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Archive for janeiro \23\UTC 2011

Olho para Genoveva assistindo novela de tevê. Observo como ela sorri, o coração empanturrado de ternura, ao ver aqueles arremedos de atores dizerem um pro outro ‘eu te amo’, ‘não posso viver sem você’ e patati, patatá. A idiotia da sensibilidade de Genoveva me deixa deprimida, pois nela eu vejo milhões de brasileiros da terceira idade (ou até das idades anteriores) a aceitar, como carneiros, as ordens ditadas pelos donos do poder.

Essa grande quadrilha, que se chama a si mesma de elite, hoje representada por meio por cento da população, vem conseguindo nos escravizar há séculos; os péssimos artistas que falam merdas, e recebem a aprovação emocional de inocentes úteis como Genoveva, são apenas um símbolo da nossa dependência.

Mas tenho de me segurar diante de Genoveva. Ela está chegando aos oitenta e os sinais de senilidade são evidentes. (Quando eu chegar a esse ponto, e não falta muito, engulo uma caixa de antidepressivos; e aí já me deito de roupa preta para que não tenham sequer o trabalho de vestir meu cadáver.)

Não posso me irritar tanto com a bobinha: é que estou morando mais ou menos de favor, desde que renunciei à pensão que meu irmão Geraldo, major reformado do Exército, me deixou de herança.

Foi engraçado. Liguei para aquela revista semanal, que é nojenta, vendida ao sistema, mas é lida por dois milhões de pessoas, e perguntei aos jornalistas se queriam ouvir uma denúncia contra o governo. É claro que a revista é governista, mas precisa manter as aparências. Aí um moleque, novato na profissão, despreparado, chegou aqui uma hora depois. Expliquei que, como irmã de militar, havia herdado o direito, depois da morte do meu irmão, de receber a pensão dele – um trocado miserável, mas pensão. E como já auferia outros rendimentos, mais miseráveis ainda, da minha aposentadoria como professora, não achava justo que o povo brasileiro me pagasse duas pensões. Assim, havia assinado um termo de renúncia, ou melhor, um termo de doação da pensão militar para a minha faxineira, Jurema, que, além do marido doente, era obrigada a sustentar quatro filhos e até um neto, filho de sua menina mais velha, que virou mãe solteira. (‘Mãe solteira’, como definem as estatísticas dessa prefeitura fascista, como se pudesse ser de outra forma. Imagine Cidinha, filha mais velha de Jurema, subindo no altar de véu e grinalda!)

A revistona não me deu muito espaço, só uma notinha irônica, mas foi o suficiente para que outras publicações, ainda não compradas pela quadrilha, corressem atrás de mim. Como me diverti!

“Mas a senhora vai viver de quê?”, perguntavam os repórteres.

“Ué: da minha segunda pensão, que é uma bosta, mas eu sou sozinha e dona do meu apartamento. Não preciso de mais dinheiro. A Jurema sim, coitada, é muito mais fudida do que eu, sem contar que nasceu nos Alagados da Bahia e não teve o apoio do Estado desde criança. Aliás, o Estado não comparece aos Alagados.”

E por aí fui. Jornais menores, jornais de outras regiões, boletins de partidos políticos de oposição (tão perniciosos como o oficial), rádios e até uma tevê me visitaram. Gastei o vestido preto de viúva de tanta entrevista que dei. A melhor delas saiu no Correio do Norte, de Belém, uma página inteira, sob o título “Guerrilheira”. Minha prima Belinha, que mora por lá, mandou-me o recorte, com um bilhete: “estou orgulhosa de você”. Logo Belinha, uma reaça casada com um nazista, Cláudio, que esteve ligado aos aparelhos de repressão nos anos setenta. Mas as pessoas julgam a fama das outras somente pelas aparências e não pelo conteúdo. Apareci no jornal, já sou famosa. Elitista. É um dos sintomas dessa apatia política, generalizada, em que vivemos.

O general Gouveia me ligou. Ele, que ainda estava na ativa, era amigo do meu irmão e foi muito atencioso comigo quando Geraldo morreu. Conseguiu, inclusive, que um estafeta me levasse o cheque da pensão em casa, dispensando-me de ir até o quartel, onde a burocracia me fazia perder uma, duas horas de espera.

“Estamos revoltados com suas declarações aos jornais, dona Crimeia! A senhora não está à altura da memória do seu irmão, sempre correto e patriota, uma pessoa solidária e amiga…”

“Um pobre diabo, um inocente útil como o senhor e um monte de gente que conheço, a serviço do grande capital, enquanto brinca de guerra, feito criança, com aqueles brucutus, bem velhinhos, por sinal, ou então joga futebol de salão o dia todo. Sabe o que vocês são, militares? Fantoches, macaquitos, lacaios do capitalismo internacional, usando essas roupas ridículas, emerdalhadas…”

O general bateu o telefone, mas eu ainda gritei “e se mandar me perseguir, chamo a imprensa!”

Confesso que foi um exagero, o homem era gentil, no passado, mas nessa gente você tem de bater primeiro. Ou nos envolve com umas conversas esquisitas e toma nossa razão.

Coincidência ou não (mas não vejo onde meus inimigos teriam tido participação nisso), meu condomínio foi subindo enquanto o governo dava aumentos abaixo da inflação para os aposentados. Chegou a um ponto que para pagar o condomínio, seria obrigada a fazer uma refeição por dia.

Genoveva apareceu, nossos pais eram amigos no passado, e eu me dava bem com ela, apesar do seu aparvalhamento crônico. Aí ela me ofereceu um quarto no seu próprio apartamento, enquanto eu alugaria o meu e aumentaria minha renda. Topei, apesar de humilhada. Pensei comigo, ‘puta que o pariu, eu sempre fui ativa, brilhante, intelectual, meus alunos estão aí, alguns são uns fascistas, reconheço, mas foram bem formados por mim, são pessoas bem preparadas, profissionalmente, enquanto eu preciso de favor pra viver; temos de revolucionar este país o quanto antes e entregar o poder ao povo!’

Mas estamos vivendo bem. Ela passa o dia na frente da tevê e eu leio, leio, leio. Agora estou empenhada na tradução, do inglês, de uma receita para construir um artefato de alto poder destrutivo. Foi Lenildo, um vizinho aqui do primeiro andar, e que pensa parecido comigo, que conseguiu na internet. Inacreditável: os gringos são loucos, dominam o mundo, mas deixam umas brechas para que os verdadeiros revolucionários atuem; dão receitas, pela internet, de como fabricar engenhos explosivos.

Quando estiver pronta, pois parece que não é muito difícil de montar, talvez Lenildo me ajude a carregar o material até um prédio público qualquer, ou a um banco estrangeiro, ou sei lá onde. Vamos escolher com cuidado nosso alvo, observando quem melhor simboliza a tirania, a política escravagista a que estamos submetidos no Brasil. Candidatos é que não faltam.

Do livro “Memórias Embriagadas” – Editora Noovha América, São Paulo, 2008.

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“Gisele, lembra? Gisele Longano. Amiga lá do pessoal do Partido Comunista, na faculdade.”

“Gisele. Claro que lembro! Alta e magra, longilínea. Hoje seria modelo. Parece que a estou vendo, Armando.”

“Nem diga isso, Gustavo. Esse foi o meu problema, ontem. Há quanto tempo você não vê Gisele?”

“Ora, desde a faculdade. Espera: vi uma foto, dois anos depois da formatura, ela se casando.”

“Com Jocimar, um dos caras do PC.”

“Lembro dele também. Moreno escuro. Parecia hindu. Mas qual é o problema com a Gisele, Armando? Aconteceu alguma coisa com ela?”

“Gustavo, somos amigos há quarenta e cinco anos, desde a faculdade…”

“Não precisa me lembrar.”

“É íntimo, o que vou lhe dizer. A Gisele e eu tivemos um affair.”

“Agora?”

“Não, Gustavo. Logo depois da formatura. Ela queria me converter.”

“Por favor, piada não. Você, comunista?”

“Uai, ela tentou. Não sei se deu pra mim por causa disso ou se ficou envolvida.”

“Você não se envolveu?”

“Nunca. Na vida, só amei e amo a Camila.”

“Mas comeu a Gisele”.

“Quem não comeria a Gisele naquela época, Gustavo? Linda, de coxa comprida, seios mínimos, durinhos. E… ardente. Tomava a iniciativa. Você não imagina.”

“Imagino”.

“Foram seis meses de trepação desenfreada”.

“Meu Deus! A gente se via todo fim de semana, naquela época, e eu nem desconfiei. Come-quieto você, hem? Me conta, Armando: quem mais você traçou?”

“Não é o caso”.

“Don Juan. Barba Azul. Ricardão.”

“Para. O problema é outro, Gustavo. É que encontrei a Gisele ontem. Lá na Hípica.”

“Opa! Recuerdos. Excitação. Uma taça de Chateau Margot para comemorar…”

“Nada disso. Eu a reconheci, cumprimentei, apresentei-a à Camila. Gisele estava acompanhada de um filho mais velho. Rapaz simpático, empresário, exportador.”

“Filho do comunista?”

“Não. O casamento com o comunista durou pouco. Deve ter faltado o essencial. Ela casou pra valer foi com um fazendeiro, o João Roxo. Mais conservador impossível.”

“Mas, e daí, Armando? Seu coração disparou ao se lembrar daquelas coxas longas, ‘dos seios do tamanho de xícaras, que cabiam nas suas mãos’, como dizem nos romances? Ela continua gostosa?”

“Inteirona, para a idade. Mas não me goza, Gustavo. Foi horrível. Eu só me lembrei dela como colega de faculdade, entende? Até o fato de que ela militava, acompanhava o pessoal da esquerda, foi uma recordação vaga pra mim. Nada mais. Das nossas experiências físicas, então, não me lembrei de nada, nada, nada! É possível uma coisa dessas?”

“As trepadinhas, nada?”

“Nada. Nem uma cena surgiu na minha mente naquela ocasião. Como se não tivesse havido.”

“Houve?”

“Puxa, Gustavo, você não percebe que essa coisa, esse encontro, está me incomodando?”

“Desculpe. Mas, e daí? Você não lembrou na hora mas lembrou depois.”

“Foi mais complicado. O encontro na Hípica foi num sábado, o último. Na segunda-feira seguinte ela me ligou no escritório. Chorando.”

“Se apaixonou de novo?”

“Deprimida, Gustavo, deprimida. Percebeu que eu não me recordei da nossa história. Disse-me que, no encontro, eu tinha ‘um olho ausente’. Ou então que eu era de uma insensibilidade absurda. Pior: que eu poderia estar doente.”

“E você?”

“Fiquei ouvindo. Mudo. Ela soluçava.”

“Você não disse nada, Armando?”

“Disse. Uma coisa qualquer. Que a vida tem seus próprios esquecimentos. E que eles acontecem no momento exato.”

“Isto e porra nenhuma é a mesma coisa.”

“Foi a minha intenção, dizer nada. Mas fui me lembrando de tudo a partir das inflexões da voz dela.”

“Memória auditiva, OK.”

“Você continua sem conseguir levar nada a sério, não é, Gustavo? Pensa nela: ali, se humilhando, rogando por um pedacinho de memória…”

“Penso em você também, Armando. Desmemoriado. Esquecendo trepadas. É cômodo, sabe? Eu, infelizmente, ou felizmente, me lembro de todas. Talvez por que não tenham sido muitas, como as suas.”

“Começou. Ironias. E eu só queria desabafar. Um ombro amigo. O meu velho companheiro Gustavo…”

“Esquece meu jeito, Armando. Mas você não me contou o fim da história.”

“Com Gisele? Não tem final. Ela chorou, eu disse aquelas coisas, ela disse algo terrível, do tipo ‘os homens são todos iguais’, e pronto.”

“Sabe, Armando, fiquei comovido, sim. Este seu ombro amigo aqui está sempre à sua disposição. Aliás, nossa amizade, você sabe, vai além do ombro.”

“Que bobagem é esta que você está falando?”

“Do nosso affair, você não lembra?”

“Vai pra puta que o pariu, Gustavo.”

“Ué… Naquela época você me chamava de Gugu. E me pedia para que eu o chamasse de “minha loira, minha loira”. Você esqueceu de tudo, tudo, Armando?”

“Vai pra puta que o pariu!”

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Maria do Socorro recebeu o convite no final do mês, quando entrou no mercadinho para comprar carne-seca para o marido, Cristóvão. Um homem parecendo cigano, alourado, de cabelo muito comprido, amarrado com elástico num rabo-de-cavalo, chegou bem perto dela e sem a menor cerimônia começou a examinar-lhe o rosto. Maria, já acostumada com aquilo, fingiu que não viu. Na hora de pagar, o homem ficou atrás dela na fila e lhe disse, em voz baixa:

“Acho que tenho um bom emprego para a senhora; mas é preciso ver se resolvemos o problema da sua família.”

“Minha família não tem problemas”, respondeu ela, mal-humorada, sem se virar nem olhar para o cigano.

“Sei que não tem”, o homem insistiu. “O emprego é bom, mas a senhora seria obrigada a passar a vida viajando.”

Maria do Socorro voltou-se para ele como quem leva um beliscão.

“É um circo, moço?”

“É. Como a senhora adivinhou? Será que eu tenho cara de empresário de circo?” O homem sorriu de dentes recapados. “Ou pareço um palhaço?”

“A gente vê que o senhor é artista. Por causa do rabo-de-cavalo.”

“Ah, bom. Mas o que me diz? A senhora é casada?”

“Bem casada. Estou levando carne-seca pro meu marido. Mas a gente vai ver, seu…”

“Michel.”

“Com x?”

“Não, com ch.”

“Então, seu Michel, a gente vai estudar. Quando é que lhe dou a resposta? Onde encontro o senhor?”

“Ué… mas eu nem lhe disse o salário. É bom, mas a senhora nem sabe…”

“Antes de qualquer coisa, tenho de falar com o Cristóvão. De que adianta salário bom se ele não deixar?”

“É verdade. Qual é a sua graça?”

Ela ficou confusa. Olhou para os lados.

“Eu não tenho graça, senhor. Tenho diferença, que é esta barba.”

“Só queria saber seu nome. A senhora me acha no circo. Amanhã estará armado na cidade. Circo Medina. Diga pro seu marido que, dependendo, a gente pode achar trabalho pra ele, também, mas com salário menor.”

“Eu digo, seu Medina.”

“Não, o circo é que é Medina. Eu sou Michel. Com ch.”

Daquela vez, ela atravessou a estrada fora da passarela, correndo risco de vida. Não via a hora de chegar a casa. Cristóvão, desempregado, certamente dormia. Nos últimos tempos, ela começou a ficar desconfiada das longas ausências dele, à noite. “Com os amigos”, dizia. Ela não acreditava. Talvez Cristóvão estivesse cansado de esperar o filho que ela não conseguia gerar. Por causa da barba, quem sabe? Não, a barba nada tinha a ver: ela possuía órgãos de mulher, perfeitos, inclusive seios muito bonitos, elogiados por quem a tinha visto nua. E lisinhos, sem pelugem.

Andou os três quilômetros, da estrada à favelinha, em tempo recorde, com o embrulho de carne-seca na mão. Nos últimos meses, conseguira mais alguns quilos de roupa pra lavar, com o pessoal da lanchonete nova, que havia sido inaugurada junto do posto de gasolina. Sobrava alguma coisa para o supérfluo: carne-seca, cinema aos domingos, uma ou outra roupa nova, sapatos… dava até para as cervejinhas de Cristóvão.

A porta do barraco estava entreaberta: só podia ter sido o Capeta. O vira-lata era um gênio: conseguia abrir todas as portas, sempre à procura de alguma coisa pra comer. Ela entrou de repente. “Chispa!”, gritou para o cachorro, que era peludo, de tamanho médio e todo preto. O bicho ganiu, enquando passava ao lado das pernas dela, trêmulo.

Cristóvão veio na sequência, esfregando os olhos, de bermudas e sem camisa.

“Meu Socorro…”

“Cheguei, Cristóvão. E tenho grandes novidades! Olha, trouxe sua carne-seca.”

“Quando eu acordar, você me conta.”

“Ouve logo, amor: tão querendo que eu vá trabalhar no circo. E você pode ir junto, eles arrumam serviço.”

Cristóvão despertou. Olhou para ela por um tempo, sem dizer nada. Coçou a cabeça. Ela sorria para ele, tentando adivinhar-lhe os pensamentos. Ele ficou sério:

“Quem lhe chamou, meu Socorro?”

“Um homem chamado Michel. De rabo-de-cavalo.”

“Respeitador?”

“E eu lá dou trela pra quem não me respeita, homem?”

Cristóvão deu meia-volta, entrou num cubículo mínimo que servia de banheiro. Lavou o rosto com a água de uma pequena bacia. Ela desembrulhou a carne, ali na sala mesmo, pois não havia cozinha, e foi arrumar uma faca para tirar-lhe o sebo.

“Meu Socorro: o que é que você iria fazer no circo?”

“Ora, Cristóvão: a mulher barbada não faz nada; só se mostra… Lembra do circo que a gente viu, dois anos atrás?”

“Claro. Mas aquela barbada era fajuta. Um pelo muito fino, e meio louro, quase não se via…”

“Eu tenho mais pelo, muito mais!” Ela ria, antecipando o prazer de se expor, como uma fruta na feira, a um grande público.

“Se for só para mostrar o rosto…”

“Sabia que você ia deixar, Cristóvão!” Maria do Socorro correu para o marido e se pendurou no pescoço dele. Ele a beijou na testa, evitando-lhe as bochechas, cobertas daquele pelo escuro e espesso. Já os cabelos do buço, também escuros, pareciam mais finos, delicados.

“Tem trabalho pra mim, também?”, ele perguntou, tirando-lhe os braços do pescoço, e procurando uma cadeira para sentar.

“Tem! Tem! seu Michel disse. Vamos ter de ir lá, aqui perto, na cidade, mas só vão armar o circo amanhã… Sabe, Cristóvão, tem um probleminha, você deve imaginar: a gente vai passar a vida viajando.”

“Eu acho que esta é a melhor parte”, disse o marido, já sorrindo.

Maria do Socorro nunca se sentiu tão serena. Deus é sabedoria: aproveita até os defeitos dos pecadores para criar felicidade. Não se preocupava muito com o ordenado que lhe ofereceriam: três salários mínimos, imaginava, já seria um grande progresso, fora o que Cristóvão ganhasse.

“Meu Socorro”, ele agora voltou a ficar sério, “tem uma coisa que vou lhe pedir.”

“O que quiser.”

“Se perguntarem como a gente namora, não diga que eu aliso seus cabelos do rosto, está certo? O povo pode maldar.”

“Não entendi, mas não vou dizer nada, Cristóvão. O que se passa entre nós não interessa a ninguém. Nem a patrão.”

Ele suspirou, levantou-se, abraçou a mulher por trás e, agora sim, beijou-lhe as bochechas peludas. Ela pôs o rosto de lado, fingindo timidez. “Come um pedaço de pão pra tirar o jejum”, ela disse, enquanto ele, carinhoso, lhe puxava os cabelinhos com os dentes.

Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2007

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“Sabe, dona Glorinha? Tem alguma coisa estranha com esse padre.”

“Tem nada. É um santo.”

“Eu ouvi.”

“Ouviu o que, Jandira?”

“A cantoria às três, quatro da manhã.”

“Melhor você se aquietar e não ficar espionando o homem, ouvindo por trás das portas.”

“Faço isso, não, dona Glorinha. Mas é que sofro de insônia, também. Ontem mesmo tomei quase um litro de chá de folha de maracujá, e nada, nada. É um inferno. Aí fiquei rodando pela casa, feito alma penada, e aí ouvi: ele cantando umas músicas de… amor.”

“De amor nada. É bossa- nova.”

“Ué, mas falava de ‘meu amor, minha coisinha, minha namorada’.”

“E o que é que você tem com isso, Jandira?”

“Deus me perdoe, tenho nada não. Tou dando graças ao Pai de ter arrumado esse trabalho depois de ter feito cinquenta anos. Tava me vendo na rua, pedindo esmola… Se a senhora quiser eu paro de falar. A senhora é minha chefa.”

“Que chefa, Jandira. Sou a coordenadora da Casa Paroquial, e só.”

“Hum… poderosa a senhora é. Mas eu tenho, sabe, a maior simpatia pelo padre Bicalho. Só achei engraçado ele ficar cantando às quatro da manhã, lá no quarto dele.”

“Olha, Jandira, você é bem esperta. Vou contar pra você, mas que isso não saia daqui; se eu ficar sabendo que você fofocou, você tá na rua.”

“Eu, fofocar? Credo em cruz!”

“Sabe, Jandira, isso é amor.”

“Amor? Amor de quem? Como?”

“O padre é um zumbi. Não dorme. No máximo, duas ou três horas por noite, só. Pensando na sirigaita.”

“Ah, é, dona Glorinha? Dor de cotovelo braba?”

“De arrasar, coitado… E esses ataques batem nele à noite. Ele sempre cantou, dizem, desde jovem, eu só estou aqui há vinte anos. Tocava bem violão, mas teve a artrite, aí…”

“Quantos anos padre Bicalho tem, dona Glorinha?”

“Setenta e lá vai chumbo.”

“Mas que tesão, quer dizer, me perdoe, que afeição.”

“Há uns seis meses comprou um karaokê moderno. Ele liga lá e vai cantando, acompanhando a música. Mês passado perdi a conta de uma tal de ‘Dindi’ que ele cantou. Virgem, eu não posso mais ouvir esse nome: Dindi.”

“A senhora também tem insônia, né, dona Glorinha?”

“Pesada. Hoje em dia, quem não tem? Mas olha, Jandira, você não fale isso pra ninguém.”

“Falar pra quem? Não tenho marido, nem filhos, minha família já morreu toda, só converso com a senhora.”

“Acho que esse foi o problema.”

“Que problema?”

“Do padre. Não poder ter família, filhos. Por Deus, Jandira, acho que a Igreja devia deixar os pobrezinhos se casarem.”

“Senhora acha?”

“Cê vê: um homem velho, um santo, tudo bem, nunca ouvi falar nada dele, mas um homem sem paz, sem sossego, por causa de uma sirigaita.”

“Ela era bonita?”

“Linda, de cinema. Vinha à missa todo dia.”

“Rica?”

“Milionária. Vinha de motorista. Loura. Sempre de roupa escura. Perfume importado. Ardia no nariz dos fiéis. Os lábios eram tão rosados que ela não precisava usar batom. Não era mulherzinha, não. Muito séria, não rebolava, nada. Mas sentava na primeira fila. De olho nele. E ele, coitado, levantando a eucaristia e de olho mole nela.”

“Que situação…”

“É padre mas não tá morto, né mesmo? Aí nasceu a paixão, homem com mulher, já viu…”

“Mas eles chegaram a se…”

“Pêra aí, Jandira. Como é que vou saber de uma coisa dessas se eu não estava aqui?”

“Como a senhora não estava?”

“Essas coisas já fazem muito tempo. Não sou tão velha assim.”

“Pera aí! A loura a senhora conheceu, não foi?”

“De ouvir falar.”

“Meu Deus: a senhora me descrevendo eu vi a mulher na minha frente.”

“É, foi o que me contaram.”

“Dona Glorinha, vamos pensar assim: se as pessoas que lhe contaram inventaram, digamos, uma historinha, isso quer dizer que não houve romance nenhum.”

“Ah, houve.”

“Mas a senhora não viu. E a senhora até dizia que ele é um santo.”

“Agora é santinho, sim. Velho é mais fácil. O apetite já não é o mesmo. O mundo todo viu a loura, Jandira. Caso sério.”

“Padre Bicalho pode ser inocente.”

“Que disse?”

“Pensando comigo… Ele pode gostar só de cantar… como é mesmo o nome das músicas?”

“Bossa-nova. Que inocente, nada! É homem. Tem aquilo, Jandira. Não escapa. Eu já o ouvi cantando uma tal de ‘Se todos fossem iguais a você’ com o maior sentimento! Pensando na loura. Só faltava chorar.”

“Coitado do padre Bicalho.”

“Por que coitado, Jandira?”

“Por nada não. É que neste mundo tem pecador demais.”

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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