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Havíamos planejado aquele mergulho fazia quase seis meses. Eu e Binho não nos separávamos, nem na escola. O padre diretor até procurara nossas mães para dizer que andava muito preocupado com uma amizade tão… estreita.

“O que o senhor está querendo dizer com isso?”, perguntou a mãe de Binho, que não gostava de padres e dizia pra todo mundo que era comunista e que, em vez de adorar santos, preferia prestar culto ‘à santa madre Rússia’. “O senhor acha que eles estão de troca-troca?”

“Eu não disse isso, minha senhora.”

“Insinuou.”

“Longe de mim. É que há tantos meninos da idade deles na escola…”

“Mas, vocês, da Igreja, são fascistas mesmo, não? Agora querem se meter na amizade dos outros? Meu filho escolhe o amigo que quiser. E o seu, Hermelinda?”

“O meu também”, apoiou minha mãe, que, no fundo, admirava a ousadia e algumas posições de dona Celsa, a mãe de Binho.

“Bem”, suspirou o padre, “já não está mais aqui quem falou. Depois, não se arrependam.”

“Arrepender de que, seu padre? Quer ser mais claro?” Dona Celsa dava sempre a última palavra.

“Com licença, senhoras, boa tarde.”

E foi assim que os padres no colégio nos deixaram em paz definitivamente. Ora, ora, troca-troca… Como se nós fôssemos mulherzinhas. Eu sabia que Binho já havia pegado o Angu, um fresco do terceiro ano, mas todo mundo pegava o Angu, atrás das mangueiras, na hora do recreio. Eu não queria saber de encoxar meninos, mas nunca comentei este assunto com o meu melhor amigo. Nós dois gostávamos mesmo era de jogar botão, empinar pipas e bater uma pelada, fazendo tabelinhas no ataque. Mas o maior sonho era atravessar o rio Cajazeiras.

Na volta da escola, uns cinco quilômetros a pé até nossa vila, a gente ia olhando e admirando o Cajazeiras. Não podia haver nada mais lindo! O rio, às vezes estranho, às vezes escuro, mas de águas limpas, escoava com rumores diversos, ora sussurros, ora alvoroços, dependendo do tempo, do vento, da chuva. Binho e eu catalogamos vinte e oito ruídos diferentes que o Cajazeiras fazia. Ele estava sempre vivo, esperto, o nosso rio, formando rodamoinhos ou pequenas ondas que surgiam do nada, de repente. No trecho mais propício ao nado, deveria ter uns quinze metros de largura. As pessoas preferiam a pesca ao banho, mas eu e Binho estabelecemos um pacto: deixaríamos de ser crianças e viraríamos homens de verdade quando tivéssemos coragem de atravessar o Cajazeiras nadando.

Ninguém, no entanto, poderia desconfiar da aventura. Muita gente já havia morrido lá dentro, puxado pelas correntes, ou por uma certa Mãe Fria, uma mulher pelada, toda nua, de cabelos muito compridos, que morava nas profundezas e preferia meninos: puxava-os pelo pé e, antes que eles se afogassem, pedia para ser tocada intimamente. Nós estávamos certos de que, se nos afogássemos, morreríamos felizes.

O plano foi sendo adiado por falta mesmo de oportunidade. Nós, além de nos atrasarmos na volta a casa, chegaríamos molhados, e alguém, talvez nossas irmãs (o Binho e eu só tínhamos irmãs) nos denunciariam. Porque entrar no rio era rigorosamente proibido por todos os pais do lugar.

Chegou um dia, no entanto, em que ninguém das duas famílias estaria em casa, na hora do retorno do colégio, por volta da uma da tarde. Era fim de inverno, o Cajazeiras andava meio nervoso, formando do nada as tais ondas, e o seu ruído principal naqueles dias era o mais agressivo de todos da nossa lista: um chachuá, chachuá intermitente, esquisito.

Nadar, a gente não nadava direito. Havíamos aprendido alguma coisa, em algumas poucas ocasiões, quando a escola ia fazer piquenique na Ilha do Ouro, um grande lago artificial que havia sido formado para a construção de uma hidrelétrica que jamais saíra do projeto. Por causa dessa obra, o povo dizia que o lugar era amaldiçoado pelo governo. Dona Celsa se aproveitava e conseguia votos para os candidatos comunistas. Que acabavam perdendo, sempre. Mas, afinal, nadar não era tão difícil, via-se na televisão, e a maioria dos garotos da cidade havia aprendido na prática, durante os piqueniques de colégio ou nas férias, no mar. Mas nossos pais não tinham dinheiro para nos levar ao mar, a mais de quinhentos quilômetros dali.

Saímos correndo da escola e chegamos bem cedo ao local da travessia. Descemos o barranco, encontramos um bom arbusto para esconder a roupa. Já estávamos com o calção por baixo. Antes de pular na água eu rezei uma Ave-Maria. Binho não rezou, não acreditava em santos, como a mãe.

Meu amigo saiu na frente, dando longas braçadas e gritos de felicidade. Eu o acompanhava, mas logo deixei de gritar, porque entrava água na minha boca. No meio do rio, não consegui manter-me em linha reta – a correnteza estava muito forte. Vi, com os olhos meio embaçados, que Binho já estava alcançando a outra margem. Fiquei muito nervoso com isso (em que direção nadava?) e perdi a coordenação dos braços. Ainda vi Binho, de pé, gritando pelo meu nome.

Entrei, então, em um mundo que jamais desconfiara existir: o tempo passava em outro ritmo, muito lento, e a paisagem do rio por dentro era ainda mais deslumbrante, de águas azuis e seixos redondos, peixes que pareciam pintados a mão, tudo em cores intensas, envolventes. Eu olhava para o peixe e me sentia um peixe; para o fundo do rio e me sentia seixo ou areia. Eu era eu mesmo, mas também o mundo à minha volta. Aquilo me deslumbrou e eu me esqueci da travessia, do meu amigo, de tudo. Olhei para um lado e vi minha mãe, muito mais moça e mais magra, dando a luz a uma criança que era… eu mesmo. As cenas foram, então, se repetindo, como em uma tela, e, apesar do tempo em volta passar lentamente, as imagens de toda a minha vida transcorriam em um outro ritmo, como se acontecessem ao mesmo tempo, apesar de eu separá-las, apreciando-as e refletindo sobre elas. Difícil explicar isso.

Aí comecei a ver o futuro. Eu acordando na beira do rio, com um monte de gente gritando em volta, eu chegando em casa na picape de seu Dutra, meio zonzo ainda, e recebendo uma descompostura do meu pai e da minha mãe. Mais adiante, eu via meu pai dentro de um trem que, de repente, transformava-se numa grande confusão de bancos voando, ferros tortos e gente perdendo braços, pernas, cabeças. Sangue por todo lado. Isso me assustou e eu gritei.

“Gritou! Ele gritou! A água saiu dos pulmões!”, berrou seu Dutra, do meu lado. Ele fazia massagens violentas nas minhas costas. Eu comecei a vomitar. Uma multidão olhava para mim, assustada. Binho chorava e dizia que a partir de agora iria rezar muito, contrariando a mãe, porque acabara de rezar por mim e conseguir a graça.

Depois aconteceu tudo como eu havia visto. “Eu já sei o que vocês vão dizer”, disse aos meus pais antes da violenta reprimenda.

À noite, tratado com chás e toalhas quentes, recebi a visita de Binho e dos pais dele que, além da solidariedade, vieram nos trazer a notícia de que haviam dado uma surra de cinta no filho. A primeira da vida dele. Binho, realmente, estava meio amuado. Aí eu me lembrei do trem, dos corpos despedaçados e de meu pai lá dentro. Perguntei se ele iria viajar de trem. “Amanhã”, ele respondeu. “Pra capital”. Caí numa crise de choro, quase histérica, e contei o que se havia passado. Ele ficou assustadíssimo e minha mãe resolveu chamar Terezona, a benzedeira, apesar dos protestos de dona Celsa, que passou a nos acusar de fanatismo religioso.

Terezona chegou correndo, ouviu tudo e sentenciou, virando-se para o meu pai:

“O que se vê na zona da morte é pra se levar a sério. Não vá.”

“E as outras pessoas que vão morrer?”, perguntou meu pai. “Como avisá-las?”

“Acho que não vai acontecer nada com elas, com trem nenhum. Aconteceria se o senhor estivesse lá dentro. Daí o aviso que seu filho recebeu na zona da morte.”

“Tá vendo, pai”, eu concluí, “se eu não fosse nadar o senhor poderia estar morto”.

Ninguém disse mais uma palavra naquela noite. No dia seguinte, a caminho da escola, depois de jurar que jamais entraríamos no Cajazeiras, Binho me encheu a paciência querendo saber o que eu havia feito com a Mãe Fria.

“Não apareceu Mãe Fria nenhuma…”

“Conta, conta: ela é mesmo bonita? Você pegou no negócio dela?”

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

Aleluia

O homem chegou na Sexta-Feira Santa, às quatro da tarde, e Don Antônio não soube interpretar se isso havia sido um bom ou um mau augúrio. “Sempre ouvi dizer”, comentou depois com Serena, sua mulher, “que Cristo foi crucificado às três da tarde. Às quatro, então, deveria estar morrendo”. Disse isso e se benzeu, sentindo um calafrio.

Mas o homem parecia manso e bondoso, até onde pode ser bom um capitalista. Don Antônio aprendera com Don Carluccio, o pai imigrante, italiano que jamais falara o português, que todos os capitalistas são vermes, com exceção dos capitalistas amigos.

A primeira coisa que perguntou ao homem, antes do nome, foi como soubera que aquela propriedade estava à venda.

“Por acaso”, respondeu o homem. “Eu me encontrava num restaurante da região quando ouvi uma conversa de dois gauchões na mesa ao lado sobre uma linda propriedade que seria vendida.”

“Porca miséria, mas eu não coloquei nada à venda”, disse Don Antônio com o sotaque do pai. “Só comentei que não teria como evitar isso…”

“Há comentários, Don Antônio”, disse o homem com sua inegável sabedoria, “que viajam muitas léguas. Talvez o seu tenha sido um deles.”

“E como é o seu nome, seu… seu capitalista?”

“Horácio Fortes. E se o senhor quer saber, não me considero capitalista, mas um cristão. Cumpro aqui os desígnios de Deus.”

“Como nós todos”, rebateu o colono.

“Como nós todos.”

Era uma propriedade realmente bela, cinqüenta alqueires que subiam e desciam quatro montanhas verdejantes. O rebanho de ovelhas já fora de dez mil cabeças, agora não passava de quatro. Nem Don Antônio nem os vizinhos sabiam exatamente o que havia acontecido: primeiro uma verminose brava; depois, um terço do rebanho fora vendido, para pagar dívidas pesadas à cooperativa; mais adiante algumas dificuldades com os empregados, além de problemas com dois dos cinco filhos que não gostavam do campo e preferiam gastar dinheiro nas cidades, e pronto! A terra, há oitenta anos nas mãos da família, teria de ser vendida. Tragédia completa.

“Vou mostrar pro senhor, Don Antônio, que não sou capitalista. Eu compro a terra, pelo preço de mercado, e o senhor permanece na sua casa, com sua família.”

“Não estou entendendo, seu Horácio. O senhor vai comprar ou não vai comprar a propriedade?”

“Vou comprar o meu direito de vir aqui de vez em quando, olhar as ovelhas, ver se o seu caderninho de entradas e saídas não está com problemas, e só. O senhor continua. Pago-lhe um ordenado de capataz, dou-lhe dez por cento do lucro como prêmio e, em pouco tempo, o senhor terá como iniciar de novo sua carreira de empresário rural.”

“Mas… o que o senhor ganha com isso?”

“Ora, noventa por cento do lucro que o senhor me der.”

Don Antônio suspirou. Havia alguma coisa errada naquilo. Pediu licença, deixou o homem na varanda, sorvendo uma cuia de chimarrão (que havia preparado como se gaúcho fosse), e caminhou até a velha tília que lhe propiciava os melhores pensamentos e decisões. Tocou no tronco da árvore, carinhosamente. Mas sua mente não lhe disse nada. Não havia sentido naquela proposta.

“Sabe o que eu pensei, Antônio? Quatro da tarde da Sexta-Feira Santa pode ser também o começo da ressurreição.”

Don Antônio se assustou com a voz de Serena, às suas costas. Ia dizer-lhe que não gostava de ser incomodado na “hora da tília”, mas gostou do pensamento que sua mulher lhe emprestara. Morte e ressurreição. Pela conversa do homem, fazia mais sentido o segundo conceito.

“Você acha, Serena, que o homem tem trinta e três anos, que nem Cristo?”

“Se tiver, está quase morrendo. Parece ter uns cinqüenta.”

“Também acho, Serena.”

Voltou à varanda e só quis saber de mais duas coisas sobre a proposta: por que o homem confiaria nele, Antônio, se fora justamente ele que deixara o empreendimento descambar?

“Não há ninguém melhor do que o senhor para tomar conta desta terra. O senhor já cometeu todos os erros e, daqui pra frente, só cometerá acertos.”

Fazia sentido. E a segunda coisa se relacionava ao pessoal.

“Meus poucos empregados têm carteira assinada, seu Horácio. Menos o uruguaio.”

“Se ele não quiser regularizar, não há jeito. Não podemos correr riscos, fazer nada errado.”

“Mas ele é só um sujeito esquisito. Amigo dos bichos. Dizem que se serve das ovelhas, mas é desfeita do povo. Eu boto a mão no fogo pelo moral dele.”

O capitalista engasgou-se com o chimarrão, mas, muito educado, conseguiu evitar a tosse. Ficou vermelho, no entanto.

“Don Antônio: nem começamos a trabalhar e já tivemos nossa primeira discórdia…”, disse ele, ainda tentando se livrar das coceiras na garganta.

“Amigo pra mim é amigo, seu Horácio. Meus empregados todos eu trato como filhos. O uruguaio é gente especial. Homem que gosta de bicho como gosta de gente pra mim é quase santo.”

“Tem precedente: São Francisco, que gostava de bichos, defendia o papa e a ordem na Igreja.”

“O uruguaio me defende e não deixa que nada de errado ocorra na criação. Mas, por outro lado, eu não sou o papa, doutor.”

O homem se levantou, com um sorriso desistente no rosto.

“Pensando bem, Don Antônio, acho que São Francisco não daria muita importância à burocracia. Vamos dar uma volta e conversar sobre essas montanhas?”

“O senhor é quem manda, seu Horácio.”

Meses depois, quando a paz voltou ao empreendimento, Serena iria lembrar que o negócio fora fechado num Sábado de Aleluia. Ninguém descobrira coisa alguma a respeito do capitalista, mas todos os meses ele visitava sua nova terra, olhava as contas, perguntava sobre a criação, as parições, o corte da lã, a produção de leite e a engorda. Mas o que lhe dava mais prazer, sem dúvida, era a contemplação dos bichos na sua vida simples. Quando voltava do campo, o homem parecia transfigurado, com o rosto cheio de uma estranha paz que ele carregava, depois, para a cidade grande.

Histórias

Os dias são abafados, insuportáveis; as noites são amenas e às vezes frias. Vá entender. O tempo mudou, radicalmente, nos últimos quarenta anos. Mas os meteorologistas insistem em afirmar que não há surpresas. Tudo o que acontece agora já aconteceu décadas atrás, garantem. Pra cima de mim… Como se, décadas atrás, houvesse estatísticas.

Há uma revolução na meteorologia, eu vivo dizendo isso, mas meu pessoal prefere acreditar que estou meio pirado. É natural. Eles são habitantes do interior do Brasil, e eu, a vida inteira, andei pelas cidades grandes. A minha lógica não bate com a deles.

Pois são eles que veem, quase todos os dias, os tais dos objetos voadores. Outra coisa de que não se ouvia falar muito, antigamente. É inacreditável o número de relatos: são objetos em forma de disco mesmo, ou de pratos; são charutos; feixes de luz; cometas. Há de todos os tipos, todas as formas; provocam as mais diferentes reações.

E eu aqui, debaixo de um céu repleto de astros normais e esplendidamente visíveis. Chegando aos oitenta, mas com uma lucidez que jamais experimentei antes, lendo as almas das pessoas a partir das suas expressões fisionômicas. Um sábio. Meu corpo, é claro, deixa muito a desejar, e visito mais os médicos do que os amigos. Meus gestos são lentos. A mente é um azougue.

Deixei de ironizar uns e outros, porque eles não entendem nada, coitados. Gozando-os eu acabava tendo a impressão de que gozava a mim mesmo. Já pensou? Você faz uma piada aqui, outra ali, e seu interlocutor continua sorrindo, cândido, como se você o elogiasse. O que é o chiste, uma boutade, se o outro não entende? Aí você percebe que a única vítima é você. E decide adaptar-se ao meio.

Foi o que fiz. Sentei-me, nas noites longas, e apenas ouvi histórias. Mais de noventa por cento delas falavam dos objetos. Incrível.

A mais empolgante, no entanto, foi-me contada dia desses. Narizinho, um aqui da região, apelidado assim por causa do seu nasal exageradamente arrebitado, estava voltando do estábulo às seis da tarde, exausto da labuta do campo, quando ouviu um silvo estranho. No primeiro momento imaginou que fosse uma cobra nova, depois sentiu que não era som deste mundo. Virou-se, assustado, e bem diante dele, no chão, estacionada, como se uma carreta fosse, estava a nave. Em forma de um disco ovalado, com muitas luzes piscando por dentro e por fora. Por dentro, sim! Uma imensa porta, aberta, mostrava um interior metálico, cinza-claro; e, de pé, sorrindo para ele, um homem vestido e uma mulher pelada. Narizinho conseguiu sobrepor seu deslumbramento ao natural susto que experimentara. Jamais vira mulher mais bela na sua vida. De rosto, quero dizer. De corpo, então…

“Que é isso, sô?”, foi a única coisa que Narizinho conseguiu dizer.

Ele explicou que o homem se dirigira a ele, saudando-o, dizendo que estavam ali para propor uma experiência muito importante, um intercâmbio entre o nosso mundo e o deles. O capiau ouvira perfeitamente o que ele dissera, mas, que loucura!, o homem não abrira a boca. Continuava rindo, apenas, enquanto a mulher, ao lado, não ria, exatamente, mas expressava, no rosto, um desejo indubitável: “Eu te quero, Narizinho… Eu te quero como homem!”

Ele também a queria, como mulher, e não estava sequer preocupado ou assustado com o inusitado da situação; aquela mulher o arrebatava e o mantinha num estado permanente de êxtase. Imagine na hora de…

‘Mas como posso fazer qualquer coisa com esse cara aí ao lado?’ E, no momento em que ele formulou este pensamento, o homem se afastou imediatamente, enquanto a mulher avançou em sua direção. Mais: movimentou os braços para frente, como quem pede um abraço. Apertado. Carnal.

Narizinho me descreveu, então, o ato sexual mais completo e ardente que eu já ouvira em toda a minha vida, e olha que li a obra completa de Henry Miller. Cheguei, confesso, a experimentar uma certa memória erétil. Eu não estava sozinho naquela conversa. Do meu lado, os caipiras só faltavam pedir licença para se masturbarem. Foi uma excitação só. Eu acreditei em tudo. Mas, agora, começava também a sonhar.

“Será que eles conseguem levantar o meu pau?”, perguntei a Narizinho, ingenuamente. Ele me olhou muito sério.

“Depois que dei a terceira, doutor, a mulher me pediu licença e perguntou se eu gostaria de continuar naquele ritmo. Eu ia responder o quê? ‘É claro, gostosa, é claro!’ Aí ela foi até uma mesinha da cor do chão e do teto, pois tudo era da mesma cor, e pegou uma seringa pequenina, como se fosse de brincadeira de boneca, e disse (não abria a boca, eu ouvia tudo na mente, o que é muito mais direto): ‘Vire a bundinha, vire…’ Nem senti a picada. E logo depois estava dando a terceira, a quarta e por aí vai…”

Foi naquela noite do relato que tomei a decisão, mas levei uma semana para divulgá-la. Em meados de dezembro, não sei exatamente o dia, convoquei esse meu povo, às oito da noite, na varanda da casa. Veio todo mundo, se bem que todo mundo são dez pessoas. Até o filho de Mané Carpinteiro, de quatro anos, foi obrigado a vestir sua melhor roupa para me assistir. Aí eu subi num caixote, amparando-me no ombro dos rapazes, e fiz o meu pedido quase súplica:

“Gente, estou sabendo que os discos voadores andam sobrevoando aqui, a região, e até pousam nos pastos. Os pilotos têm convidado algumas pessoas para conhecer o avião, quer dizer, o disco. Pois bem: vocês sabem que tenho sono pesado, apesar de velho, mas se algum desses objetos baixar por aqui, mesmo que seja distante vinte quilômetros, pelo amor de Deus, meus amigos, me chamem imediatamente! Eu quero ir embora com eles!”

Eles me ouviram sem dizer uma palavra. Todos, ou quase todos, inclusive os dois adolescentes do grupo, já me haviam contado alguma história envolvendo os objetos voadores. Mas, ao me ouvir, assim, numa convocação oficial, fizeram uma cara esquisita, de frustração, e saíram cochichando.

Depois eu soube que espalharam, até os confins do Estado, que eu estava louco. Senil. “O velhinho descompensou de vez”, disseram, “agora quer viajar de disco-voador”.

São eles que contam as histórias e eu que enlouqueço. Ninguém jamais comentou que Narizinho, dando oito na extraterrestre, havia pirado. Mas aí descobri da cumplicidade que existe entre eles: histórias são histórias, não é para acreditar. Eles ouvem tudo, sérios, compenetrados, depois contam as suas, que os outros ouvem. Se acontecer de algum idiota de fora acreditar nas lorotas, melhor. Assim elas se tornam verdades rapidinho.

Hoje, quando Narizinho aparecer por aqui para trazer o garanhão que vai cobrir minha égua, vou lhe dizer que apareceu, bem na frente de casa, o tal disco oval, com a porta aberta e tudo. E aí surgiu o mesmo cara, com a mesma peladona, que logo abriu os braços pra mim.

“Coroa, você é muito mais homem do que o Narizinho…”, ela comentou, depois da décima primeira, antes do galo cantar.

Pequeninos

Estamos ouvindo as cançonetas nostálgicas das caixinhas de música e todos nós sentimos vontade de chorar. Somos quinze ou dezesseis (às vezes me perco) a perambular por dentro deste casarão antigo, ao qual estamos confinados por vontade própria. Gostamos daqui. Viemos para cá quando a construção se iniciou, no final do século dezenove. Nós sempre nos reunimos por afinidade, ninguém jamais nos deu ordens. Temos, em comum, o gosto pelas flores no jardim, o cheiro de tabaco, o som dos pianos de cauda tocados pelas moças mais novas, as caixinhas de música… Há uma energia comum que nos une, e eu diria que é a força do pretérito, de um mundo já superado pelos próprios habitantes da casa, que o preservaram com dedicação carinhosa e à qual devotam toda a sua capacidade estética.

São engraçadas, essas pessoas. Nascem, crescem, desde cedo vivem na angústia e na dor, mas revelam laivos de sentimentos refinados, sofisticados, e os dessa casa só os encontram quando escarafuncham o passado… deles, porque nós mesmos não temos passado. O tempo é, para nós, uma ficção.

Somos, de certa maneira, seus companheiros de jornada. Eles não nos vêem e não conseguem nos levar em conta. Com exceções, é claro. Nós os amamos porque, enfim, é da nossa natureza amar a todos os habitantes da Concessão Física, e a nós mesmos, oriundos de outras esferas. Não estamos aqui para ajudá-los na dor da existência, e muito menos dar-lhes um norte diante da insensatez que manifestam com incrível freqüência. Poder-se-ia perguntar, mesmo, qual a nossa real motivação ao insistirmos em ocupar esta casa, na nossa forma própria, e eu diria que nada além do prazer que o passado deles nos proporciona.

Dia desses, estávamos todos (foi aí que contei uns quinze ou dezesseis dos nossos), à beira do piano, ouvindo o ensaio com que a menina Cristina nos presenteou em um final cinzento de tarde. Que maravilha! Que talento! Seus sentimentos sutis, manifestados nos seus gestos de virtuose, transformavam-se em vapores suavemente coloridos e prazerosos, tão comuns na nossa esfera, mas tão raros no próprio mundo deles; somente alguns os captam com relativa precisão.

Cristina possui um parente, o Sérgio, que produz o mesmo fenômeno ao escrevinhar alguns versos românticos que acaba por oferecer a uma mulher da noite, de um outro sítio onde os vapores têm mais peso e onde é bem mais difícil penetrar. Os sentimentos desse rapaz, contudo, fazem daqueles versos verdadeiros archotes a destruir toda a treva que envolve a vida da sua amada, e, quando ele os leva até ela, todo o ambiente ao derredor se ilumina e, por um momento, todos os presentes, gente cinza e dura, se comprazem com pensamentos de bondade e paz. (Não estão acostumados a isso).

Eles próprios, então, se assustam de cogitarem, por um átimo, em algo que não seja prazer físico e velhacaria. Mas, ali, o Bem não dura para sempre, pelo contrário. Aquela mulher pintada, contudo, vai aos poucos redirecionando suas pretensões e expectativas, diante de tanta luz emanada dos versos de Sérgio.

Um dia, temos certeza, aqueles dois se unirão em sítio próprio e terão chances de experimentar o amor, privilégio de tão poucos, aqui na Concessão. É mais fácil, para os humanos, apagar luzes benéficas, desfazer essas laborações. Eles são frágeis, imaginam-se ludibriados e traídos, todo o tempo, e por isso insistem em dominar e manipular, de uma forma ou de outra.

Nós os observamos, neutros, porque não sentimos a tristeza deles, não entendemos isso. Para nós tudo é aventura na direção do progresso. Para eles também seria… Mas, como sofrem!

E assim, para não cairmos na rotina dos comportamentos repetidos, procuramos nos acercar daqueles que se diferenciam, seja pelo gosto estético, seja pelas aspirações. A maioria dos habitantes e visitantes desta casa está mesmo a cultivar as experiências já vividas até pelos seus próprios ancestrais. Estão determinados a isso. Nada os faz desistir dessa intenção. E é aí que vamos encontrar os sentimentos mais refinados, a ingenuidade e a beleza.

Nós dissemos que nenhum deles tem a capacidade de nos ver, apenas como exceção. Pois bem: esta exceção apareceu. É Genoveva, a moça que porta acepipes. Ela agora visita todos os dias esta casa, trazendo os doces e salgados que os donos apreciam, e tem se divertido muito a nos observar, em todos os cantos. Vira-se para um e outro de nós e pergunta coisas do tipo: “Ei, pequenino, o que é que você está fazendo aqui?” Ninguém responde porque, se responder, vai acabar estabelecendo uma conexão emocional com ela, e essa gente humana, apesar de frágil, pode ser muito perspicaz e envolvente. Por outro lado, nós não temos licença para nos comunicar diretamente com eles. Incidentes aconteceram. Contaram que um de nós, perdido de encanto por um deles, respondeu ao contato, e aí sobreveio a dor eterna de entrar neste reino de agonias, onde eles se debatem. Nós não estamos preparados para as trevas.

Genoveva, de fato, é um encanto, uma luz rara que jamais conhecemos. Tenho rogado aos meus mentores que ela não se acerque de mim, jamais, e simplesmente não me dirija a palavra. Mas ela sorri, para mim e para os outros, em qualquer lugar onde estejamos: no depósito das frutas, dentro da caixa gelada onde eles guardam os alimentos, ou no meio dos vapores úmidos dos banhos.

“Pequeninos, pequeninos!”, ela nos chama (meu Deus!, como alguém pode ser tão bela?…), com sua graça de fada. “Venham conversar comigo, eu sou uma de vocês, eu entendo vocês…”

Uma de nós, será?

E, fora ela, quem da Concessão nos iria realmente entender?

Eu olho para Genoveva e fico imaginando que certas danações podem valer muito a pena.

O homem vermelho em seu cavalo branco atravessava todo o bairro, duas vezes por dia, de manhã cedinho e no fim da tarde, oferecendo um delicioso produto: leite.
O homem vermelho era vermelho mesmo, parecia que havia saído de uma manhã na praia; diziam que aquela cor da tez se devia a ancestrais holandeses.
Para não fazer pipocar a pele frágil, o homem vermelho vestia um chapelão de abas largas, marrom-claro, até às cinco da tarde. Como usava sempre a mesma roupa, cáqui, calça e camisa da mesma cor, e botinas pretas de soldado, o homem vermelho mais parecia um dèjá-vu: todas as vezes que o víamos, imaginávamos um outro momento da vida, em um outro tempo, há três, quatro anos, porque ele era sempre igual. Isso causava uma certa aflição nas pessoas.
O cavalo branco não era um puro-sangue, longe disso, mas um belo pangaré, imenso, de crinas fartas, alvo como um fantasma, que puxava com vigor a carroça com os galões de leite e o homem vermelho em cima, guiando o veículo com maestria, batendo de porta em porta.
“Leite puro, do peito da vaca!”, gritava o homem vermelho.
Às vezes, faziam fila, com seus litros nas mãos, esperando o líquido branco, quase pastoso de tão gordo, e que desprendia um odor nostálgico de curral.
O homem vermelho sorria para todo mundo, das crianças aos mais idosos, dos deficientes mentais aos cegos. Certa vez, meu primo Antenor, que me acompanhava na fila do leite, estranhou muito uma determinada cena.
“Olha lá”, cutucou-me o meu primo, “o homem vermelho está sorrindo o tempo todo para o cego…”
“E por que ele não iria sorrir, Antenor?”
“Ué… porque não adianta.”
Um dia soubemos que o homem vermelho se candidatara a vereador pelo partido da situação. Ficamos satisfeitos: era uma pessoa que conhecia os problemas do bairro, rua a rua, que ouvia as queixas das pessoas e que, com certeza, possuía uma boa experiência em administração, já que vivia há anos da sua pequena criação de vacas leiteiras em plena cidade e da distribuição do produto. Aquela roupa sempre igual dava a idéia de um homem muito limpo. Mais: era sem dúvida um incansável trabalhador, mourejando de sol a sol – ordenha vaca, enche os tonéis, dá ração, toma banho, sela o cavalo, vende, compra ração, lava os tonéis, recolhe o esterco pra vender…
O homem vermelho foi cumprimentado por todos os moradores do bairro, recebeu centenas de promessas de apoio, e a cada dia se tornava mais risonho, mais confiante.
Veio o pleito e, após a contagem, o homem vermelho descobriu que recebera um voto. Não quis acreditar, pediu recontagem, as pessoas estavam ansiosas (“Como é? Quantos votos?”), até que um dia o homem vermelho chegou em casa com os olhos também vermelhos. Chamou Tina, sua mulher, e disse a Seramir, rapaz de quase 30 anos, filho único, muito desconfiado por causa do choro inédito do pai, que depois o chamaria também.
A portas fechadas, o homem vermelho olhou com firmeza para a mulher e declarou que preferia morrer a se sentir traído, após quarenta anos de casamento.
“Eu, trair você? Mas quem iria olhar pra mim, homem de Deus? Estou tão gorda e sem graça…”
“Eu me refiro à eleição.”
“Que aconteceu?”
“Tive um voto: o meu.”
“O quê? Foi seu nada! Foi o meu. Você deve ter errado o voto. Porque eu votei em você. Eu tenho mais estudo, não erro.”
O homem vermelho não disse mais uma palavra e foi cobrar do filho.
“Pai, eu não votei porque o senhor não iria agüentar a vida de político… Iria ficar longe da gente. Depois iria se envergonhar do curral…” (Mais tarde, o homem vermelho soube que o rapaz tomara um pileque na véspera da eleição e que acordara após as cinco da tarde, quando já se encerrara o pleito.)
O homem vermelho voltou à sua vida de sempre, vendendo o leite, só que não era mais o mesmo. Na roupa, antes sempre limpa e impecável, perceberam que algumas sujeirinhas apareciam com freqüência. O cavalo branco deixou de ser escovado e ter as crinas penteadas. Um dia o viram mancando, até, com a ferradura mal-ajustada. E o leite passou a apresentar uns pontinhos escuros muito suspeitos. “Coliformes fecais”, insistiam as más línguas.
Muita gente se perguntou o que havia acontecido, eu inclusive, e acabamos chegando à conclusão de que o homem vermelho não era tão popular assim; pelo contrário: aquela sensação de dèjá-vu que ele sempre passava o associava a fatos desagradáveis e constrangedores, como se ele tivesse o dom da onisciência e estivesse presente a todos os momentos das nossas vidas.
Mas a explicação fundamental era bem mais simples: ninguém sabia o nome do homem vermelho, e nem se preocupara em perguntar até o dia da eleição. Muita gente chegou em frente à urna, pronta para votar nele, e acabou descobrindo que só o conhecia como “o homem vermelho”.
Eu cheguei a me oferecer para dar-lhe essas explicações todas, mas quando fui procurá-lo senti um certo bafo de cachaça. Hum, era uma coisa que ele jamais fizera antes. A depressão é o mal do século, pensei. Acabei desconversando. Uma pessoa alcoolizada não compreenderia ponderações mais ou menos sofisticadas, apesar de reais, sobre o maior fracasso da sua vida.
No caminho de volta, lembrei-me de que, mais uma vez, não lhe perguntara o nome.

A manhã, que já ia alta, estava especialmente quente na varanda do casarão, e Djair cochilava, deitado numa das redes, ainda de pijama, recuperando fragmentos de sonhos eróticos que tivera durante a noite com Eneida, a vizinha. Se alguém lhe perguntasse o que é ser feliz, aquele momento teria grandes chances de servir de modelo.

Tinha dezenove anos, acabara o curso médio e se preparava para entrar na Escola de Contabilidade. O professor particular vinha sempre depois do almoço, ficava duas horas; depois, ele estudava um pouco até as seis da tarde. Tomava um longo banho, usando cremes e águas de cheiro, jantava frugalmente (não tinha o menor apetite) e, por volta das oito da noite, quando a maioria das pessoas da casa se recolhia e os irmãos mais velhos ganhavam a rua, ele escalava o muro de trás e ia ter com Eneida, no próprio quarto dela. A mocinha, de dezesseis anos, já o esperava de janelas entreabertas.

Não eram encontros perfeitos, ainda, pois Eneida não abria mão da virgindade, mas aquilo, ele sabia, era uma questão de tempo. O maior risco, na verdade, era dele: e se ela engravidasse pelas coxas? Gostava de riscos. Não era por outro motivo que estava ali, no quarto contíguo ao do major Vilella, pai da moça, chefe de polícia e desafeto de seu pai, o amanuense Figueiras. O major andava armado, já dera tiros para assustar um namorado da filha mais velha, que acabara por fugir de casa. Djair podia ouvir o ressonar do velho e o ranger da cama no quarto ao lado, mas isso não o incomodava: Eneida tinha seios redondos, gostava de tirar toda a roupa para que ele a apreciasse e, nos momentos mais íntimos da relação, excitava-o ao máximo sussurrando com um sotaque próprio: “Djair, vem d’gente, vem d’gente…”

Possível ser mais feliz? Pensando bem, sim. Se fosse quebrada a rotina. Se um risco maior surgisse; encoxar Eneida era pouco. Sua vida havia se transformado numa rotina agradável, mas rotina: saía do quarto de Eneida por volta das onze da noite, pulava o muro de volta, ia direto para o próprio quarto, que dividia com Zito, o irmão mais velho. À noite, sonhava com a amada. De manhã, tomava um café reforçado e, ainda de pijama, caía na rede da varanda para ler, entre cochilos, um romance vagabundo, de capa e espada, que o atraía pelo lado romanesco. Djair sempre se identificava com o herói principal.

O amanuense Figueiras criava os filhos assim: o que vale é a satisfação dos sentidos e a realização dos sonhos. Não se pode descuidar de um bom ganha-pão, mas isso não é o mais importante. Já para as filhas, o discurso mudava radicalmente: o que importa é um casamento próspero, após o que poder-se-ia pensar na satisfação de necessidades exclusivamente espirituais, como a arte, sobretudo o piano, e o atendimento social aos desvalidos. Já dona Clara, a mãe, discordava pacificamente de tudo isso. Para ela, só a igreja, o padre de plantão e o Papa importavam. Era uma família de bem e de posses: três moças e quatro rapazes que adoravam os pais e, no geral, davam bons exemplos à comunidade.

Só o major Vilella implicara com o amanuense Figueiras e o insultava junto a amigos comuns, chamando-o de ladrão, por causa do patrimônio e nível de vida desproporcional ao cargo de funcionário público. O amanuense, na verdade, recebia muitos presentes e era amigo de políticos e homens de negócios influentes. E daí? Major da polícia, reagia o amanuense, só serve mesmo para ter filhas gostosas.

Assim, naquela manhã quente, Djair foi acordado por um ruído incomum: batidas surdas no chão, como numa parada de Sete de Setembro, e gritos incompreensíveis e decididos. Era um grupo militar que se aproximava.

Pulou da rede, deixou o romance cair no chão, e foi olhar da varanda, lá de cima, já que a casa, imensa, de quatorze quartos, repousava sobre um promontório.

O grupo vinha vindo numa marcha pouco organizada, mas impressionante pelas expressões inabaláveis dos combatentes. Eram rostos heróicos, de quem realmente salvaria a Pátria. E o coro, agora audível, arrepiou Djair:

“Ao poder! Ao poder! Ao poder!”

À frente, um homem mais velho, de rosto escuro de tanto sol, longos cabelos brancos, agitava o rifle numa das mãos, conclamando o povo a olhar pelas janelas medrosas, ou por detrás dos postigos das portas.

“Venham, venham conosco, vamos salvar o Brasil!”

Logo atrás dele, um adolescente garboso empunhava uma bandeira vermelha com uma foice e um martelo como símbolo. Djair não tinha a menor idéia do que aquilo significava, mas não pôde se conter e gritou alto, da sua varanda distante, tentando avisar o pessoal das casas vizinhas, todas mais acanhadas e baixas:

“Pessoal! É a revolução! Vão derrubar o governo!”

Falou sem pensar que seu pai era um funcionário do governo, mas governo para ele era algo perpétuo, imutável. Ninguém na rua reagiu ao seu grito. ‘Ê, povinho…’, ele pensou, e não teve dúvidas: correu para dentro da casa à procura do velho rifle do pai. Na hora em que passou pelo banheiro, ouviu a voz abafada e trêmula de dona Clara que havia se trancado ali com as três empregadas. Segundo padre Januário, os sanguinários comunistas estavam a ponto de tomar o poder no Brasil: fuzilariam todos os católicos e comeriam as criancinhas em churrascadas regadas a cachaça.

“Quem está aí?”, perguntou dona Clara, com o choro histérico das empregadas ao fundo.

“Sou eu, Djair, mãe.”

“Venha pra cá, meu filho! Os comunistas…”

Nem ouviu. Já pegava o rifle no fundo do armário, procurava uma calça cáqui do uniforme escolar e uma camisa verde musgo, cheia de bolsos, que seu pai usava para a caça. Jamais se vestiu tão rápido, desceu as escadas aos saltos e pegou o rabo da fila, formado por gente meio mal-encarada, uma boa parte com menos de vinte anos.

“Trouxe munição?”, perguntou um deles.

“Munição? Não…”

“Então vai buscar, burguês de merda! Quem você acha que nos abastece de munição?”

Voltou novamente, com o rifle na mão, demorou um pouco para achar as balas dentro de uma caixa velha de sapatos. Aproveitou e pegou emprestado um xale vermelho da sua irmã Lita, para usá-lo como lenço de pescoço, como boa parte dos revolucionários faziam. Ainda conseguiu alcançar o grupo, os bolsos da camisa e da calça estufados de balas; muita gente miserável, mulheres inclusive, agora acompanhava os soldados e já era a maioria; só aí ficou sabendo que a patuléia, militares à frente, se dirigia ao centro da cidade para tomar o palácio do governo. Procurou tomar posição próximo à liderança.

Após uma caminhada extenuante de sete quilômetros, quando chegaram a ser agredidos por inócuas balas de chumbo de inimigos que encontraram no caminho, chegaram ao centro deserto. Hércio, o de cabelos brancos longos, líder dos insurretos, foi recebendo, à medida que se aproximava do palácio, a mesma mensagem de outros militantes, alguns feridos, o sangue manchando os uniformes improvisados:

“Dispersar, dispersar! Os burgueses ganharam reforço das tropas dos estados vizinhos! Perdemos por enquanto! Vamos nos recompor! Vamos nos recompor!”

Na cidade sem vivalma, de portas lacradas e silêncio agressivo, não havia sequer um inimigo. Os soldados legais, disseram os comunistas feridos, haviam se concentrado na zona sul.

“Gente”, gritou Hércio, “vamos nos dispersar por enquanto; fujam para bem longe, ou daqui a pouco estarão na cadeia. Disfarcem-se. Procurem lugares onde ninguém conheça vocês…”

‘Ah, não… Chegar até aqui e não dar nem um tiro?’ Djair saiu andando sem destino, pisando com dificuldade no paralelepípedo alto, as botas do amanuense Figueiras a lhe apertarem os pés. ‘Ah, não…’

Na primeira praça que encontrou, a do Teatro do Povo, mirou a cabeça de uma réplica de estátua grega e acertou-lhe o olho direito. Não daria mais tiros na sua vida. Nos próximos tempos, iria viver de sobressaltos. Vendeu o rifle e as balas a um comerciante, trocou a roupa de revolucionário por um terno velho, descobriu que havia se esquecido de pegar em casa um tostão que fosse, e assim trabalhou quinze dias ordenhando vacas num sítio da periferia.

Na primeira oportunidade, roubou o sitiante. Acostumou-se a beber vinho com ele, durante o almoço, quando o patrão invariavelmente se embebedava e dormia sentado, de boca aberta. Ali, olhando para aquele homem indefeso, que também era bondoso e vicioso, perguntou-se se valeria a pena transformar-se de criminoso político em ladrão comum. Decidiu virar ladrão e roubou tudo o que o sitiante guardava em casa, além de alguns objetos mais ou menos valiosos.

Com os trocados, conseguiu pegar um trem e chegou a um outro Estado onde acabou comprando, junto a uns marginais, documentos de um italiano de nome Simone que havia sido assassinado e emparedado havia algum tempo. Foi obrigado a estudar um pouco daquela língua para imitar o sotaque. Riam dele: “Simone é nome de mulher…” Ele balançava os bagos para quem dissesse: “Olha a mulher aqui, ó”.

Descobriu, naqueles dias infernais, que não sabia fazer absolutamente nada, além de ser gentil com mulheres. Acabou se transformando num gigolô da melhor rua de prostituição de uma cidade bem menor e mais provinciana do que a sua.

Passava os dias e as noites fazendo sexo, com várias clientes. A maioria apaixonada por ele. “Quero fazer nenem com você”, elas diziam, rindo. E ele: “pelo amor de Deus, já destruí minha vida; não jogue terra em cima.” Procurava os jornais do seu Estado e os lia com avidez, à busca de alguma notícia da família ou dos amigos. Um dia soube, através de uma nota mínima, que seu pai lutava na Justiça para reaver o emprego, tirado por suspeita de simpatia pelo movimento comunista internacional. ‘O major Vilella não perdeu tempo; filho da puta’, pensou Djair. A partir daí perdeu até o tesão e não saía mais de casa. Dormia, bebia cerveja e lia jornais antigos. Chorava, às vezes. E, no choro, jurava vingança ao major.

Mas foi num daqueles dias, em que só tinha vontade de se matar, que alguém bateu à porta do cubículo.

“Simone?”

Voz de mulher, mas não das suas meninas.

Levantou-se e abriu, sem querer saber se era uma armadilha da polícia ou de um outro gigolô tentando matá-lo. Mas era Eneida, parecendo mais alta e muito mais bonita, que o abraçou, enquanto lhe sussurrava no ouvido: “Meu pai está atrás de mim; ele me obrigou a bater na porta.”

Mal acabou de ouvir, jogou-se no chão, enquanto a voz do major berrava “sai da frente, Eneida!” E ela: “não, pai, não!”

Fugiu como um réptil para os fundos da casa, as balas passando rente ao seu cabelo desalinhado. Arrombou, com o corpo, a frágil porta de trás e jogou-se no córrego que passava dois metros abaixo, e que servia como o esgoto da zona.

Não conseguiu chafurdar na água imunda. Preferiu morrer. Ficou de pé, ali no córrego, com água pelo joelho e coberto de merda. Estufou o peito para receber as balas do major. Ele e mais três cabras lhe apontavam fuzis e revólveres.

“Ponha as mãos na nuca, filho da puta!”, gritou um dos meganhas.

“Mais respeito, que minha filha está aqui!”, gritou o major com o soldado, que imediatamente se desculpou, em tom de súplica.

“Você vai morrer, safado!”

“E seu neto vai ficar sem pai!”, ele respondeu, de reflexo, pois não havia mais nada a dizer.

“É isso mesmo, pai, estou grávida dele!”, gritou Eneida, a voz abafada, sem aparecer na cena.

“Mas como, se você não tem barriga e esse desclassificado está fugindo há meses?” O major fora tomado de surpresa e tentava entender melhor a situação.

Aproveitou-se da hesitação dos homens e correu, de repente, em direção à linha do trem, onde um mato alto poderia protegê-lo. Os soldados não atiraram de imediato, com medo do chefe. O próprio major perdeu alguns segundos até decidir voltar ao ataque.

“Matem ele! Matem ele!”

As chances de escapar eram, agora, promissoras. Muita gente gritava na rua, assustada com o tiroteio, algumas mulheres jogaram-se sobre os soldados. “O italiano não! O italiano não!”, elas gritavam, histéricas.

No meio da confusão, ele encontrou os fundos da casa de Messias, um comerciante local, de quem era amigo, e que o escondeu até que o perigo passasse.

“O revertério ainda não acabou, Messias”, ele queixou-se ao comerciante, já a salvo, dias depois. “Agora não sei o que fazer”.

“Você vai ter que virar outra pessoa, mas não é por causa do major, não. É que tem umas quatro mulheres esperando filho seu.”

“Tás brincando…”

“Não sabia?”

“Elas falaram, mas achei que era para gozar da minha cara… Messias, me ajuda!”

“Já estou ajudando. Só que o revertério em que você entrou é muito maior do que pensa, italiano. Se acostume com ele e o resto Deus provê.”

Dessa vez não teve vontade de chorar. Pelo contrário: riu muito da própria desgraça. Aquele era o sinal de que precisava para sentir-se, finalmente, um homem.

Do livro “Allegro”, Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

Será que ele havia bebido ou cheirado alguma coisa? Ou o sucesso costuma deixar as pessoas com cara de espanto, os olhos arregalados?

Estávamos lá, eu, que sou o novelista, e Júnior, o ator, na porta do meu apartamento. Eu o havia chamado. Convidei-o a entrar. Ele se apressou, como se estivesse sendo perseguido.

“Que foi isso, Júnior? Viu fantasma?”

“Quase fui linchado, carinhosamente linchado, aqui embaixo, no calçadão. O povo me reconheceu. E acho que, na confusão, bateram a minha carteira.”

‘Que coisa’, pensei. ‘Este moleque tem pouco mais de vinte anos, era um atorzinho de teatro infantil, agora ganha uma fortuna e ainda reclama do povo, que o ama! O pior é que a culpa é minha. Fui eu que o fabriquei’.

Essas coisas acontecem muito quando se trabalha com comunicação de massas. Na minha novela, uma verdadeira bosta, assim como todas as outras anteriores, pois novela só presta para veicular anúncios e enriquecer a emissora, inventei um personagem meio doido, meio hippy, chamado Mambo-Jambo; um sujeito vazio, louco por ritmos latinos. Ajudei o diretor a escolher o ator e acabamos topando com Júnior, todo pobrezinho, tímido, com dicção péssima e presença de palco zero, mas com uma cara de cubano que justificava tudo.

Mambo-Jambo, o personagem, sujeito pobre, do morro, mantinha um namorico com Cleres, a filha mais nova do empresário Acácio (toda novela é igual). Pois bem: com dois meses de apresentação, eu já era obrigado a passar metade do tempo inventando situações para o casal, tal a popularidade deles. E aí, sem ter mais o que criar, joguei Mambo-Jambo no campo e o transformei num líder camponês, pronto para invadir as terras do próprio sogro que, naturalmente, era o maior filho da puta.

Pronto: o comportamento de Mambo-Jambo (ou Mam-Jam, como alguns fãs-clubes preferiam), passou a ser imitado na vida real: fazendas foram invadidas por todo o país e os militares que detinham o poder mandaram chamar o dono da emissora.

“Dê um sumiço nele!”, disseram a seu Feitosa, o dono, português esperto, mas ignorante que se transformara no maior empresário de comunicação do continente.

“Mas, senhores”, reagiu seu Feitosa, “em toda a minha vida jamais fiz mal a uma mosca. Digo, fisicamente.”

“Não, porra”, gritou o general Assis, segundo o testemunho de quem assistira à reunião, “não é para matar o ator, e sim o personagem.”

“Mas isto é com o Zé Oliva”, ponderou de novo o português.

Eu sou o Zé Oliva. Ex-redator de publicidade, ex-vendedor de carros, mas sobretudo ex-alcoólatra, que vendo o meu talento para enganar as massas. Seu Feitosa ligou para mim, logo que voltou da reunião, que ocorrera na capital. E foi taxativo:

“Quero que acabes amanhã com o Mambo-Jambo, ou eu estou fudido!”

Tentei convencê-lo de que seria muito pior, inclusive para os próprios militares, porque o povo não aceitaria a morte de um fenômeno de popularidade do dia para a noite. Mas seu Feitosa estava histérico:

“Olha aqui, Zé Oliva, se você não matar o personagem, eu mando matar o ator. Não quero problema com os milicos.”

“Da noite pro dia não dá”, apelei. “Tenho de preparar a morte dele.”

“Então tá bom. Uma semana.”

“Quinze dias.”

“Dez dias e não se fala mais no assunto!”, disse aos gritos o português mais poderoso do continente, encerrando a conversa.

Foi aí que chamei Júnior ao meu apartamento e o povo lá embaixo quase o matou de paixão. Contei toda a história a ele, exceto que o português havia ameaçado matá-lo de verdade.

O rapaz ouviu, pensativo. Eu já sabia que ele não era o idiota que eu imaginara, quando o conheci. Naquela época, coitado, parecia incompetente porque não havia estudado, ou treinado o suficiente. Com o tempo revelara-se com certa sensibilidade artística. Mambo-Jambo tinha muito dele. Não se é popular à-toa.

“Bem. Você está me dizendo que Mam-Jam está morto. Que posso fazer? É você que escreve a novela.”

“Não, cara, eu quero outra coisa. Eu quero que Mambo-Jambo me diga se aceita ser eliminado, assim, desta forma estúpida.”

“Não entendi.”

“Caralho: eu pensando cá comigo que você não é uma besta e você não entendeu. Eu quero a opinião do personagem, tá? Eu quero que Mambo-Jambo dê declarações sobre o perigo que está correndo.”

Júnior levantou-se do sofá, pediu licença para desligar a televisão, que ficava no mute o tempo todo, pegou um copo de água no bar, serviu-se, aí se encaminhou à sacada, olhou a inacreditável paisagem da baía, com seus milhões de luzes e, quando voltou, não era ele. Ali estava Mambo-Jambo, minha criação. Até a cor da pele era outra, trigueira e sofrida. Fiquei perplexo.

“O pai quer falar comigo?”, ele começou, com a voz e os cacoetes do personagem.

Repeti tudo o que já havia dito ao Júnior. Mambo-Jambo não conseguia pensar sem se manifestar fisicamente. Dava socos na própria mão espalmada, ajeitava as calças, fechava e abria o zíper da braguilha (gesto que levava as fãs ao delírio). Ficou assim um tempo, andando de um lado para outro.

“Pai, acho que devemos ao povo uma revolução.”

“Como é que é?”

“Vamos não só invadir fazendas como viajar até a capital e exigir que os militares organizem eleições democráticas!”

“Ah, é? E quem vai cuidar do cu do papaizinho aqui, durante a guerrilha promovida por você, Che Guevara de araque?”

“Aí é que está, meu pai”, ponderou Mambo-Jambo, “nosso país é uma grande mentira, o povo prefere acreditar nas ilusões, nossa gente admira as pessoas que aparentemente não existem, como eu, Mam-Jam.”

“Como, aparentemente?”

“Porque, de alguma forma, existimos. Eu sou tão forte que você, meu criador, veio me perguntar se deve me matar ou não. Se eu pedir uma revolução, tenho certeza de que a receberei. Você não imagina o que acabou de acontecer aí embaixo, no calçadão.”

Mambo-Jambo acabou de falar, correu até a sacada, e gritou daquele jeito que tanto influenciava os jovens da idade dele: “Vamos derrubar a ditadura, povo meu!”

Eu tinha de pensar um pouco na hipótese. Porque, na verdade, este foi o meu primeiro impulso, usar o personagem para iniciar uma reação popular contra a tirania.

Bem, se desse errado, seríamos presos, os militares invadiriam a estação, só que arcariam com o ônus da impopularidade. Matar alguém que milhões de pessoas amam? Complicado, claro. Mas poderia dar certo. Nossa moderna democracia começou aí.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003

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