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Archive for the ‘Histórias já publicadas’ Category

A secretária do Instituto de Testes Vocacionais (Intevoc) olhou sorrindo para mim (sorrisos, odeio sorrisos).

Nem Ciências Exatas… disse ela, mordendo a tampa da caneta esferográfica (uma porca)…

“… nem Biológicas!”

Deu uma risadinha fina e eu, não suportando, lancei-a a três metros de distancia, no chão, com um murro no seu rosto. Ela caiu de pernas para cima, ostentando o fundilho fummée.

“Oh…”, ela fez, tentando se levantar, querendo consertar os óculos partidos. “É exatamente isso! É isso!”

Levantei-a pelo pescoço, o rosto dela arroxeou todo (havia só uma pequena circunferência marcada, do murro) e ela ainda gemeu: “É isso, acertamos…”

“O quê? O quê? O quê?”, eu disse, mordendo a língua, a língua sangrando e eu cuspindo sangue na cara da mulher. “O quê? Hem, sua vaca?”

“Sua única vocação”, disse ela estrangulada, ainda segura por minhas mãos enormes, “é para o homicídio profissional . . .”

Fiquei surpreso e larguei-a. A secretária jogou fora os óculos, tirou outros da mesinha (onde também havia um pronto-socorro portátil) e, ainda sorrindo (sorriso deformado pelo inchaço, já não me irritava tanto), completou:

“O senhor é a pessoa mais agressiva que já passou pelo Intevoc. Por favor, vá correndo procurar o Sinexin (Sindicato dos Exterminadores Independentes), vá correndo… Agora!”

E, ao dizer isso, aproximou seu rosto espancado do meu e suplicou, com cheiro de Halitol (odeio perfumarias).

“Me mata agora, bem. Me mata.”

Um clip, que eu já havia transformado em arma com minhas mãos nervosas, foi-lhe enfiado no pescoço, à altura da jugular. A secretária caiu, sangrando, exclamando na agonia: “Meu amor…” (Mas que ódio!)

Sai do Intevoc derrubando a porta com os pés. O Sinexin ficava a alguns quarteirões. Com um paralelepípedo, que apanhei na rua para qualquer eventualidade, esmigalhei o crânio da mulatinha que me veio vender pentes (tenho ojeriza a gente pobre e de cor parda); imobilizei o guarda de transito da esquina, tomei-lhe o revólver, pedi que ele abrisse a boca, ele abriu, e eu descarreguei o revólver dentro. Ouvi as pessoas comentarem perto:

“É um Exterminador! De berço! Dos bons! Incrível! Chuchu-Beleza!”

As pessoas estavam encantadas e eu muito orgulhoso. Enfim, sabia, tinha certeza da minha verdadeira vocação.

O prédio do Sinexin, como você sabe, imbecil, é uma fortaleza blindada com o robô Armando à porta. Armando engatilhou sua metralhadora, acendeu as luzes e perguntou, com a voz de fita já meio estragada:

“Falar com quem? Falar com quem? Falar com quem?”

Saltei de lado, com minha agilidade nata, a metralhadora disparou automaticamente, matando pelo menos quinze pedestres. Com aquele mesmo paralelepípedo amassei a velha lataria de Armando. Ele caiu, só uma luz vermelhinha ficou piscando, mas a fita não se danificou.

“Falar com quem ? Falar com quem ? Falar com quem?”

Irritadíssimo com aquela ladainha nos meus ouvidos, evitei o elevador e subi as escadas de mármore, dois degraus de cada vez. Cheguei ao décimo andar em alguns minutos e nem estava cansado (não fumo, não bebo, não jogo).

Havia uma porta de jacarandá anunciando: Presidente. Num impulso inconsciente (quase todos os meus impulsos são assim), tentei derrubar a porta, não consegui, fui tomado de fúria absurda. Fiquei como um tonto, um louco, procurando no chão alguma coisa pesada, para derrubar, ou forçar, aquele impedimento (não posso ser impedido). Mas a porta abriu-se sozinha e o Presidente apareceu, portando uma metralhadora igual a de Armando. Eu já o conhecia de fotografias nos jornais e da tevê.

“Você é brilhante”, disse-me ele, e a voz também me pareceu gravada. (Seria um robô, talvez?]

Fiquei muito feliz e preocupado ao mesmo tempo porque senti que o elogio destrói  90% do meu potencial agressivo. Então reagi:

“Brilhante é sua mãe, corno safado! Chupador de buceta! Cara de sapo! Cocô de galinha!”

Ele repetiu “você é brilhante”, enquanto arremessava, com um gesto de mágico, quase imperceptível, um punhal sobre o meu peito. Por um segundo, eu me senti como uma câmera de Cinema Novo (e logo eu, que odeio o Cinema Novo!), meus olhos acompanhando a queda do meu corpo, rodando pela sala, fixando um detalhe aqui, um relógio de ouro na parede, o pedacinho do carpete queimado de cigarro, eu morrendo no duro, e os arrepios da morte lembrando sensações esquisitas do tempo em que eu comia (ugh!) mulheres, e o Presidente do Sinexin, com a voz sumida (em off, em off) afirmando que, realmente, eu sou um gênio, uma capacidade, um exterminador nato, eu sou Jesus, Jesus!

Do livro “Leonora Premiada”, Editora Duas Cidades, São Paulo, 1974.

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O sujeito bateu no portão que o professor Bernardo mandara gradear na semana passada, depois que assaltaram a venda de seu Quinha, na esquina, a uns cem metros dali.

“Vim desentupir a fossa. Aqui é a casa de…”

Não conseguiu completar: Varão, o mestiço de boxer com mastim napolitano, saiu desajeitado da sala e voou sobre o portão; o homem, certamente, chegou a sentir o hálito de Tutancamon que o bicho exala. É um fedor tenebroso, raro.

“Seu Benardo, pelo amor de Deus!”, o homem deu um salto pra trás, enquanto Varão, enlouquecido, tentava abrir as grades com os dentes. “Fiquei com taquicardia, aqui… O senhor não pode criar uma fera como esta em casa.”

“Eu não sou Benardo, sou Bernardo, um erre antes e outro depois. Cala a boca, Varão! Chispa pra dentro de casa!”

A metade boxer de Varão sempre obedecia. O problema era quando o cachorro assumia seu lado mastim: não havia quem o fizesse mudar de idéia. Foi assim quando ele abocanhou a enorme batata da perna de dona Rosinha, sogra do professor. Cinco pontos no pronto-socorro e uma inimizade para sempre.

“Puxa, seu Benardo”, continuou o sujeito do outro lado da grade. Seu carteiro ainda está vivo? E aí, vai limpar a fossa ou não? Se for, vai ter de prender o Totozinho.”

“Por que o senhor não chama as pessoas pelo nome? O cachorro é Varão. Eu sou Bernardo.”

“Tô me lixando se é Varão ou Maricão, porra! E como é que fica a limpeza da fossa?”

“Ó mar da marejada/ ó mar de plenilúnios, moluscos e marolas/ garbosa e guapa vaga irrompe/ lava a crosta, retorna e se repete…”, recitou o professor, de olhos sem expressão voltados para um céu que ele nem via, por causa do telhadinho que mandara fazer para proteger o novo portão.

“O que o senhor disse, meu senhor?”, perguntou o homem, mais calmo e bastante embaraçado.

“Nada. É somente um poema. Meu.”

“E o que cacete isso tem a ver com a fossa?”

“Calma, seu, seu…”

“Borrachão. Chama logo pelo vulgo.”

“Muito próprio. Mas, é o seguinte: quando sinto o estresse me invadir, como aconteceu agora, eu simplesmente me largo do mundo e recito um dos meus poemas…”

O homem balançou a cabeça, mais constrangido ainda, e baixou ao chão o material que levava numa espécie de saco, às costas. Resolveu fumar um cigarrinho.

“Me desculpa, seu Benardo, mas qual é a profissão do senhor?”

“Professor.”

“De escola do Estado?”

“Sim. Por quê?”

Borrachão não pôde deixar de rir. “Está explicado”, disse.

“O que está explicado?”

“O senhor é funcionário público. Tem tempo de fazer essas coisas que o senhor falou aí. Mas, por favor, seu Benardo: tem limpeza de fossa ou não tem?”

“Não tem.”

“Como? Eu fui chamado pra isso! Peguei um lotação pra chegar até aqui. Investi uma fortuna. Estou deixando de atender outro cliente. Por que me chamaram, então?”

De repente, olhando para Borrachão através da grade, o professor teve a inquietante sensação de estar preso dentro da sua própria casa. A violência da cidade exigia não só aquelas grades como justificava toda e qualquer atitude defensiva. A um custo muito alto. Como perder a amizade da sogra por causa de um cão de guarda. Esse pensamento o arrepiou e ele deixou sua mente voar. O outro reagiu de imediato.

“Ei, você fez uma cara agora de quem vai falar aquelas coisas de novo…”

“Não, não vou não, esqueça. Seguinte: não vai ter limpeza de fossa porque não tenho mais um tostão no bolso. E só recebo sexta-feira que vem.”

“Sabia que você ia me convencer a receber com pré-datado. Vamos fazer assim: metade hoje e metade na sexta-feira.”

“O senhor não entendeu, seu Borrachão. Não posso pagar. Deve ter sido Marília, minha mulher, que chamou o senhor. Ela errou, reconheço. E não pode nem lhe pedir desculpas, foi levar as crianças pra vacinar.”

“E eu fico como? Sem trabalho, perdi o tempo, a passagem… Estou aqui há quinze minutos atrás dessa grade, o cachorro quase me comeu e o senhor nem me convidou a entrar.”

“O senhor vê. Vida de merda.”

“Merda o senhor vai ver quando sua fossa arrebentar. Sabe que tem gente que desmaia quando o cheiro de merda é muito forte? Aquilo são gases quase venenosos.”

“De certa maneira, seu Borrachão, eu já estou nadando na merda.”

O professor disse isso como uma defesa, sem a menor convicção. Estava vendo, na sua mente, a massa de matéria fecal arrebentando o cimento, extravasando, invadindo o quintal, fazendo submergir as mudas de árvores frutíferas que sua consciência ecológica havia insistido em plantar, apesar dos protestos das crianças que reivindicavam o espaço para brincadeiras. A bosta subindo e invadindo a casa pela cozinha, as cadeiras arrastadas, ele e Varão, em pânico, escalando a cômoda, de narinas inflamadas; Varão, com seu olfato privilegiado, chegava a ganir de desespero.

“Ah, mar dos ancestrais/ medusas abissais/ e o monstro da maldade, escamas sublevadas/ cetáceos dilacera e polvos e sereias/ seus olhos verde-musgo garantem que a Morte/ é única verdade/ é meta e esperança…”

O professor Bernardo gesticulava agora, agitado, ao ritmo dos seus próprios versos. Varão se aproximou, tímido, sacudindo o rabo. Borrachão recolheu seu material, não sem uma certa angústia, olhando o professor com piedade, e deu meia-volta em direção do ponto do lotação.

“Não deve ser fácil ganhar o que ele ganha”, resmungou para si mesmo. “E eu, que deveria ficar com raiva, ainda vou embora de coração apertado.”

Durante muitos dias, o bombeiro não conseguiu tirar da mente a figura do monstro da maldade, de olhos verde-musgo, a garantir que a Morte é a única verdade.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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(Minha mulher sentada na cadeira de balanço, a mesma em que eu morri do coração. Dunga, à sua frente, observando-a com o cansaço habitual, a língua pingando saliva. Minha mulher roda nas mãos o meu revólver calibre 22, cano médio. Ela está muito magra, sem peitos, e a perna esquerda inchada de filariose. De vez em quando levanta os olhos para o cachorro.)

“Dunga, meu filho, cachorrinho bom… você comeu hoje? Foi pouco, não foi, Dunga? Mas o que eu posso fazer? O instituto está pagando uma miséria… seu tio Eufrásio, lá na Bahia, ninguém sabe dele e mesmo que eu soubesse não ia pedir nada, a gente morre de fome, Dunga, mas não pede nada a ninguém… a ninguém, está ouvindo?”

(Minha mulher chora. Com um lenço, que é mais um trapo, bordado em ponto-de-cruz, enxuga os olhos, calmamente. Funga.)

“Não posso me esquecer dele. Dunga. Já fiz tudo: não posso. Você ainda se lembra dele? Claro que se lembra vocês dois eram tão amigos…”

(Levanta-se com dificuldade, põe o revólver em cima da mesinha ao lado, vai para o nosso quarto. O cachorro lambe as patas dianteiras. Ela volta com uma fantasia colorida, amarela, vermelha e azul, de cetim.)

“Você se lembra disso, Dunga? Foi quando ele tinha um ano e meio, só um ano e meio, você não era nascido, agora você está velho, seus dentes estão caindo… Mas você se lembra disso? Foi no carnaval de 1944, a gente estava nesse tempo na Boa Vista… não se lembra não, cachorrinho? Guardei isso mais de quinze anos…”

“Ele morreu tão moço… meu irmão Alberto morreu com vinte, da Espanhola. Dunga, você sabe o que é a gente criar um filho único todo esse tempo, fazer tudo por ele e agora um satanás matá-lo sem nenhuma piedade, sem pensar nesta velha acabada? Mas pra que o satanás fez isso, Dunga? Você veja: ele podia ter dado uma surra no menino, podia ter dado parte à polícia, ter feito qualquer coisa, mas matar o meu filho… o único… o meu querido…”

(Minha mulher volta a usar o trapo, agora soluçando, sacudindo os ombros. O cão vai saindo, devagar.)

“Dunga, aqui!”

(Ele volta apressado, procura uma posição mais cômoda, boceja gemendo fino.)

“Cachorrinho… preciso falar com você, preciso falar com alguém, você não entende? Você não entende que eu não posso viver só? Se Jerônimo estivesse vivo ele teria se vingado, tenho certeza! Não era homem para aguentar que lhe matassem o filho e ficar sem fazer nada. Você não gostava muito de Jerônimo, não era, Dunga? Eu sei, ele batia em você, às vezes sem necessidade, mas não era ruim, você sabe que ele não era ruim, tinha só os estouros, depois se desmanchava em mil desculpas… Olhe Dunga, vou lhe dizer uma coisa, mas fique entre nós; é isto: Jerônimo tinha complexo! Sabe por quê? Porque eu era preparada, tinha curso, falava bem francês, tocava piano… Você sabe quem papai era não sabe? O Desembargador Braga, homem formado, ilustre! Se ele estivesse vivo também nada disso estaria acontecendo… Não digo que ele tivesse mandando matar o escuro, não era homem para isso, era um homem teórico, escrevia bem, era muito lírico. Mas ele, mesmo com diplomacia, não deixaria impune aquele diabo, como os advogados querem fazer. O último jornal já disse que é quase certa a absolvição do escuro. Isso é uma injustiça. Dunga, que clama aos céus…”

(Minha mulher brinca com a arma, rodando o tambor, pondo e repondo balas, examinando-as demoradamente. O cachorro continua imóvel aos seus pés, o focinho apoiado no chão.)

“Dunga, às vezes penso, quer dizer, eu não só penso como tenho certeza: a culpada disso tudo foi aquela menina, irmã do escuro. Aquela triste provocou isso tudo, cachorrinho, a culpada foi ela, pode crer. Ninguém a chamava prá cá. Outra coisa: pros dez anos que ela tinha, era muito sabida. Eu sabia o que ela falava com Maria, a lavadeira, coisas que com vinte anos eu nem sequer pensava, coisas horríveis! Dunga, você não tem assim a impressão de que foi ela que provocou o meu querido? Ela só tinha dez anos, mas com um corpo de mulher, quase. Os seios já estavam pontudos e sabida como era… Você repare, ela mesma é que marcava a hora em que meu querido estava em casa para vir mexer com ele, brincar, naquele agarramento… Olhe, era ela mesma que vivia dando beijo nele; mesmo quando ele estava estudando, ela ia em cima, em cima… Você sabe o que é homem, não é, Dunga? O meu querido não devia ter feito aquilo, foi errado, eu reconheço, mas homem é assim… Até seu Jerônimo não andou se enfeitando praquela empregada que a gente teve na Rua Imperial, aquela menina de quinze anos? Agora, por quê? Porque ela mexia, provocava! Olhe, Dunga, homem é uma raça ruim, mas mulher… hum… mulher é uma desgraça! Eu sou mulher e posso falar sentada de cadeira.”

(Os dois imóveis: ele deitado no chão, ela fixando os olhos nos bibelôs sobre a cristaleira, num êxtase.)

“Sabe de que eu me lembrei agora mesmo, Dunga? Da vez que aquele escuro veio aqui em casa, a primeira vez, você latiu… se lembra? Ele chegou com aqueles dentes de cavalo, atrás da menina. Ele disse: Gracinha dá muito trabalho aqui, não e mesmo? Ela gosta daqui, sabe, gosta muito da senhora, do rapaz…”

“Meu querido tratava o escuro tão bem, tão delicado que ele era, o meu querido. Convidou o escuro para aparecer de vez em quando… Ah, meu Deus, por que ele foi fazer aquilo com a menina, por quê? Mas também não precisava matar, não era para matar o menino. Ele trabalhava tanto, estudava à noite, tinha só aquela idade, um futuro pela frente, não era nenhum gênio, mas era esforçado, lia muito, não precisava matá-lo, Dunga… Lá no Riacho das Almas uma menina casou com onze anos… Pronto!”

“Se esperava mais um ou dois anos e ele então casava com ela. Está certo que ele violentou… Ela sofreu um pouquinho, esteve no pronto-socorro, mas voltou no mesmo dia, direto para casa e está boazinha por aí, andando, correndo… Quando eu vejo aquela triste passar por aqui, Dunga, me dá vontade de morrer, de matar todo mundo, de acabar logo com essa angústia… Você sabe quando é que eu vou receber o dinheiro miserável do Instituto? Daqui a cinco dias! Daqui até lá a gente tem de passar fome, viu, Dunga? Fome! Estou com cuidado em você, velhinho, você está bem velho, mas vá aguentando…”

(Minha mulher leva a fantasia de volta ao quarto, acaricia o cetim desbotado e volta com um álbum grosso de fotografias, escrito na capa: Meu Filho.)

“Aqui, Dunga, ele com dois anos, eu, de vestido branco, Jerônimo, está sério aqui, olhe, Ivaldo, Norma, Madalena, olha que bonitinho o meu querido, gordinho nessa época… olhe outra, não, aqui é só Jerônimo com a farda da Polícia Militar, prá cá, aqui papai e mamãe, olha você aqui, Dunga, novinho… a casa da Boa Vista, Ari, aquele amigo do meu querido, Zilma, Ivaldo de novo, mamãe… acho que o retrato que ele tirou comigo está solto aqui atrás…”

(Folheia avidamente o álbum até descobrir um postal entre as últimas páginas, solto. A segura com as mãos trêmulas e volta a chorar: fino, pausado, como uma criança. O cão levanta o focinho curto, estica as patas, espreguiçando-se.)

“Ele e eu aqui, Dunga. Estava mais magrinho, foi mesmo no dia em que fez dezessete. Foi lá no fundo do quintal que Ari bateu a fotografia. Me lembro que ele até lhe chamou para você posar com a gente, mas você não quis, era a família toda… Dunga! Você também é da família, é cria da casa! Oh, meu Deus, não pode ser verdade que tenham matado o meu querido. E eu nem pude vê-lo no caixão, mas você viu, Dunga. Ele estava diferente? As facadas foram no pulmão, por trás, deve ter doído muito… E eu não pude ver por causa da crise de nervos. Desde que o meu querido morreu, meus nervos ficaram arrasados, também não sei como não morri. Você sentiu, não foi, Dunga? Depois me contaram que você uivou a noite toda. Olhe, cachorrinho, eu e você não estamos muito longe da morte, não. Que me interessa mais viver? Pra quê? Não era para matar o meu querido, não era. Ele depois se casava com a menina, só esperava que ela ficasse mais velha. Também não foi tão grave assim. Disseram que ela sangrou muito, demais, eu é que não acredito, já era quase moça feita, meu filho também não era um… anormal. Eu sei disso. Não era mãe dele, não o via nu? Se dona Eunice ouvisse o que eu estou dizendo agora, nossa, ficaria escandalizada! Ah, gente imbecil, sem educação, sem cultura, ainda bem que tirei aquele curso, hoje ninguém diz, assim neste estado, velha, magra, doente, uma perna aleijada, ninguém sabe o que eu sei, o que aprendi, o que li, quando era moça, até a educação sexual fui eu quem dei ao meu querido, Dunga. Quando ele começou com as poluções noturnas, ficou assustado, eu expliquei a ele, falei: existem as poluções brancas, que são aquelas que vêm sem os sonhos eróticos; e as outras, como é mesmo? Como é o nome… polução branca e … não, minha memória está ruim, era boa, quando moça…”

(Mais uma vez minha mulher levanta-se da cadeira de balanço. Põe o álbum e o revólver carregado sobre a cristaleira. Arrasta-se até o quarto de novo, volta com uma toalha de mesa, amarela, de plástico. Olha para o teto: é casa antiga, de taipa, estropiada. O cachorro fica se esticando no chão, enfadado. E ela, de repente, faz uns gestos bruscos, espalha a toalha sobre a mesa e, abrindo a cristaleira, vai retirando xícaras, descansos, pratos, enquanto cantarola avé, avé, avé Maria.)

“Vou colocar a mesa como sempre, Dunga. Às vezes eu me pergunto se isso é um sonho, uma coisa que não aconteceu, um pesadelo. Você sabe, Dunga, passo a noite toda acordada, ouvindo o portão ranger, assim mesmo quando no tempo do colégio em que ele voltava tarde… Ia tão bem no trabalho, eu falei com o chefe, ele me disse: ‘o rapaz é bom, dona, pode ir longe, não se preocupe com ele’. Um advogado muito simpático, um homem fino como papai era.”

“São essas coisas que a gente não quer lembrar e não tem jeito de esquecer. Ficam martelando, batendo na cabeça, azucrinando… O que aconteceu, por umas certas coisas, eu peguei. Olhe que eu não sou mulher ignorante, fiz curso, cachorrinho, se estou neste bairro miserável, neste chiqueiro de casa é porque não tive sorte, Jerônimo não teve sorte, mas o meu querido, se estivesse vivo, tenho certeza: ele ia me tirar daqui logo, mesmo antes de se formar em engenheiro, a vontade dele… Pois é, Dunga, eu não sou burra não. Por umas certas coisinhas eu peguei tudo. A menina deve ter estado aqui no domingo em que fui a casa de dona Rita, só estava você em casa e o meu querido, não foi? Não canso de dizer que ela teve culpa também. Ficava em cima, em cima… ela deve ter feito alguma coisa mais séria e ele ter perdido a cabeça; aí, então… E o resto… quando ele viu que ela sangrava um bocado, ele quis dar um jeito, não deu, então ela deve ter gritado, sim, foi isso, ela gritou e ele correu pra rua, os vizinhos acudiram, avisaram o irmão dela, aquele escuro podre, então ele foi atrás do menino e lá perto da padaria meteu a faca nele, pelas costas, na correria, duas facadas vazando o pulmão, deve ter doído muito. E da dor ele não me falou nada pra não me magoar mais.”

“Sim, cachorrinho, sabe que o meu querido falou comigo? Ah, eu vou lhe contar! Eu nunca me meti em espiritismo, isso é coisa pra gente de baixa posição social, mas quando a carioca me falou que eu podia conversar com meu querido, por meio do espiritismo, ah, Dunga, eu não refleti um segundo. Sabe onde é? É uma casinha da Torre, perto da igreja. Uma mulher chamada Rosa, uma médium, amiga lá da carioca, ela se concentrou, rezou umas orações e depois se mexeu assim… estrebuchando, e aí disse:

‘Mãezinha… Mãezinha…’

Eu fiquei sem jeito, fiquei muda. Então a carioca bateu no meu ombro por trás: ‘É ele! É ele!’ Aí eu perguntei quase chorando, cachorrinho: ‘meu filho, você está aqui?’ Aí ele disse pela voz da mulher: ‘eu estou bem, mãezinha, estou livre, reze muito por mim, para eu ficar melhor, não foi por gosto que eu fiz aquilo, mãezinha…’ Aí, Dunga, eu já suportava mais. Perguntei, chorando ainda: ‘doeu muito, meu filho, doeu muito, as facadas?’ Eu agora digo, ele não quis me angustiar, até bom ele foi nisso: ‘não, mãezinha, não doeu quase nada…’ ”

(Ela para, uma faca lhe escorrega das mãos, cai sobre um prato. O cão se assusta. Ela está arfando, exausta, joga-se numa cadeira.)

“Ele me chamava de mãezinha, ele sempre me chamava assim, era tão carinhoso, diferente do pai. Olhe, Dunga, eu acho que sei o que foi aquilo. O rapaz não era mulherengo, era caseiro e eu tenho uma desconfiança que não disse a ninguém, vou dizer a você, agora guarde segredo: eu acho que o meu querido nunca conheceu mulher! Nunca! Ele era muito tímido, acanhado, você sabe, não teve namoradas, só um flerte com a Mariazinha, coisa de crianças, e eu digo que ele nunca conheceu mulher pelo seguinte: ele tinha o membro, sabe, o pênis, assim…pontudo, quero dizer, bicudinho feito de menino pequeno. Ele ainda tinha assim. Quando homem conhece mulher, aquela pele se retrai e deixa a cabeça do membro do lado de fora. Não sei se você me entendeu, mas é mais ou menos assim. Os judeus quando se batizam cortam aquilo. Também não sei, pode acontecer que ele tivesse fimose, que é uma coisa muito comum, mas eu acho que não, que ele não conhecia mulher mesmo. Foi por isso: ele nunca teve esses contactos, então apareceu a menina provocando, e aí… Só pode ter sido.”

“Você veja, Dunga, o jornal. Mentiu, difamou o menino, tudo contra ele, sem nem respeitar a memória do defuntinho. Veja o que aqueles demônios ainda hoje escrevem: ‘O Monstro do Motocolombó’. Primeiro que este bairro aqui ainda não é Motocolombó, e chamar o menino de monstro e contar a história errada, mentindo, só para fazer sensação… Eles são uns hipócritas, uns comunistas, gostam de fazer os outros sofrer, dizendo que quando o meu filho viu o que tinha feito quis matar a menina, que foi detido pelos vizinhos, depois o escuro viu o que tinha acontecido e passou a faca nele, mas foi por trás, na traição… O meu querido não pôde nem se defender.”

(Minha mulher se arrasta até a estante de tijolos e tábuas. Apanha um jornal, revira-o, aperta os lábios. O cão atento.)

“Veja aqui, Dunga. O advogado do escuro falando: ‘É inequívoca a absolvição de Djalma Emídio de Freitas’, diz o causídico Heraldo Roque. ‘O crime foi cometido em legítima defesa da honra e o meu constituinte encontra-se em estado de elevado moral, haja vista sua reação psicologicamente normal e humanamente justificável.’ Sei, sei. O maldito de consciência limpa, não é? Eles dizem o que querem e bem entendem. E jurei nunca mais comprar os jornais que chamam o meu querido de monstro, tarado e outras barbaridades, que a cidade toda se revoltou com o crime dele, estupro; mas quem se revoltou com o crime do mulato, crime de morte?”

(Enquanto o cachorro se espreguiça, ela amassa o jornal contra a mesa. Puxa o trapo do bolso, vai chorar novamente, a minha mulher.)

“Pronto: duas xícaras, dois talheres. É como se o meu querido viesse jantar hoje comigo. Quando ele chegava em casa você ficava tão contente, não era, Dunga? Mas eu guardei a boa pra lhe dizer agora, cachorrinho…”

(Ela curva-se com muito esforço, abraça o animal que tenta levantar-se, desconfiado.)

“Passei pela cadeia hoje, cachorrinho! Estão construindo um edifício atrás e um barulho infernal de uma máquina vai ajudar meu plano. E você acha que eles vão revistar uma velha como eu? Já está tudo pronto, já pensei em tudo. Ah, eu vivo nesta miséria, mas se enganam comigo. Não sou burra não, tenho curso.”

(Minha mulher volta ao quarto para trocar de roupa.)

“Eles estão certos, estão certos! Legítima defesa da honra, é, ele está certo, o tal de Heraldo Roque. Todos estão certos, Dunga, até o padre Moreira está certo. Você viu como ele fez cara feia para celebrar a missa de sétimo dia do meu querido? Eles pensam que eu não sei, mas eu leio os pensamentos deles todos. Na certa pensou: ‘como é que eu posso celebrar missa para um monstro, o monstro do Motocolombó?’ Não, ele não está errado. O meu querido é monstro, não é, padre vigarista? Se eles soubessem a verdade, se soubessem…”

(Ela vai apressada para a rua, seguida lentamente pelo cão.)

“Está tudo pronto, cachorrinho. A mesa posta, tudo pronto. Daqui a pouco eu chego e faço café. Só tem café e umas bananas. Você precisa compreender, Dunga, que aquela miséria do Instituto não dá pra nada. Eu só estou pensando em você, velho desse jeito, ter de passar fome. Em mim não, o que eu já passei… Bem, Dunga, eu volto. Cuide da casa. Mas, meu Deus, não é que eu ia esquecendo? Estou com uma cabeça…”

(Volta, pega o revólver em cima da cristaleira para colocá-lo, com muito cuidado, na bolsa. O cão uiva, baixinho.)

“Não se incomode, Dunga, eu volto. Mas é claro que eu volto. Ninguém vai descobrir, planejei tudo, ninguém vai saber. Que horas são? Puxa, já quase cinco…”

 

 

“Gostaria de falar com Djalma Emídio.”

“Como?”

“Djalma Emídio. O rapaz que…”

“Sei, sim, sei quem é. É coisa urgente?”

“Muito urgente. Tenho um recado do advogado dele. Sou madrinha dele.”

“Está bem, pode vir. Só que a senhora, para falar com ele, vai ter de gritar mais do que aqui. Essa máquina faz um barulho desgraçado. Lá onde o rapaz está ainda é pior. É preciso gritar, bem alto. A senhora quer vir?”

“Não tem importância, eu…”

“Oh, desculpe, É negócio particular, não? Sim, a senhora disse, coisa do advogado. A senhora é madrinha dele, não é? Olhe, pode ficar tranquila. Esse rapaz já está solto. Aposto que vai ser por unanimidade. O que ele fez eu faria, qualquer um faria, minha senhora. A senhora não se preocupe com isso. Sou capaz de apostar. Quem mata um tarado daqueles não merece nem ser preso. Faz um bem à sociedade, não seja por isso que a senhora vá se preocupar. Olhe, eu tenho uma menina…”

“Por onde é mesmo que se vai?”

“Ah, sim, é por aqui. Olhe, a senhora dobra à esquerda e vai embora. É a última cela do lado direito. Ali, no lado direito, lá no fim. Pode ir. A senhora entendeu o que eu disse? Eu já estou rouco de gritar por causa dessa máquina.”

(O policial leva-a pelo braço, até a metade do corredor. Ela agradece, segue sozinha.)

“Meu Deus, acho que estou ficando doida. Não me lembro nem do nome do escuro e esse diabo chamando o meu querido de monstro, culpando o menino. Nem ele sabe de nada. Ninguém sabe de coisa nenhuma. Eu achava mesmo que não ia ficar boa do juízo, por causa desse barulho… a cabeça rodando, rodando… Cadê Dunga? Mas Dunga não ficou em casa? Você parece que está doida mesmo, velha! Ah, é aqui.”

“Escuro! Dunga! Ei, Dunga! Dunga!

(O homem levanta-se da pequena cama, vai até as grades, tenta identificá-la. Devagar, ela abre a bolsa, retira o revólver. O homem joga-se no chão.)

“Você sabia demais que ia morrer Dunga! Pensou que ia ficar assim? Toma outra, escuro! E ainda quis escapar, hem? Por baixo da cama… Outra! Eu não sabia que este gatilho estava tão emperrado; também, fora de uso, essa dormência nas mãos… Outra! Escuro! Eu acho que você já se acabou, demônio! Mas talvez eu tenha mais uma para você, cachorrinho…”

(Minha mulher acaba de honrar o nome da minha família. Agora é a minha vez de ajustar as contas com esse filho da puta. Aqui.)

Do livro “Querido Senhor Assassino” – Editora Símbolo, São Paulo, 1979.

 

 

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Seu Louzeiro chegou, sorridente, amparado pelo filho. Zé Izidro, o cabeleireiro, exultou. Os clientes andavam rareando e aqueles dois representariam um bom faturamento.  O filho viera um dia antes para negociar o corte do cabelo do pai. Agora, lá estavam, muito adiantados no horário. Zé Izidro pediu desculpas pela inevitável espera.

“Por mim, não há problemas”, disse o velho, que já passara dos oitenta. “Os mortos não têm compromissos”.

O cliente que cortava o cabelo naquele momento, seu Onofre, ia pra lá dos sessenta e não gostou nada da pequena manifestação de humor negro. “Cada figura que você arruma, não, Zé?”, ele resmungou.

E seu Louzeiro acabaria sendo responsável por um outro momento interessante, naquela tarde, ao folhear uma das revistas de mulheres nuas que Zé Izidro deixava distraidamente ao alcance dos seus fregueses, todos homens.

“Júnior!”, gritou o velhinho para o filho, que examinava um jornal do dia, do outro lado da sala, “esta revista aqui está cheia de mulher com a xoxota de fora!”.

“Vai em frente, pai”, disse Júnior, mais interessado em uma reportagem sobre fundos de investimentos. “Na revista inteira tem mulher assim…”

“Muito cara, esta revista, Júnior?”

“Baratinha. Se o senhor quiser…”

“Não, não. Agradeço.”

‘Velhinho do interior visitando a capital’, concluiu o cabeleireiro que, de vez em quando, dava uma olhada para examinar, divertido, o afã com que seu Louzeiro passava e repassava aquelas páginas coloridas. Até que chegou a vez dele.

Era um velho cabeludo e meticuloso. Gastou um bom tempo para dar as instruções de como queria o corte. Só no capítulo das costeletas (“curtas, muito curtas”) repetiu várias vezes que não conseguia mantê-las do mesmo tamanho, por mais que tentasse apará-las com o barbeador.

Quando iniciou o corte propriamente dito, o barbeiro fez a pergunta clássica:

“O senhor é daqui mesmo, do Estado?”

“Da França.”

“Ah, o senhor é francês? Mas está aqui há muito tempo, não? Não tem sotaque nenhum…”, foi dizendo Zé Izidro, convencido de que havia algo estranho com o velhinho que, com a mão esquerda, segurou-o pelo avental branco e puxou-o para si, fazendo sinal de silêncio com o dedo indicador direito:

“Sabe”, sussurrou, “meu filho não gosta que eu conte a minha vida a estranhos. Medo de sequestro. Mas o senhor, ora, o senhor é confiável. Tem cara de homem honesto. Eu voltei ontem da França. Da minha terra. Estou até meio tonto por causa do fuso horário. Mas, meu caro, vamos falar nós dois aqui, bem baixinho.”

“Tá bom, tá bom”, disse o cabeleireiro, baixando o tom. E emendou:

“Puxa, o senhor deve levar uma vida bastante cansativa…”

“Ah, não me goze… Como é o seu nome mesmo?”

“Zé Izidro.”

“Você tem nome de vinho popular português. José Izidro. Acho que existe um vinho verde com este nome. Mas, meu jovem, um homem na minha idade não tem vida cansativa. Não vai à Europa todo mês, como antigamente.”

“Ah, sim, desculpe, não foi minha intenção…”

“Foi, sim. Você me confundiu como um mentiroso qualquer. Pensou: tá aí o velho, piradão, querendo me impressionar…”

“Não, seu Louzeiro, eu…”

“Esperto, você, não? Seu… seu vinho verde!”

“Não foi minha intenção duvidar do senhor. Eu acredito, sim, que o senhor voltou da França ontem.”

“Da Bourgogne, precisamente. Andei atrás de uns grand cru. Sabe, vinhos especiais… Mas não nasci na Bourgogne, quem me dera, mon Dieu, que uvas! Que técnica! Sou de Paris mesmo…”

“Ah. O senhor entende muito de vinho, não? Eu não posso tomar. Dá dor de cabeça.”

“Me perdoe, meu rapaz, mas só se você tem bebido coisas muito ruins. Nacionais. Ou esses italianos fajutos.”

O corte seguia e Zé Izidro estava muito impressionado. Ficou em dúvida: um mitomaníaco? Teve vontade de perguntar ao Júnior, ainda grudado nos artigos de economia, se ele também estava muito cansado da viagem… Mas aí poderia perder um cliente. Tem gente que não gosta de ironias, ou de conversar sobre intimidades. O velhinho seria um grande mentiroso ou não?

“Você, pelo jeito, nunca esteve na França, não é? Nem na Europa?”

“Quem sou eu, seu Louzeiro…”

Ia dizer que só havia viajado, na vida, para Salvador, por ocasião da lua de mel, além de um fim de semana no Rio. Mas resolveu arriscar uma mentirinha.

“… pois é, seu Louzeiro, quem sou eu para ir até a França. Já em Portugal estive. Acho até que andei tomando aquele vinho verde que tem o meu nome…”

“Oh, oh”, fez o velhinho, com sotaque de Papai Noel. “Bebeu-se a si mesmo. És gostoso? Oh, oh…”

“Levemente ácido”.

“Os levemente ácidos podem ter grande personalidade. Mas os ácidos, mesmo, eu não gosto. Na verdade, você me perdoe, você é um José Izidro, mas eu não vejo muita utilidade num vinho verde. Um bacalhau, por exemplo, é melhor acompanhado por um tinto não muito encorpado.”

“Gostei muito da Mouraria, em Lisboa”, disse o cabeleireiro, lembrando-se de uma reportagem que havia visto na televisão.

“Sim… da velha rua da Palma.”

Seu Louzeiro mais uma vez puxou-o pelo avental, até que sua boca chegasse muito próxima ao ouvido direito do cabeleireiro.

“Frequentei muito a boêmia da Mouraria, com meus amigos franceses. Cheguei a fazer a corte sabe a quem?”

“Nem imagino”, disse o outro, desvencilhando-se com alguma dificuldade. Bem forte, o velhinho.

“Catarina Dumond”.

“Ah, conheci muito, da última vez que ela esteve no Brasil”, retrucou Zé Izidro, que jamais ouvira aquele nome antes.

A partir daí, silêncio. O cabeleireiro achou que havia ido longe demais. Seu Louzeiro ainda assobiou uma canção antiga, disse “pardon”, enquanto pediu, com um gesto, uma outra revista de peladonas. Devorou-a, como a uma guloseima. Depois exclamou “d’acord, d’acord”, quando Zé Izidro perguntou, ao pai e ao filho, se haviam gostado do corte. Júnior fez um gesto de positivo com o indicador, de longe, e pagou em dinheiro, com uma boa gorjeta.

O velhinho teve alguma dificuldade para descer da cadeira: a perna direita ficara dormente. Ele não havia ultrapassado a porta do salão, quando comentou com o filho, em voz mais ou menos alta:

“Você se lembra, Júnior, da Catarina Dumond?”

“Não, pai, não tenho a menor ideia”, respondeu o filho, sempre paciente. “Algum problema com ela?”

“Não confie nas mulheres, Júnior. A Catarina esteve no Brasil e não me disse nada.”

O filho, carinhoso, ainda pediu que ele não se envolvesse tanto com “essas histórias todas que o senhor mesmo inventa”. Seu Louzeiro reagiu, irritado, dizendo que a ele soava como uma ignomínia o pai ser chamado de mentiroso pelo próprio filho. Júnior pediu desculpas.

“Eu não quis dizer ‘inventa’, pai, mas ‘recorda’.”

“Ah, bom”, resmungou o velho, voltando a assobiar “Cuore Ingrato”, uma canção italiana antiga.

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Minha função é falar, mas entro mudo e saio calado no novo emprego. Simplesmente porque não há com quem conversar. Não tenho colegas. Jamais pensei que fosse trabalhar assim.

Fui obrigado a aceitá-lo porque umas fantasias começavam a rondar minha mente e eu me via vendendo balas nos faróis.

Foi Adroaldo que me descobriu, ou seja, descobriu minha voz. Liguei para ele, amigo novo, mas dedicado, perguntando se sabia de alguém que precisava de um auxiliar de enfermagem. Estava topando até pajear velhinhos. O dinheiro havia acabado. Já vendera um relógio antigo da mãe. Sou religioso, temo a Deus, mas não tivera retorno de nenhum pedido que fizera ao Divino.

Adroaldo não respondeu de cara; achei estranho. Levou um tempo e disse:

“Quer repetir?”

“Repetir como?”

“O que acabou de perguntar…”

“É brincadeira?”, ainda perguntei, antes de repetir o pedido.

“Você sabe que possui uma voz bastante expressiva?”, admirou-se Adroaldo. “Eu não havia reparado assim, ao vivo. Agora percebo. Mas é no telefone que sua voz arrasa.”

“Eu?”

“Você. Bem, tenho uma indicação. Mas precisamos conversar antes. Pessoalmente. Só nós dois.”

Imaginei que Adroaldo iria me oferecer um bico de narrador de propaganda política; as eleições estavam chegando. E ele é ligado ao pessoal da oposição. Tudo bem, desde que eu ficasse escondido em algum lugar, porque sou excessivamente tímido.

Marcamos num bar da esquina de casa às nove da manhã. Ele chegou, olhou o ambiente, vazio, por sinal, mas disse que preferia conversar em local mais reservado. OK. Pegamos um ônibus até a zona sul. Sentamos lá atrás. O cobrador fez uma cara estranha: acho que pensou que éramos caso.

“O que vou lhe dizer ficará eternamente entre nós, meu velho. É coisa de irmão pra irmão. Você não poderá tocar nesse assunto nem sob tortura…”

“Preciso de dinheiro, Adroaldo. Só não roubo nem faço michê.”

“É um serviço novo que tem aí. Reservadíssimo. Você fica no telefone…”

“Falando sacanagem pras solitárias? Pras bichas? Saquei.”

“Não é nada disso. É… parecido. Primeiro que os clientes são escolhidos na elite, o preço do minuto é muito alto. Depois, não há propaganda do serviço. É tudo boca a boca. E a regra principal é justamente a privacidade. Se ganha bem. Mas você tem de passar no teste com seu Piva.”

E lá fomos, em direção a um bairro de classe média muito, muito alta. Chegamos a um casarão. Não sei como o Adroaldo se meteu com essa gente. Fomos recebidos por uma secretária branquela, sem pintura, com uma roupa negra elegante que não lhe mostrava sequer os joelhos. Se dissesse que aquilo era um templo disfarçado, eu acreditaria.

Esperamos um momento numa sala de móveis metálicos, sem cinzeiros. Eu já não fumava havia anos, mas não deixava de perceber quando os anfitriões frustravam os viciados. Achava engraçado. Novos tempos.

Seu Piva chegou de terno e gravata, ambos azul-marinho. Alto e magro. Poderia ter quarenta e oito ou sessenta anos, não dava para ter uma ideia. Cabelos pintados com o cuidado de deixar alguns fios brancos. Não sorria. Tinha sotaque do sul. Talvez do Paraná.

Adroaldo me apresentou rapidamente e saiu. Achei-o respeitoso demais com seu Piva, que me ofereceu a mesma cadeira onde eu estava, com um gesto elegante, educado.

Ele explicou, com voz pausada, que vivíamos num mundo complexo, onde o dado comum era o excesso de individualismo, o que vale dizer, solidão. Concordei com a cabeça. E a solidão, ele continuou, não escolhe classe social, ou melhor, talvez os ricos e os quase ricos sejam mais solitários do que a maioria pobre. Também concordei.

“E nós nos propomos”, ele concluiu, “a aliviar um pouco essa carga dos infelizes”.

Tudo bem. Mas aí vinha o “como fazer”.

Seu Piva possuía uma fantástica capacidade para envolver pessoas. Ou tudo o que ele falava era a pura verdade. Eu só concordava. Ele explicou que a maioria das pessoas confunde necessidade de afeto com sexo. E que, através do sexo, que seria a forma mais animal da satisfação da necessidade de afeto (aí não concordei, exatamente), as pessoas se sentiam plenas por algum tempo, o suficiente para que pudessem tocar suas vidas, sem antidepressivos ou mesmo drogas pesadas.

Era inevitável a pergunta: “e eu, como entro nessa?”

“Não sei se você entra”, disse seu Piva. “Vamos testá-lo de várias formas, se você o permitir. Seu timbre de voz é perfeito. Calmo, bondoso, carinhoso. Acredito que você fará sucesso. Qual é sua escolaridade?”

“Formado em enfermagem. Mas leio muito. Sei quem foi Aldous Huxley.”

“Maravilha.”

Os testes foram feitos naquele dia mesmo. Puseram na minha frente uma pequena e sofisticada aparelhagem de som, com microfone embutido. Alguns livros. Alguém, voz de mulher, me fez perguntas de cultura geral, pedidos para que eu pronunciasse, cheio de sentimento, certas expressões como “agora mesmo, amor” ou “eu te entendo como ninguém, querida”. Fui obrigado a ler trechos dos livros, alguns bastante picantes, mas sem baixarias. Foi cansativo, mas eu estava gostando. E ainda me serviram duas refeições perfeitas nas dez horas em que passei por ali.

Seu Piva entrou na sala, finalmente, e pediu que eu voltasse ao local no dia seguinte. Me fez jurar, uma vez mais, que não tocaria no assunto com ninguém, nem mesmo com o Adroaldo. Era a regra do “serviço”.

Cheguei a casa muito tarde, a mãe de cabelo em pé. “Procurando trampo, mãe, procurando”, ainda disse, dando um beijo na testa da velhinha. Tive a impressão de que alguém me seguia, mas depois achei que era bobagem. Me arrependi de não perguntar a seu Piva quanto ganharia, caso fosse aprovado.

E fui. Com louvor. No dia seguinte cheguei na hora certa, depois de uma viagem terrível, longa, dentro de dois ônibus. Toquei a campainha, seu Piva me recebeu pessoalmente. Desta vez, sorriu. Contido.

“O nosso modulador”, ele disse.

“De voz?”

“Sim, claro.”

Aí voltamos para a mesma sala, ele quase me tirou do sério quando me disse o salário fixo. Além da porcentagem por minuto conquistado, emprego com carteira assinada. O cargo era meio estranho, atendente eletrônico, mas dane-se.

“Você, meu caro, tem tudo para se transformar num campeão de minutos”, ele vaticinou. Poderia ter-me dado um tapinha nas costas, mas não deu.

Comecei a trabalhar imediatamente. Dava pra perceber, pelos ruídos de portas batendo, e algumas vozes esparsas, que havia outras pessoas, talvez umas vinte, andando por ali. Mas eu só tive contato, nos primeiros dias, com a secretária branquela e com seu Piva. Uma semana depois, talvez por causa da gripe da secretária, apareceu dona Flor, a copeira, com minhas sempre apetitosas refeições. Outro que apareceu foi o médico, doutor Simas, que me auscultou e me deu algumas vitaminas. Na sala onde ficava, havia cama, poltrona, cadeiras e um banheirinho. Para que eu me sentisse à vontade e conversasse com as clientes do jeito e na posição que quisesse, através de um microfone preso à camisa. Mas eu percebia que seu Piva controlava, rigorosamente, a hora da entrada e da saída. Para que nós, atendentes eletrônicos, não nos conhecêssemos. Pra falar a verdade, eu não era contra isso, não.

Minha primeira cliente deveria estar na faixa dos cinquenta, contou-me toda a vida, e eu mais ouvi do que falei. Não queria sexo. Só falar e falar. No final, me agradeceu muito e confessou que, se não soubesse das regras, iria me convidar para jantar. “A minha amizade é mais verdadeira enquanto virtual”, eu lhe respondi, e ela gostou disso. Foram duas horas e dez minutos. Segundo seu Piva me contou depois, um recorde para um novato. Nesse primeiro dia trabalhei oito horas porque seu Piva me obrigou a parar. “Vamos aos poucos, meu caro”, ele me disse. “Você está ótimo”.

As próximas clientes, todas mulheres, não foram assim tão gentis como a cinquentona que dizia se chamar Martha, com th. Fiquei assustado com o quanto as pessoas estão usando drogas nas classes mais altas e o nível de insatisfação com seus parceiros (que, imagino, estejam tão insatisfeitos como). Intuitivamente, eu caía fora das baixarias, da pornografia pura, e tentava andar por um caminho mais light, propondo carinhos juvenis, passeios por bosques de sonho, mãos dadas, essas coisas. E isso, segundo me confessou seu Piva, que gravava e ouvia boa parte das conversas, estava aumentando o tempo do serviço. Quer dizer, mais e mais dinheiro.

Dois meses depois, com o primeiro salário no bolso, algo que jamais havia ganho em toda a vida durante um ano, quanto mais em tão pouco tempo, trouxe a velhinha para um apartamento muito mais próximo do casarão, consegui uma empregada que lhe ajudasse nas tarefas de casa e passei a quebrar recordes: quatorze, quinze horas. Num dia cheguei a dezesseis e quarenta e dois, e aí me senti mal. Tonturas, um aperto na garganta. Doutor Simas veio correndo. Diagnosticou uma semana de repouso. Eu protestei, pois começava a sonhar mais alto com a grana, mas seu Piva garantiu que me pagaria a média do meu próprio tempo durante a minha ausência.

“E ainda lhe ofereço uma viagem, pelo menos as passagens de avião. Quer ir a Nova York?”

Disse que não, que preferia guardar para outra ocasião. Peguei a velhinha e fomos visitar uns primos no interior. Inventei qualquer coisa para eles, que trabalhava numa empresa de telefonia, e pronto. Vacas, galinhas, longas caminhadas: voltei com tudo.

No meu primeiro dia de retorno, deu-se a grande virada. Peguei uma figura, menina ainda, toda chapada de cocaína, querendo fazer sexo de qualquer jeito e de todas as maneiras. Aí fui levando, aqui e ali, vamos devagar, para aproveitar melhor, etc. Ouvi uns risinhos, uns suspiros. Percebi que estava num viva-voz bastante moderno, como se tivesse muitos canais. E então, aquela conversa, que se iniciou louca, acabou por se transformar num fórum de debates filosófico-religiosos. Eram cinco, ali, três moças e dois rapazes. Ninguém fez sexo. Pelo menos naquele momento pararam de se drogar. Eu sentia, com nitidez, que alguém me ajudava, internamente, lá bem dentro da mente, a dizer tudo o que disse, nas minhas modulações de voz. Eu sozinho não seria capaz de falar tudo aquilo. Nem sei repetir. Cravei cinco horas e dezesseis minutos, coisa muito rara. E quando acabou o telefonema, estava tão disposto como antes.

Dia seguinte seu Piva me chamou. Disse-me que eu era a pessoa mais importante da empresa e que, por minha causa, havia decidido inaugurar um segundo serviço de atendimento, onde as pessoas poderiam conversar sobre tudo, menos sexo.

“Você me convenceu, rapaz, que há outras formas mais inteligentes, e sobretudo mais sensíveis e produtivas, de conviver com os solitários…”

“Eu?”

“Você. E não venha me dizer que você não se dá conta disso.”

Tive vontade de dizer “mais ou menos”, mas fiquei quieto. Assustei-me mais uma vez com o novo salário, a nova participação e as novas funções. E uma responsabilidade maior, porque, no novo serviço, eu escolheria os… moduladores. Segundo seu Piva, que, mais do que um tapinha nas costas, me deu um abraço de despedida, não é todo mundo que leva uma conversa para caminhos positivos e enriquece os interlocutores com suas observações.

Desafios, agora, são comigo mesmo. Ainda assim me incomoda não conhecer quase ninguém no meu ambiente de trabalho. Mas vai melhorar: vou ter de escolher e certamente treinar os candidatos à modulação e à “divisão new age”, segundo a definição de seu Piva para o novo empreendimento. Sabe, pessoal, estou muito feliz.

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Fico olhando estas meninas, aqui no Jóquei, e não saberia dizer se as desejo ou se elas me encantam apenas esteticamente, como se eu manuseasse um luxuoso álbum de fotografias.

Acredito que não seja eu somente que, aos sessenta e seis anos, tenha perdido a noção da própria sexualidade. Pergunto a alguns amigos mais íntimos e eles revelam a mesma perplexidade. Já não sabem mais o que são: se homens ou sátiros.

As meninas, neste verão, têm-me assustado com suas ousadias: já não existe mais aquela peça tão sensual, insinuante, clássica, chamada sutiã. Elas se expressam de seios nus, de biquinhos colados aos organdis, lãzinhas ou sedas puras; as saias já não são mini, mas micro. E as atitudes deixariam envergonhada minha mulher, tida como bastante avançada, nos anos sessenta, a primeira a ensinar em uma escola de engenharia para platéias noventa por cento masculinas.

Quantos anos estas meninas têm? Dezoito, vinte e um… Não passam disso. Mas é incrível o que falam de palavrões; o jeito profissional de pegar um cigarro; o descuido ao revelar os fundos das próprias calcinhas.

Sou um homem velho, mas magro e esguio e ainda, no meu rosto, notam-se fulgores da juventude. Enfim, sou um velho bonito, como diria Carol, meu último caso extra-conjugal, morta o ano passado, coitada, de esclerose múltipla.

Talvez por isso, por essa consciência, eu não tenha feito cara de trouxa ao ser abordado por uma das meninas de álbum colorido que vejo passar, incólumes, diante da minha mesa e da minha dose light de uísque.

“Posso sentar com você?” (Branquinha de cabelos negros, sorriso infantil, cintura finíssima, bundinha empinada, coxas de aço, seios como sentinelas, camiseta distraidamente aberta, deve malhar o dia todo.)

“Claro, minha filha.” (Poderia ter dito “minha neta”.)

O garçom, muito jovem, veio correndo atendê-la, e percebi que estava especialmente interessado nos seus seios venusianos. Olhou-os do seu ângulo privilegiadíssimo, levou um tempão para escrever a bebida e salgadinhos de queijo na comanda. Não pude deixar de me irritar.

“Está com alguma dificuldade de escrever, meu jovem?”

“Não, não senhor. A caneta está falhando.”

“Sei.”

Ela sorriu para mim e para ele, como quem diz “meninos, eu traço vocês dois, é uma questão de agenda.”

E era. Não perdeu muito tempo. Agradeceu (“obrigado, guri”, ela disse… seria gaúcha?) e foi direto ao assunto:

“Sei que o senhor pode estranhar, mas sou uma menina de programa.”

Fingi, é claro, que não estava chocado.

“Ah, sim, minha menina, hoje é muito comum. Aqui no Jóquei, hoje em dia, mais ainda…” (Décadas de reuniões empresariais me fizeram um craque da desfaçatez; com meus botões estava pra morrer. Como? Uma puta, logo ali, no meu santuário social?)

“Olha, que esperto! (Fez uma cara de quem acreditara. Prostitutas são sempre crédulas, desde a Babilônia, ou não teriam escolhido aquela profissão.) E eu pensei que estava enganando bem…”

“Mas está, sim. Todo mundo acha que você é uma patricinha.”

“Sabe que até já estou me sentindo assim, tanto que me confundem com elas? E também por causa dessas roupas que visto. E, é claro, porque comecei a fazer compras nas mesmas lojas.”

“Está faturando alto, então.”

“Não posso me queixar. Pra minha idade…”

“Vai largar tudo, depois?”

“Claro. Quero ter dois filhos.”

“Já conhece o pai?”

“O pai não importa.”

Pouco antes de sofrer o meu primeiro enfarte, há vinte e cinco anos, quer dizer, antes da dor aguda, senti uma sensação estranha de alheamento, de fuga da realidade. Eu estava envolvido numa operação extremamente tensa, de compra milionária de um estoque de máquinas, não dormia há dois dias e bebia sem parar. Essa sensação voltava sempre que alguma coisa me perturbava além do normal. Foi o que comecei a sentir naquele momento: uma menina linda, perfeita, inteligente, e já destruída pelo materialismo e a usura – principais características da nossa lamentável sociedade.

“Está tudo bem, gatão?”, ela perguntou. (Eu deveria ter mudado de expressão, subitamente.)

“De onde você é, minha filha? De que bairro?”

Ela desconversou, disse que morava em um apartamento de área nobre da cidade, com mais duas amigas. Mas eu insisti e ela acabou me falando o nome de uma vila que me era completamente desconhecida.

“Jovens nos botequins jogando sinuca. Bêbados batendo nas mulheres e nos filhos. Cachorro latindo por todo lado. Garotos vendendo drogas no meio das ruas…”, eu descrevi seu ambiente.

“Onde quer chegar, cara? Todo mundo sabe como é bairro de pobre.”

“Eu acredito que você seria mais feliz, menina, se em vez de abordar velhinhos com propostas indecorosas, passasse a defender sua gente de alguma maneira, e usar sua esperteza, sua inteligência, porque você tem uma boa cabeça, para transformar aquela gente em pessoas respeitáveis. Esse caminho que você está trilhando é individualista, equivocado, e só vai levá-la à morte prematura.”

“Que é isso? Um comunista aqui no Jóquei?”

Ela sorriu um sorriso de mulher feita, gasta, como se já estivesse viciada e morta. Fiquei com pena também de mim que, a vida inteira, não fizera outra coisa além de vender, exatamente como ela, o meu michê profissional, tendo apenas como objetivo a progressão das minhas contas bancárias.

“Ei, cara, você, além de comunista, é meio louco, não? De repente faz umas caras esquisitas, tristes e alegres…”

Agora estava, sim, alegre. Descobrira, afinal, como fugir daquela sensação de alheamento do próprio corpo. Senti-me até rejuvenescido. E não iria perder jamais essa nova energia com aquela pobre menina egoísta.

“Desculpe-me, querida”, disse-lhe, com um certo carinho, “mas os velhinhos são assim mesmo, cambiantes. Por que você não pensa um pouco no que lhe falei? Eu lhe confesso que jamais disse algo tão profundo e tão útil a alguém, na minha vida, mas hoje estou certo de que, se o tivesse feito sempre, teria sido muito mais feliz. Como estou agora.”

Ela insistiu com sua expressão carcomida, levemente devassa, e eu me assustei ao perceber que a estava captando no futuro. Eu precisava fazer algo mais, inventar uma motivação mais forte para tirá-la daquela barra pesada, mas ainda não sabia o quê.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003

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Havíamos planejado aquele mergulho fazia quase seis meses. Eu e Binho não nos separávamos, nem na escola. O padre diretor até procurara nossas mães para dizer que andava muito preocupado com uma amizade tão… estreita.

“O que o senhor está querendo dizer com isso?”, perguntou a mãe de Binho, que não gostava de padres e dizia pra todo mundo que era comunista e que, em vez de adorar santos, preferia prestar culto ‘à santa madre Rússia’. “O senhor acha que eles estão de troca-troca?”

“Eu não disse isso, minha senhora.”

“Insinuou.”

“Longe de mim. É que há tantos meninos da idade deles na escola…”

“Mas, vocês, da Igreja, são fascistas mesmo, não? Agora querem se meter na amizade dos outros? Meu filho escolhe o amigo que quiser. E o seu, Hermelinda?”

“O meu também”, apoiou minha mãe, que, no fundo, admirava a ousadia e algumas posições de dona Celsa, a mãe de Binho.

“Bem”, suspirou o padre, “já não está mais aqui quem falou. Depois, não se arrependam.”

“Arrepender de que, seu padre? Quer ser mais claro?” Dona Celsa dava sempre a última palavra.

“Com licença, senhoras, boa tarde.”

E foi assim que os padres no colégio nos deixaram em paz definitivamente. Ora, ora, troca-troca… Como se nós fôssemos mulherzinhas. Eu sabia que Binho já havia pegado o Angu, um fresco do terceiro ano, mas todo mundo pegava o Angu, atrás das mangueiras, na hora do recreio. Eu não queria saber de encoxar meninos, mas nunca comentei este assunto com o meu melhor amigo. Nós dois gostávamos mesmo era de jogar botão, empinar pipas e bater uma pelada, fazendo tabelinhas no ataque. Mas o maior sonho era atravessar o rio Cajazeiras.

Na volta da escola, uns cinco quilômetros a pé até nossa vila, a gente ia olhando e admirando o Cajazeiras. Não podia haver nada mais lindo! O rio, às vezes estranho, às vezes escuro, mas de águas limpas, escoava com rumores diversos, ora sussurros, ora alvoroços, dependendo do tempo, do vento, da chuva. Binho e eu catalogamos vinte e oito ruídos diferentes que o Cajazeiras fazia. Ele estava sempre vivo, esperto, o nosso rio, formando rodamoinhos ou pequenas ondas que surgiam do nada, de repente. No trecho mais propício ao nado, deveria ter uns quinze metros de largura. As pessoas preferiam a pesca ao banho, mas eu e Binho estabelecemos um pacto: deixaríamos de ser crianças e viraríamos homens de verdade quando tivéssemos coragem de atravessar o Cajazeiras nadando.

Ninguém, no entanto, poderia desconfiar da aventura. Muita gente já havia morrido lá dentro, puxado pelas correntes, ou por uma certa Mãe Fria, uma mulher pelada, toda nua, de cabelos muito compridos, que morava nas profundezas e preferia meninos: puxava-os pelo pé e, antes que eles se afogassem, pedia para ser tocada intimamente. Nós estávamos certos de que, se nos afogássemos, morreríamos felizes.

O plano foi sendo adiado por falta mesmo de oportunidade. Nós, além de nos atrasarmos na volta a casa, chegaríamos molhados, e alguém, talvez nossas irmãs (o Binho e eu só tínhamos irmãs) nos denunciariam. Porque entrar no rio era rigorosamente proibido por todos os pais do lugar.

Chegou um dia, no entanto, em que ninguém das duas famílias estaria em casa, na hora do retorno do colégio, por volta da uma da tarde. Era fim de inverno, o Cajazeiras andava meio nervoso, formando do nada as tais ondas, e o seu ruído principal naqueles dias era o mais agressivo de todos da nossa lista: um chachuá, chachuá intermitente, esquisito.

Nadar, a gente não nadava direito. Havíamos aprendido alguma coisa, em algumas poucas ocasiões, quando a escola ia fazer piquenique na Ilha do Ouro, um grande lago artificial que havia sido formado para a construção de uma hidrelétrica que jamais saíra do projeto. Por causa dessa obra, o povo dizia que o lugar era amaldiçoado pelo governo. Dona Celsa se aproveitava e conseguia votos para os candidatos comunistas. Que acabavam perdendo, sempre. Mas, afinal, nadar não era tão difícil, via-se na televisão, e a maioria dos garotos da cidade havia aprendido na prática, durante os piqueniques de colégio ou nas férias, no mar. Mas nossos pais não tinham dinheiro para nos levar ao mar, a mais de quinhentos quilômetros dali.

Saímos correndo da escola e chegamos bem cedo ao local da travessia. Descemos o barranco, encontramos um bom arbusto para esconder a roupa. Já estávamos com o calção por baixo. Antes de pular na água eu rezei uma Ave-Maria. Binho não rezou, não acreditava em santos, como a mãe.

Meu amigo saiu na frente, dando longas braçadas e gritos de felicidade. Eu o acompanhava, mas logo deixei de gritar, porque entrava água na minha boca. No meio do rio, não consegui manter-me em linha reta – a correnteza estava muito forte. Vi, com os olhos meio embaçados, que Binho já estava alcançando a outra margem. Fiquei muito nervoso com isso (em que direção nadava?) e perdi a coordenação dos braços. Ainda vi Binho, de pé, gritando pelo meu nome.

Entrei, então, em um mundo que jamais desconfiara existir: o tempo passava em outro ritmo, muito lento, e a paisagem do rio por dentro era ainda mais deslumbrante, de águas azuis e seixos redondos, peixes que pareciam pintados a mão, tudo em cores intensas, envolventes. Eu olhava para o peixe e me sentia um peixe; para o fundo do rio e me sentia seixo ou areia. Eu era eu mesmo, mas também o mundo à minha volta. Aquilo me deslumbrou e eu me esqueci da travessia, do meu amigo, de tudo. Olhei para um lado e vi minha mãe, muito mais moça e mais magra, dando a luz a uma criança que era… eu mesmo. As cenas foram, então, se repetindo, como em uma tela, e, apesar do tempo em volta passar lentamente, as imagens de toda a minha vida transcorriam em um outro ritmo, como se acontecessem ao mesmo tempo, apesar de eu separá-las, apreciando-as e refletindo sobre elas. Difícil explicar isso.

Aí comecei a ver o futuro. Eu acordando na beira do rio, com um monte de gente gritando em volta, eu chegando em casa na picape de seu Dutra, meio zonzo ainda, e recebendo uma descompostura do meu pai e da minha mãe. Mais adiante, eu via meu pai dentro de um trem que, de repente, transformava-se numa grande confusão de bancos voando, ferros tortos e gente perdendo braços, pernas, cabeças. Sangue por todo lado. Isso me assustou e eu gritei.

“Gritou! Ele gritou! A água saiu dos pulmões!”, berrou seu Dutra, do meu lado. Ele fazia massagens violentas nas minhas costas. Eu comecei a vomitar. Uma multidão olhava para mim, assustada. Binho chorava e dizia que a partir de agora iria rezar muito, contrariando a mãe, porque acabara de rezar por mim e conseguir a graça.

Depois aconteceu tudo como eu havia visto. “Eu já sei o que vocês vão dizer”, disse aos meus pais antes da violenta reprimenda.

À noite, tratado com chás e toalhas quentes, recebi a visita de Binho e dos pais dele que, além da solidariedade, vieram nos trazer a notícia de que haviam dado uma surra de cinta no filho. A primeira da vida dele. Binho, realmente, estava meio amuado. Aí eu me lembrei do trem, dos corpos despedaçados e de meu pai lá dentro. Perguntei se ele iria viajar de trem. “Amanhã”, ele respondeu. “Pra capital”. Caí numa crise de choro, quase histérica, e contei o que se havia passado. Ele ficou assustadíssimo e minha mãe resolveu chamar Terezona, a benzedeira, apesar dos protestos de dona Celsa, que passou a nos acusar de fanatismo religioso.

Terezona chegou correndo, ouviu tudo e sentenciou, virando-se para o meu pai:

“O que se vê na zona da morte é pra se levar a sério. Não vá.”

“E as outras pessoas que vão morrer?”, perguntou meu pai. “Como avisá-las?”

“Acho que não vai acontecer nada com elas, com trem nenhum. Aconteceria se o senhor estivesse lá dentro. Daí o aviso que seu filho recebeu na zona da morte.”

“Tá vendo, pai”, eu concluí, “se eu não fosse nadar o senhor poderia estar morto”.

Ninguém disse mais uma palavra naquela noite. No dia seguinte, a caminho da escola, depois de jurar que jamais entraríamos no Cajazeiras, Binho me encheu a paciência querendo saber o que eu havia feito com a Mãe Fria.

“Não apareceu Mãe Fria nenhuma…”

“Conta, conta: ela é mesmo bonita? Você pegou no negócio dela?”

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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