver gente ferida e morta.
O malandro do Arauamã ficou por perto, só olhando, fingindo que não era com ele. A maçã direita do rosto meio avermelhada, com jeito de que ia inchar. Alguma coisa acertei. O meu tudo começou a chorar, quase histérica, e se afastou um pouco do grupo. Dois sertanistas me seguraram pelos braços, gritando “calma, calma!”, “índio é índio, porra!”, “você está louco?” e outros panos-quentes.
Contei essa história somente para ilustrar a minha atual situação, tanto tempo depois daquela visita à Amazônia: apesar de todo esse amor que dedico à luz da minha vida, meu sonho e meu tudo, minha Margarida, lá está o americano roçando o pinto nas coxas dela, no meio do salão de dança, nesta merda de night club em Nova York, que, por sinal, é um cu de cidade, com esse vento maldito, gelado, despenteando a gente a toda hora.
Minha empresa fez uma joint-venture com a company daquele merda, vamos produzir juntos alguns equipamentos agrícolas, eles nos passando know-how e nós ganhando mercado, e dividindo os lucros. Para nós, excelente negócio. Mas os americanos gostam de ficar bêbados à noite, e para eles é normal dançar com a mulher dos outros. O gringo me ofereceu a dele, aqui ao meu lado, um canhão branquelo, que enxuga todas e ri de qualquer bobagem, parece uma lesma albina, e já se insinuou (“às vezes, Jimmy me deixa muito só, por causa do business”, disse a bruaca, como se eu tivesse coragem de comer uma coisa daquelas).
Aliás, depois que me casei com o tudo do meu tudo, há dez anos, vivi uma única e fugaz oportunidade de traí-la, numa viagem de trabalho às Bahamas, porque a garota que nos ciceroneava, uma americana, por sinal, poderia constar da lista das dez mais gostosas do cinema, se atriz fosse, e ela logo simpatizou comigo, de uma forma radical, digamos, aparecendo no meu apartamento, numa noite, e perguntando se eu queria companhia. Foi duro dizer que não, mas na hora pensei na minha gatinha amada, sozinha no Brasil, trocando as fraldas da nossa filha única.
Que faço, agora, com aquele gringo, o tal de mister Jimmy? É inacreditável a cara-de-pau deles, quando agarram a mulher dos outros, ensaiando uns rodopios no salão, rindo alto, o cara deve ter mais de um metro e noventa. Não posso simplesmente quebrar a cara dele, como quase fiz com o índio, ou melhor, com o padre, não é uma coisa pessoal, eles encoxam todo mundo por aqui, e oferecem a mulher deles para que a gente tire um sarro, e tudo acontece de uma forma pública e cínica. Não gosto deste país.
Mas, quando a gente precisa, realmente, um gênio bom nos oferece uma luz, e a solução ideal me iluminou a mente. Tudo o que havia lido de Sun Tzu sobre a arte da guerra me surgiu muito nítido “A guerra é de vital importância para o Estado”, pontificara o genial chinês, há mais de dois mil e quinhentos anos. “É o domínio da vida ou da morte, o caminho para a sobrevivência ou a perda do Império: é preciso manejá-la bem.” A partir desse conceito, aqui entre nós meio óbvio, um dos segredos da vitória estava reservado “àquele que sabe como adotar a arte militar apropriada de acordo com a superioridade ou inferioridade de suas forças frente ao inimigo.” Juntei meus estudos de estratégia de combate às lembranças do tempo do colégio, onde interpretei, em papéis secundários, é verdade, mas interpretei, algumas peças de que não lembro os nomes. Aí, antes que o gringo bêbado baixasse-lhe as calcinhas e comesse Margarida em pleno salão, comecei a enxugar a testa com um lenço, coisa improvável, com aquele ar-condicionado de dez abaixo de zero. Jane, a medusa, percebeu meu incômodo, com olhares enviesados. Já não sorria, oferecida. Eu fiz umas duas ou três caretas discretas. E, de repente
“Jane, Jane, excuse me, but, I…”
Caí por cima da mesa, quebrando os copos, jogando longe o balde de gelo, ouvindo o grito agudo e desagradável da mulher do gringo e, em um minuto, se tanto, surgiram alguns médicos com bafo de uísque (respiração boca-a-boca, urgh!); constataram que eu respirava, e que meu coração batia, ainda que descompassado. A música ao vivo, um jazz burocrático, não parou, e meu tudo levou algum tempo para perceber que algo ocorria nas imediações da nossa mesa. Quando chegou, atirou-se sobre mim, desesperada, e senti o impacto do seu corpo sobre o meu, não pude conter um gemido.
“Ele está voltando, está voltando!”, disse, em inglês, à turba que me rodeava. Aí chegaram os paramédicos e em pouco tempo eu singrava as largas avenidas de Nova York, deitado numa maca, com um tubo enfiado na goela, e monitorado por dezenas de placas e fios. Não queira sofrer uma síncope nos Estados Unidos, você pode acabar morto pelo atendimento. A luz da minha vida chorava de soluços entrecortados, agarrada à minha mão direita, suplicando “não o deixem morrer!, não o deixem morrer!”, em português, enquanto os paramédicos já preparavam um calmante para injetar-lhe na veia. Eu, apesar do desconforto do tubo de oxigênio puro, sentia-me quase eufórico de estar longe daquele crápula priápico, que, momentos atrás, por pouco não estuprou a minha doçura, minha pequena namorada, minha paixão e delírio. E, apesar de tudo, não iria perder o monte de dinheiro que a joint-venture nos daria. Definitivamente, naquele momento, não poderia haver no mundo homem mais leve do que eu.

Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, 2007

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