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O homem vermelho em seu cavalo branco atravessava todo o bairro, duas vezes por dia, de manhã cedinho e no fim da tarde, oferecendo um delicioso produto: leite.
O homem vermelho era vermelho mesmo, parecia que havia saído de uma manhã na praia; diziam que aquela cor da tez se devia a ancestrais holandeses.
Para não fazer pipocar a pele frágil, o homem vermelho vestia um chapelão de abas largas, marrom-claro, até às cinco da tarde. Como usava sempre a mesma roupa, cáqui, calça e camisa da mesma cor, e botinas pretas de soldado, o homem vermelho mais parecia um dèjá-vu: todas as vezes que o víamos, imaginávamos um outro momento da vida, em um outro tempo, há três, quatro anos, porque ele era sempre igual. Isso causava uma certa aflição nas pessoas.
O cavalo branco não era um puro-sangue, longe disso, mas um belo pangaré, imenso, de crinas fartas, alvo como um fantasma, que puxava com vigor a carroça com os galões de leite e o homem vermelho em cima, guiando o veículo com maestria, batendo de porta em porta.
“Leite puro, do peito da vaca!”, gritava o homem vermelho.
Às vezes, faziam fila, com seus litros nas mãos, esperando o líquido branco, quase pastoso de tão gordo, e que desprendia um odor nostálgico de curral.
O homem vermelho sorria para todo mundo, das crianças aos mais idosos, dos deficientes mentais aos cegos. Certa vez, meu primo Antenor, que me acompanhava na fila do leite, estranhou muito uma determinada cena.
“Olha lá”, cutucou-me o meu primo, “o homem vermelho está sorrindo o tempo todo para o cego…”
“E por que ele não iria sorrir, Antenor?”
“Ué… porque não adianta.”
Um dia soubemos que o homem vermelho se candidatara a vereador pelo partido da situação. Ficamos satisfeitos: era uma pessoa que conhecia os problemas do bairro, rua a rua, que ouvia as queixas das pessoas e que, com certeza, possuía uma boa experiência em administração, já que vivia há anos da sua pequena criação de vacas leiteiras em plena cidade e da distribuição do produto. Aquela roupa sempre igual dava a idéia de um homem muito limpo. Mais: era sem dúvida um incansável trabalhador, mourejando de sol a sol – ordenha vaca, enche os tonéis, dá ração, toma banho, sela o cavalo, vende, compra ração, lava os tonéis, recolhe o esterco pra vender…
O homem vermelho foi cumprimentado por todos os moradores do bairro, recebeu centenas de promessas de apoio, e a cada dia se tornava mais risonho, mais confiante.
Veio o pleito e, após a contagem, o homem vermelho descobriu que recebera um voto. Não quis acreditar, pediu recontagem, as pessoas estavam ansiosas (“Como é? Quantos votos?”), até que um dia o homem vermelho chegou em casa com os olhos também vermelhos. Chamou Tina, sua mulher, e disse a Seramir, rapaz de quase 30 anos, filho único, muito desconfiado por causa do choro inédito do pai, que depois o chamaria também.
A portas fechadas, o homem vermelho olhou com firmeza para a mulher e declarou que preferia morrer a se sentir traído, após quarenta anos de casamento.
“Eu, trair você? Mas quem iria olhar pra mim, homem de Deus? Estou tão gorda e sem graça…”
“Eu me refiro à eleição.”
“Que aconteceu?”
“Tive um voto: o meu.”
“O quê? Foi seu nada! Foi o meu. Você deve ter errado o voto. Porque eu votei em você. Eu tenho mais estudo, não erro.”
O homem vermelho não disse mais uma palavra e foi cobrar do filho.
“Pai, eu não votei porque o senhor não iria agüentar a vida de político… Iria ficar longe da gente. Depois iria se envergonhar do curral…” (Mais tarde, o homem vermelho soube que o rapaz tomara um pileque na véspera da eleição e que acordara após as cinco da tarde, quando já se encerrara o pleito.)
O homem vermelho voltou à sua vida de sempre, vendendo o leite, só que não era mais o mesmo. Na roupa, antes sempre limpa e impecável, perceberam que algumas sujeirinhas apareciam com freqüência. O cavalo branco deixou de ser escovado e ter as crinas penteadas. Um dia o viram mancando, até, com a ferradura mal-ajustada. E o leite passou a apresentar uns pontinhos escuros muito suspeitos. “Coliformes fecais”, insistiam as más línguas.
Muita gente se perguntou o que havia acontecido, eu inclusive, e acabamos chegando à conclusão de que o homem vermelho não era tão popular assim; pelo contrário: aquela sensação de dèjá-vu que ele sempre passava o associava a fatos desagradáveis e constrangedores, como se ele tivesse o dom da onisciência e estivesse presente a todos os momentos das nossas vidas.
Mas a explicação fundamental era bem mais simples: ninguém sabia o nome do homem vermelho, e nem se preocupara em perguntar até o dia da eleição. Muita gente chegou em frente à urna, pronta para votar nele, e acabou descobrindo que só o conhecia como “o homem vermelho”.
Eu cheguei a me oferecer para dar-lhe essas explicações todas, mas quando fui procurá-lo senti um certo bafo de cachaça. Hum, era uma coisa que ele jamais fizera antes. A depressão é o mal do século, pensei. Acabei desconversando. Uma pessoa alcoolizada não compreenderia ponderações mais ou menos sofisticadas, apesar de reais, sobre o maior fracasso da sua vida.
No caminho de volta, lembrei-me de que, mais uma vez, não lhe perguntara o nome.

A manhã, que já ia alta, estava especialmente quente na varanda do casarão, e Djair cochilava, deitado numa das redes, ainda de pijama, recuperando fragmentos de sonhos eróticos que tivera durante a noite com Eneida, a vizinha. Se alguém lhe perguntasse o que é ser feliz, aquele momento teria grandes chances de servir de modelo.

Tinha dezenove anos, acabara o curso médio e se preparava para entrar na Escola de Contabilidade. O professor particular vinha sempre depois do almoço, ficava duas horas; depois, ele estudava um pouco até as seis da tarde. Tomava um longo banho, usando cremes e águas de cheiro, jantava frugalmente (não tinha o menor apetite) e, por volta das oito da noite, quando a maioria das pessoas da casa se recolhia e os irmãos mais velhos ganhavam a rua, ele escalava o muro de trás e ia ter com Eneida, no próprio quarto dela. A mocinha, de dezesseis anos, já o esperava de janelas entreabertas.

Não eram encontros perfeitos, ainda, pois Eneida não abria mão da virgindade, mas aquilo, ele sabia, era uma questão de tempo. O maior risco, na verdade, era dele: e se ela engravidasse pelas coxas? Gostava de riscos. Não era por outro motivo que estava ali, no quarto contíguo ao do major Vilella, pai da moça, chefe de polícia e desafeto de seu pai, o amanuense Figueiras. O major andava armado, já dera tiros para assustar um namorado da filha mais velha, que acabara por fugir de casa. Djair podia ouvir o ressonar do velho e o ranger da cama no quarto ao lado, mas isso não o incomodava: Eneida tinha seios redondos, gostava de tirar toda a roupa para que ele a apreciasse e, nos momentos mais íntimos da relação, excitava-o ao máximo sussurrando com um sotaque próprio: “Djair, vem d’gente, vem d’gente…”

Possível ser mais feliz? Pensando bem, sim. Se fosse quebrada a rotina. Se um risco maior surgisse; encoxar Eneida era pouco. Sua vida havia se transformado numa rotina agradável, mas rotina: saía do quarto de Eneida por volta das onze da noite, pulava o muro de volta, ia direto para o próprio quarto, que dividia com Zito, o irmão mais velho. À noite, sonhava com a amada. De manhã, tomava um café reforçado e, ainda de pijama, caía na rede da varanda para ler, entre cochilos, um romance vagabundo, de capa e espada, que o atraía pelo lado romanesco. Djair sempre se identificava com o herói principal.

O amanuense Figueiras criava os filhos assim: o que vale é a satisfação dos sentidos e a realização dos sonhos. Não se pode descuidar de um bom ganha-pão, mas isso não é o mais importante. Já para as filhas, o discurso mudava radicalmente: o que importa é um casamento próspero, após o que poder-se-ia pensar na satisfação de necessidades exclusivamente espirituais, como a arte, sobretudo o piano, e o atendimento social aos desvalidos. Já dona Clara, a mãe, discordava pacificamente de tudo isso. Para ela, só a igreja, o padre de plantão e o Papa importavam. Era uma família de bem e de posses: três moças e quatro rapazes que adoravam os pais e, no geral, davam bons exemplos à comunidade.

Só o major Vilella implicara com o amanuense Figueiras e o insultava junto a amigos comuns, chamando-o de ladrão, por causa do patrimônio e nível de vida desproporcional ao cargo de funcionário público. O amanuense, na verdade, recebia muitos presentes e era amigo de políticos e homens de negócios influentes. E daí? Major da polícia, reagia o amanuense, só serve mesmo para ter filhas gostosas.

Assim, naquela manhã quente, Djair foi acordado por um ruído incomum: batidas surdas no chão, como numa parada de Sete de Setembro, e gritos incompreensíveis e decididos. Era um grupo militar que se aproximava.

Pulou da rede, deixou o romance cair no chão, e foi olhar da varanda, lá de cima, já que a casa, imensa, de quatorze quartos, repousava sobre um promontório.

O grupo vinha vindo numa marcha pouco organizada, mas impressionante pelas expressões inabaláveis dos combatentes. Eram rostos heróicos, de quem realmente salvaria a Pátria. E o coro, agora audível, arrepiou Djair:

“Ao poder! Ao poder! Ao poder!”

À frente, um homem mais velho, de rosto escuro de tanto sol, longos cabelos brancos, agitava o rifle numa das mãos, conclamando o povo a olhar pelas janelas medrosas, ou por detrás dos postigos das portas.

“Venham, venham conosco, vamos salvar o Brasil!”

Logo atrás dele, um adolescente garboso empunhava uma bandeira vermelha com uma foice e um martelo como símbolo. Djair não tinha a menor idéia do que aquilo significava, mas não pôde se conter e gritou alto, da sua varanda distante, tentando avisar o pessoal das casas vizinhas, todas mais acanhadas e baixas:

“Pessoal! É a revolução! Vão derrubar o governo!”

Falou sem pensar que seu pai era um funcionário do governo, mas governo para ele era algo perpétuo, imutável. Ninguém na rua reagiu ao seu grito. ‘Ê, povinho…’, ele pensou, e não teve dúvidas: correu para dentro da casa à procura do velho rifle do pai. Na hora em que passou pelo banheiro, ouviu a voz abafada e trêmula de dona Clara que havia se trancado ali com as três empregadas. Segundo padre Januário, os sanguinários comunistas estavam a ponto de tomar o poder no Brasil: fuzilariam todos os católicos e comeriam as criancinhas em churrascadas regadas a cachaça.

“Quem está aí?”, perguntou dona Clara, com o choro histérico das empregadas ao fundo.

“Sou eu, Djair, mãe.”

“Venha pra cá, meu filho! Os comunistas…”

Nem ouviu. Já pegava o rifle no fundo do armário, procurava uma calça cáqui do uniforme escolar e uma camisa verde musgo, cheia de bolsos, que seu pai usava para a caça. Jamais se vestiu tão rápido, desceu as escadas aos saltos e pegou o rabo da fila, formado por gente meio mal-encarada, uma boa parte com menos de vinte anos.

“Trouxe munição?”, perguntou um deles.

“Munição? Não…”

“Então vai buscar, burguês de merda! Quem você acha que nos abastece de munição?”

Voltou novamente, com o rifle na mão, demorou um pouco para achar as balas dentro de uma caixa velha de sapatos. Aproveitou e pegou emprestado um xale vermelho da sua irmã Lita, para usá-lo como lenço de pescoço, como boa parte dos revolucionários faziam. Ainda conseguiu alcançar o grupo, os bolsos da camisa e da calça estufados de balas; muita gente miserável, mulheres inclusive, agora acompanhava os soldados e já era a maioria; só aí ficou sabendo que a patuléia, militares à frente, se dirigia ao centro da cidade para tomar o palácio do governo. Procurou tomar posição próximo à liderança.

Após uma caminhada extenuante de sete quilômetros, quando chegaram a ser agredidos por inócuas balas de chumbo de inimigos que encontraram no caminho, chegaram ao centro deserto. Hércio, o de cabelos brancos longos, líder dos insurretos, foi recebendo, à medida que se aproximava do palácio, a mesma mensagem de outros militantes, alguns feridos, o sangue manchando os uniformes improvisados:

“Dispersar, dispersar! Os burgueses ganharam reforço das tropas dos estados vizinhos! Perdemos por enquanto! Vamos nos recompor! Vamos nos recompor!”

Na cidade sem vivalma, de portas lacradas e silêncio agressivo, não havia sequer um inimigo. Os soldados legais, disseram os comunistas feridos, haviam se concentrado na zona sul.

“Gente”, gritou Hércio, “vamos nos dispersar por enquanto; fujam para bem longe, ou daqui a pouco estarão na cadeia. Disfarcem-se. Procurem lugares onde ninguém conheça vocês…”

‘Ah, não… Chegar até aqui e não dar nem um tiro?’ Djair saiu andando sem destino, pisando com dificuldade no paralelepípedo alto, as botas do amanuense Figueiras a lhe apertarem os pés. ‘Ah, não…’

Na primeira praça que encontrou, a do Teatro do Povo, mirou a cabeça de uma réplica de estátua grega e acertou-lhe o olho direito. Não daria mais tiros na sua vida. Nos próximos tempos, iria viver de sobressaltos. Vendeu o rifle e as balas a um comerciante, trocou a roupa de revolucionário por um terno velho, descobriu que havia se esquecido de pegar em casa um tostão que fosse, e assim trabalhou quinze dias ordenhando vacas num sítio da periferia.

Na primeira oportunidade, roubou o sitiante. Acostumou-se a beber vinho com ele, durante o almoço, quando o patrão invariavelmente se embebedava e dormia sentado, de boca aberta. Ali, olhando para aquele homem indefeso, que também era bondoso e vicioso, perguntou-se se valeria a pena transformar-se de criminoso político em ladrão comum. Decidiu virar ladrão e roubou tudo o que o sitiante guardava em casa, além de alguns objetos mais ou menos valiosos.

Com os trocados, conseguiu pegar um trem e chegou a um outro Estado onde acabou comprando, junto a uns marginais, documentos de um italiano de nome Simone que havia sido assassinado e emparedado havia algum tempo. Foi obrigado a estudar um pouco daquela língua para imitar o sotaque. Riam dele: “Simone é nome de mulher…” Ele balançava os bagos para quem dissesse: “Olha a mulher aqui, ó”.

Descobriu, naqueles dias infernais, que não sabia fazer absolutamente nada, além de ser gentil com mulheres. Acabou se transformando num gigolô da melhor rua de prostituição de uma cidade bem menor e mais provinciana do que a sua.

Passava os dias e as noites fazendo sexo, com várias clientes. A maioria apaixonada por ele. “Quero fazer nenem com você”, elas diziam, rindo. E ele: “pelo amor de Deus, já destruí minha vida; não jogue terra em cima.” Procurava os jornais do seu Estado e os lia com avidez, à busca de alguma notícia da família ou dos amigos. Um dia soube, através de uma nota mínima, que seu pai lutava na Justiça para reaver o emprego, tirado por suspeita de simpatia pelo movimento comunista internacional. ‘O major Vilella não perdeu tempo; filho da puta’, pensou Djair. A partir daí perdeu até o tesão e não saía mais de casa. Dormia, bebia cerveja e lia jornais antigos. Chorava, às vezes. E, no choro, jurava vingança ao major.

Mas foi num daqueles dias, em que só tinha vontade de se matar, que alguém bateu à porta do cubículo.

“Simone?”

Voz de mulher, mas não das suas meninas.

Levantou-se e abriu, sem querer saber se era uma armadilha da polícia ou de um outro gigolô tentando matá-lo. Mas era Eneida, parecendo mais alta e muito mais bonita, que o abraçou, enquanto lhe sussurrava no ouvido: “Meu pai está atrás de mim; ele me obrigou a bater na porta.”

Mal acabou de ouvir, jogou-se no chão, enquanto a voz do major berrava “sai da frente, Eneida!” E ela: “não, pai, não!”

Fugiu como um réptil para os fundos da casa, as balas passando rente ao seu cabelo desalinhado. Arrombou, com o corpo, a frágil porta de trás e jogou-se no córrego que passava dois metros abaixo, e que servia como o esgoto da zona.

Não conseguiu chafurdar na água imunda. Preferiu morrer. Ficou de pé, ali no córrego, com água pelo joelho e coberto de merda. Estufou o peito para receber as balas do major. Ele e mais três cabras lhe apontavam fuzis e revólveres.

“Ponha as mãos na nuca, filho da puta!”, gritou um dos meganhas.

“Mais respeito, que minha filha está aqui!”, gritou o major com o soldado, que imediatamente se desculpou, em tom de súplica.

“Você vai morrer, safado!”

“E seu neto vai ficar sem pai!”, ele respondeu, de reflexo, pois não havia mais nada a dizer.

“É isso mesmo, pai, estou grávida dele!”, gritou Eneida, a voz abafada, sem aparecer na cena.

“Mas como, se você não tem barriga e esse desclassificado está fugindo há meses?” O major fora tomado de surpresa e tentava entender melhor a situação.

Aproveitou-se da hesitação dos homens e correu, de repente, em direção à linha do trem, onde um mato alto poderia protegê-lo. Os soldados não atiraram de imediato, com medo do chefe. O próprio major perdeu alguns segundos até decidir voltar ao ataque.

“Matem ele! Matem ele!”

As chances de escapar eram, agora, promissoras. Muita gente gritava na rua, assustada com o tiroteio, algumas mulheres jogaram-se sobre os soldados. “O italiano não! O italiano não!”, elas gritavam, histéricas.

No meio da confusão, ele encontrou os fundos da casa de Messias, um comerciante local, de quem era amigo, e que o escondeu até que o perigo passasse.

“O revertério ainda não acabou, Messias”, ele queixou-se ao comerciante, já a salvo, dias depois. “Agora não sei o que fazer”.

“Você vai ter que virar outra pessoa, mas não é por causa do major, não. É que tem umas quatro mulheres esperando filho seu.”

“Tás brincando…”

“Não sabia?”

“Elas falaram, mas achei que era para gozar da minha cara… Messias, me ajuda!”

“Já estou ajudando. Só que o revertério em que você entrou é muito maior do que pensa, italiano. Se acostume com ele e o resto Deus provê.”

Dessa vez não teve vontade de chorar. Pelo contrário: riu muito da própria desgraça. Aquele era o sinal de que precisava para sentir-se, finalmente, um homem.

Do livro “Allegro”, Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

Será que ele havia bebido ou cheirado alguma coisa? Ou o sucesso costuma deixar as pessoas com cara de espanto, os olhos arregalados?

Estávamos lá, eu, que sou o novelista, e Júnior, o ator, na porta do meu apartamento. Eu o havia chamado. Convidei-o a entrar. Ele se apressou, como se estivesse sendo perseguido.

“Que foi isso, Júnior? Viu fantasma?”

“Quase fui linchado, carinhosamente linchado, aqui embaixo, no calçadão. O povo me reconheceu. E acho que, na confusão, bateram a minha carteira.”

‘Que coisa’, pensei. ‘Este moleque tem pouco mais de vinte anos, era um atorzinho de teatro infantil, agora ganha uma fortuna e ainda reclama do povo, que o ama! O pior é que a culpa é minha. Fui eu que o fabriquei’.

Essas coisas acontecem muito quando se trabalha com comunicação de massas. Na minha novela, uma verdadeira bosta, assim como todas as outras anteriores, pois novela só presta para veicular anúncios e enriquecer a emissora, inventei um personagem meio doido, meio hippy, chamado Mambo-Jambo; um sujeito vazio, louco por ritmos latinos. Ajudei o diretor a escolher o ator e acabamos topando com Júnior, todo pobrezinho, tímido, com dicção péssima e presença de palco zero, mas com uma cara de cubano que justificava tudo.

Mambo-Jambo, o personagem, sujeito pobre, do morro, mantinha um namorico com Cleres, a filha mais nova do empresário Acácio (toda novela é igual). Pois bem: com dois meses de apresentação, eu já era obrigado a passar metade do tempo inventando situações para o casal, tal a popularidade deles. E aí, sem ter mais o que criar, joguei Mambo-Jambo no campo e o transformei num líder camponês, pronto para invadir as terras do próprio sogro que, naturalmente, era o maior filho da puta.

Pronto: o comportamento de Mambo-Jambo (ou Mam-Jam, como alguns fãs-clubes preferiam), passou a ser imitado na vida real: fazendas foram invadidas por todo o país e os militares que detinham o poder mandaram chamar o dono da emissora.

“Dê um sumiço nele!”, disseram a seu Feitosa, o dono, português esperto, mas ignorante que se transformara no maior empresário de comunicação do continente.

“Mas, senhores”, reagiu seu Feitosa, “em toda a minha vida jamais fiz mal a uma mosca. Digo, fisicamente.”

“Não, porra”, gritou o general Assis, segundo o testemunho de quem assistira à reunião, “não é para matar o ator, e sim o personagem.”

“Mas isto é com o Zé Oliva”, ponderou de novo o português.

Eu sou o Zé Oliva. Ex-redator de publicidade, ex-vendedor de carros, mas sobretudo ex-alcoólatra, que vendo o meu talento para enganar as massas. Seu Feitosa ligou para mim, logo que voltou da reunião, que ocorrera na capital. E foi taxativo:

“Quero que acabes amanhã com o Mambo-Jambo, ou eu estou fudido!”

Tentei convencê-lo de que seria muito pior, inclusive para os próprios militares, porque o povo não aceitaria a morte de um fenômeno de popularidade do dia para a noite. Mas seu Feitosa estava histérico:

“Olha aqui, Zé Oliva, se você não matar o personagem, eu mando matar o ator. Não quero problema com os milicos.”

“Da noite pro dia não dá”, apelei. “Tenho de preparar a morte dele.”

“Então tá bom. Uma semana.”

“Quinze dias.”

“Dez dias e não se fala mais no assunto!”, disse aos gritos o português mais poderoso do continente, encerrando a conversa.

Foi aí que chamei Júnior ao meu apartamento e o povo lá embaixo quase o matou de paixão. Contei toda a história a ele, exceto que o português havia ameaçado matá-lo de verdade.

O rapaz ouviu, pensativo. Eu já sabia que ele não era o idiota que eu imaginara, quando o conheci. Naquela época, coitado, parecia incompetente porque não havia estudado, ou treinado o suficiente. Com o tempo revelara-se com certa sensibilidade artística. Mambo-Jambo tinha muito dele. Não se é popular à-toa.

“Bem. Você está me dizendo que Mam-Jam está morto. Que posso fazer? É você que escreve a novela.”

“Não, cara, eu quero outra coisa. Eu quero que Mambo-Jambo me diga se aceita ser eliminado, assim, desta forma estúpida.”

“Não entendi.”

“Caralho: eu pensando cá comigo que você não é uma besta e você não entendeu. Eu quero a opinião do personagem, tá? Eu quero que Mambo-Jambo dê declarações sobre o perigo que está correndo.”

Júnior levantou-se do sofá, pediu licença para desligar a televisão, que ficava no mute o tempo todo, pegou um copo de água no bar, serviu-se, aí se encaminhou à sacada, olhou a inacreditável paisagem da baía, com seus milhões de luzes e, quando voltou, não era ele. Ali estava Mambo-Jambo, minha criação. Até a cor da pele era outra, trigueira e sofrida. Fiquei perplexo.

“O pai quer falar comigo?”, ele começou, com a voz e os cacoetes do personagem.

Repeti tudo o que já havia dito ao Júnior. Mambo-Jambo não conseguia pensar sem se manifestar fisicamente. Dava socos na própria mão espalmada, ajeitava as calças, fechava e abria o zíper da braguilha (gesto que levava as fãs ao delírio). Ficou assim um tempo, andando de um lado para outro.

“Pai, acho que devemos ao povo uma revolução.”

“Como é que é?”

“Vamos não só invadir fazendas como viajar até a capital e exigir que os militares organizem eleições democráticas!”

“Ah, é? E quem vai cuidar do cu do papaizinho aqui, durante a guerrilha promovida por você, Che Guevara de araque?”

“Aí é que está, meu pai”, ponderou Mambo-Jambo, “nosso país é uma grande mentira, o povo prefere acreditar nas ilusões, nossa gente admira as pessoas que aparentemente não existem, como eu, Mam-Jam.”

“Como, aparentemente?”

“Porque, de alguma forma, existimos. Eu sou tão forte que você, meu criador, veio me perguntar se deve me matar ou não. Se eu pedir uma revolução, tenho certeza de que a receberei. Você não imagina o que acabou de acontecer aí embaixo, no calçadão.”

Mambo-Jambo acabou de falar, correu até a sacada, e gritou daquele jeito que tanto influenciava os jovens da idade dele: “Vamos derrubar a ditadura, povo meu!”

Eu tinha de pensar um pouco na hipótese. Porque, na verdade, este foi o meu primeiro impulso, usar o personagem para iniciar uma reação popular contra a tirania.

Bem, se desse errado, seríamos presos, os militares invadiriam a estação, só que arcariam com o ônus da impopularidade. Matar alguém que milhões de pessoas amam? Complicado, claro. Mas poderia dar certo. Nossa moderna democracia começou aí.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003

É inacreditável, mas Cirley não entende nada do que eu falo. A não ser, é claro, a produção do nosso dia-a-dia, pequenas burocracias, satisfação de necessidades fisiológicas, essas coisas comezinhas.

Tentei lhe explicar o que significava Feng Shui e por que eu havia chamado aquele rapazinho bochechudo para dar uma olhada no apartamento, mas foi inútil. Para ela (é sempre assim), desbloqueio energético é o mesmo que as mandingas que seu avô fazia no interior do Paraná, quando ela era criança.

“Vai dar muito mais resultado”, disse-me Cirley (e o rapazinho olhando-a, constrangido e deslumbrado; ela encanta todo e qualquer homem), “se você meter uma espada-de-são-jorge logo na entrada”.

Por via das dúvidas, além de trocar a posição de todos os móveis, comprei a tal planta. E as coisas para mim começaram a funcionar. Acho que a espada-de-são-jorge ajudou.

Tirando essas incompreensões, minha vida com Cirley tem sido uma maravilha. Meus amigos não conseguem entender como estou vivendo com ela já há um ano e meio. Rodrigo, que me apresentou à deusa, disse-me no ouvido, logo depois que nos cumprimentamos, eu deslumbrado com seu ousadíssimo decote em V:

“Campeão, essa mulher não existe. Só um conselho: coma, mas não case.”

A elite, da qual faço parte mais por uma circunstância de família, é assim mesmo: transforma pessoas em robôs, não consegue enxergar o que os seres humanos têm de melhor, de mais profundo e abstrato. Eu pretendo ser uma exceção, e talvez por isso esteja com Cirley até hoje.

Xandá, minha ex, até hoje não suporta o meu caso com Cirley. Fui obrigado a bater o telefone, certa vez, quando ela insultou minha mulher, chamando-a de prostituta, oportunista e outras bobagens.

“Quer saber, Xandá? O pai da Cirley, fabricando sandálias no Paraná, tem mais dinheiro do que sua família inteira.”

Fui cruel com Xandá: isto não é verdade. Ou melhor: ainda não é verdade. É que seu Teotônio aumenta o faturamento a cada ano, enquanto a família de Xandá vai empobrecendo com o passar do tempo e já não consegue manter o padrão de consumo antigo. Depois, as falências, ou os empobrecimentos, também são psicológicos.

Disse-o, com todas as letras, porque este é um argumento que aquela gente entende (de repente, vejo-me, eu também, chamando a minha gente de “aquela gente”, como Cirley se refere à elite).

Mas estamos bem, sim. Não me canso de olhá-la nua na cama, seu corpo absolutamente perfeito, seus pêlos pubianos arrumados como em um jardim – e os cabelos cor de mel adornando o travesseiro.

Ela, se acorda, às vezes, percebe que eu estou ali em pose de oração, louvando ao Senhor pela genialidade com que esculpiu o ser humano, e revela sua modéstia mais desconcertante:

“Você fica me olhando aí, bobão, todo safado. Imagina se eu fosse bonita.”

Certo dia eu lhe perguntei: “Você realmente acha que não é bonita? Você pode me dizer o que falta em você?”

“Eu? Eu sou um horror! Magra demais e cheia de celulite…”

Aí não suportei. Nervoso, quase irritado, expliquei-lhe tudo o que sabia sobre escultura clássica. Fui até a biblioteca e lhe trouxe um livro de fotos de arte, mostrei-lhe as obras de Praxíteles e Fídias. Ela tentava dizer alguma coisa, eu não permitia. “Se você tivesse vivido naquela época, Cirley, esses gênios seriam mais geniais ainda, porque teriam você como modelo…” Ela me ofertava um sorriso de falsa Gioconda, porque mostrava os dentes naturalmente perfeitos, incisivos e molares harmonicamente distribuídos, dentes grandes, brilhantes – que seus lábios carnudos, carnais, carnívoros iam descortinando.

Eu fiquei exausto do eruditismo do meu próprio monólogo, ela disse qualquer coisa sobre o que sua mãe achava de homens apaixonados (usou uma expressão diferente, algo como “mais bestas do que as próprias bestas”, se não me engano) e me perguntou de chofre, sem piedade:

“Amor, sabe o que nasce do cruzamento de japonês com um pavão?”

Fiquei mudo.

“Um espanador de cabo curto.”

Não sei que cara fiz. Mas ela se obrigou a completar:

“É ótima, né?”

“Muito, muito”, eu respondi, perscrutando mais uma vez o seu rosto. ‘E preconceituosa, politicamente incorreta, além de falsa’, pensei comigo, ‘porque japonês de filme de arte tem pau grande’.

Seus olhos emitiam cintilações orientais (nunca havia percebido, antes), sugerindo amêndoas douradas, realçadas pelo negrume dos cílios imensos.

Até eu me assustei com minha própria reverência, o impulso de orar para sua imagem pagã, reafirmando minha condição xiita. Pareço um idiota, eu sei. Mas, se vocês a conhecessem…

 

Sonhos

“A primeira cena de que me lembro, nesse sonho, é Natália se levantando de uma cama ao lado da minha (por algum motivo eu não estava dormindo com Júlia).’’

“Natália? Ah, desculpe, doutor, esqueci que é a minha primeira sessão com o senhor. Eu lhe disse, troco de analista como quem troca de roupa, eh… Natália é minha advogada, desquitada, gostosa, me ama. Júlia, o senhor sabe, é minha esposa. Cerimonioso esse ‘esposa’, não?”

“Mas Natália levantava-se da cama e subia uma escada, de camisola curta, as coxas aparecendo. Ela é magra, cheia de costelas, como eu gosto. Lembro-me de que eu observava com muita atenção as coxas dela, em especial a direita, nossa, que beleza aquele músculo comprido, visto de lado, estufando a carne branca. Ela caminha muito no parque. Eu a chamei, baixinho, cheguei perto dela, tomei até coragem para tocar nas suas coxas, mas ela estava apressada. Ainda conseguiu dizer uma coisa que me deixou intrigado: ‘Desculpe, João Pedro, mas fiz uma grande besteira…’ Ora, ora, pensei, ela é esperta, conhece bem as leis, não faz besteiras de tamanho nenhum. Sua única cagada foi a de ter-se casado com um traste, um filho da puta que estourou a praça com duas empresas fantasmas!”

“Aí, não sei de onde, surgiu Júlia. Nos sonhos, o senhor sabe, as pessoas aparecem de repente, sem nenhum motivo, em especial a mulher da gente. Aliás, motivo tem, mas aí quem interpreta é o senhor. Eu fiquei pensando que a grande besteira de que Natália falou poderia ser um e-mail que ela tivesse passado a Júlia por engano, achando que era o meu endereço. No e-mail ela dizia que me amava e me queria. Mas Júlia chegou, com uma cara normal, sentou-se do meu lado, conversamos abobrinhas. De repente (sonho é foda!), lá vinha Natália descendo a escada, de roupa, cabelo molhado, e com uns papéis na mão, manuscritos, provavelmente uma carta. Nem olhou para mim, dirigiu-se a Júlia, deu-lhe os papéis, Júlia deixou-os cair e eles se espalharam no chão.”

“Eu lhe peço desculpas, Júlia”, disse Natália, “mas está tudo aí explicado. Leia”. Júlia fez cara de vítima. E eu, babaca, olhando para as duas e boiando.”

“Não, doutor, nada mais aconteceu. Foi só isso. Aposto que o senhor vai dizer que eu sofro de complexo de Édipo, mas é o óbvio, e não vou aceitar; talvez diga de uma forma diferente, mais cortês, que não me fixo em mulheres, em função das minhas relações com mamãe, mas isso foi o que o outro analista falou e eu o mandei se roçar nas ostras.”

“Aquele sonho, então, pulou para um outro tema, bem mais agradável. Agora era Vanessa, mulher de um amigo meu, o Zeca. Vanessa é outra gostosa; certa vez quase que a gente se engata, numa festinha lá em casa, e no sonho ela aparecia em close, só o rostinho lindo, sorrindo, estava feliz, e eu a beijava com muito carinho, na boca, nas bochechas, depois a minha mão começava a agir… bem, o senhor sabe como acabam essas coisas… Está vendo como gosto de mulher?”

“Se consumei o ato? Infelizmente não. O sonho foi interrompido no melhor e lá estava eu e Júlia viajando para um hotel numa cidade do interior. Acho que a gente ia ver uma propriedade, o senhor sabe, invisto em imóveis também. Súbito, estávamos já acordando, e eu achei esquisito o fato de o quarto ter crescido tanto. Havia outras camas em espaços mais ou menos iguais, divididos por paredes leves, de compensado, e num desses espaços vejo duas mulheres com três crianças. As crianças correm na minha direção e pulam na minha cama, eu tento dissuadi-las, brincando, as mulheres não se mexem, aí eu percebo que todos os quartos estão ligados entre si e que há todo tipo de gente no hotel, confraternizando, e não são somente os quartos, mas todos os cômodos do prédio são interligados. Isso me assustou muito, doutor, o que significaria? Medo de que um candidato de esquerda ganhe as eleições?”

“Onde estava Júlia? Sei lá. Nos momentos mais doídos ela não se faz presente. Também, foda-se. Não sinto falta. Não quero ninguém se imiscuindo nos meus sonhos. Aliás, nesse sonho, eu é que saio à procura dela, a encontro no hall, conversando com os porteiros, um monte deles. Eu a chamo para dar uma volta, saímos, mas o pneu do meu carro estoura, coisa que jamais acontece com esses utilitários esportivos importados. Descemos, nós dois, e voltamos a pé para conversar com a multidão de porteiros. Peço para chamarem um borracheiro. Dizem que não há, num domingo. Como não há? Aí um deles nos diz que o único borracheiro da cidade é um tal de Jeremias que, nos dias de folga… (o sujeito faz um gesto com a mão direita virada para baixo, dedos unidos, a mão subindo e descendo).”

“Porra, não dá pro cara trepar em dia útil à noite e atender clientes desesperados num domingo?”, eu pergunto, irritado.

“Não”, diz o capiau, “ele só gosta de fazer isso domingo” (e repete o gesto).

“Achei, doutor, uma ousadia, aquela conversa diante da minha esposa, mas o tal hotel era meio surubento mesmo. Como Júlia reagiu? Sei lá. Por que o senhor quer saber? Aliás, o que é que o senhor pensa de tudo isso? Um outro analista, não o último, o do complexo de Édipo, mas o anterior, insinuou que eu precisava trabalhar uma possível tendência homossexual, mas pera lá, o senhor acha que isso são sonhos de viado? Bem, esse foi o resultado da noite de ontem. Toda noite tem frege. Aí eu me acordo com essas histórias na cabeça, e fico pensando o dia inteiro nelas, no que significam, se o meu casamento acabou, se as fantasias são normais… Isso me inquieta muito, doutor, e eu não consigo trabalhar direito…”

“Sim, eu sei que sou ansioso, sou assim desde criança. Há um outro sonho recorrente, da infância, mas acho que não vou contar pro senhor, não. Tenho vergonha. Talvez, se o senhor insistir… Fico temeroso, sabe? O senhor pode vir com interpretações que me agridam moralmente e eu não pago uma fortuna aos analistas para ser caluniado e ofendido. Pode tirar seu cavalinho da chuva.”

Carinho

Mulher abre a porta do apartamento. De robe azul celeste. Tem 40 anos. É bonita.

“Tá bom, Belmonte, pode entrar. Mas acho estranho você aparecer por aqui. Sabe quando nos vimos pela última vez? Mês e meio atrás.”

“Você sabe, estou enrolado, Luíza. Serviço. Viagens.”

Homem com pasta de executivo na mão vai entrando e se joga numa poltrona. O apartamento é bem arrumado, decoração de móveis modernos. Muita fibra de vidro.

“Mentira, Belmonte. Eu sou realmente uma idiota. Há quase vinte anos que você mente. E eu ainda aceito ouvir suas histórias…”

“Luíza, hoje você pode achar o que você quiser. Se quer me chamar de mentiroso, OK, eu sou. Diga o que lhe vier à cabeça. Xingue. Eu lhe pedi socorro. Preciso falar com alguém que não seja da minha rotina, sobretudo que não seja da minha casa…”

“Aí escolheu sua amante de plantão.”

“Vá em frente, xingue. Solte os cachorros.”

“Seria dar muita importância a você. Você não merece. Quer beber?”

“Nem água.”

Mulher se levanta, serve-se moderadamente de uma dose de uísque.

“Então tá, Belmonte. Você tem alguma coisa a dizer? Hoje não sou amante. Sou ombudsman.”

“Não brinca. Estou cheio. Farto. Não tenho mais nada para dar. Sou vampirizado todos os dias, de todos os lados, em casa, no trabalho, na rua. Você é a única que não me pede nada, nunca me pediu.”

“É que eu só tenho dado esse tempo todo.”

“Para com isso, Luiza. É sério. Eu hoje me dei conta da dimensão do problema: foi logo depois que a mulher me pediu um ‘automóvel japonês’. É possível uma coisa dessas? Um carro japonês?”

“De que marca?”

“Aí é que tá. Esta foi a minha primeira pergunta. Mas ela não especificou.”

“Qualquer um?”

“Para ela, carro japonês é um sedan de mau gosto, meio brilhante, com os faróis sobressaindo… sei lá.”

“Você comprou?”

“Comprei uma revista e mandei que ela escolhesse. Mas o problema não é este…”

“Bem, eu não estava vendo problema nenhum. Sua mulher, burra do jeito que é, é capaz de lhe pedir as coisas mais loucas, e você tem de dar. É o preço de lhe permitir traí-la comigo e Deus sabe com quem mais…”

“Vou fingir que não ouvi. O problema, Luíza, é que ela não quer um carro japonês.”

“Ué, o que ela quer então?”

“Carinho.”

“Carinho?”

“Pois é. Eu não a como, nem toco nela direito; dia desses me conscientizei que nem beijo social ela ganha mais de mim. Você sabe. Então o jeito de receber o afeto que não lhe dou é ganhar um carro japonês. Por exemplo.”

“Belmonte, você está falando uma coisa tão óbvia que chega a me arrepiar. Todo mundo quer carinho. Eu, você sabe, jamais substituiria o carinho que porventura tenha o direito de receber por um carro japonês. Se fosse um cruzeiro pelas ilhas gregas, eu pensaria duas vezes.”

“Você continua destruindo a emoção das pessoas, só para fazer piadinhas?”

“Por que? Você está emocionado?”

“Que os pariu! Nunca pensei nessas coisas antes. Para mim sempre foi uma questão de executar, cumprir, resolver. Nunca percebi que meu filho mais velho come feito um louco porque nem eu nem a mãe lhe damos bola, quer dizer, carinho. Meu presidente, aquele bosta: dia desses eu resolvi tirar um sarro da cara dele e elogiei, até mais não poder, um relatório que ele fez pro Banco Mundial. Uma merda de relatório.”

“E aí?”

“Você precisava ver a reação. Entrou em êxtase. No dia seguinte me devolveu os elogios para o resto da diretoria. Ele só queria carinho, Luíza. Só isso.”

“Belmonte, acho que você está ficando louco. Tem certeza de que não quer uma dosezinha?”

“Nem água.”

Mulher se levanta de novo. Serve-se de um pouco mais de gelo. Retorna ao conjunto de sofás de cor creme. Acetinado.

“Aí o meu psicólogo preferido descobriu que o mundo quer carinho. Filho, mulher, chefe, o garoto que vende balas na rua, o assaltante que rouba para poder comprar uma fazenda, casar, e ganhar carinho, o presidente dos Estados Unidos fazendo…”

“Para por aí, Luíza. Estou em crise, porra! Pedi a você este encontro porque estou em crise. Mas tudo bem. Vou embora.”

Homem ameaça levantar-se.

“Fique por aí, babaca. Vou preparar um uísque pra você.”

“Nem água.”

“Vai beber de qualquer jeito.”

A mulher prepara uma outra dose nada contida, aproxima-se do homem que recebe o copo olhando nos olhos dela. Ela senta-se ao lado dele e com seus dedos finíssimos, de unhas bem tratadas, abre uns caminhos pela cabeleira dele, que é vasta e grisalha. Com a outra mão faz uns movimentos circulares sobre seu joelho esquerdo. “Tão sensível, o meu amiguinho…”, ela diz, enquanto aproxima os lábios do rosto dele para beijá-lo, bem de mansinho, superficialmente.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003

O gato Querêncio apareceu na janela e Claudius Federico teve certeza de que sua amada voltara pra casa. Até que enfim! Ela sumira havia três dias e levara Querêncio junto para uma misteriosa incursão, sabe-se lá onde e para fazer o quê. Claudius Federico não se conformava com esse comportamento da namorada, mas ela fora muito clara: “comigo é assim, eu sou livre.” Bem, pelo menos só fizera isso uma vez.

Mas, que seja livre. O amor que lhe devotava transcendia tudo: convenção social, família e até sexualidade. Rossana era a pessoa mais estranha que ele já conhecera em seus trinta anos malvividos e por quem se apaixonara de uma maneira disparatada, demente, insensata. Contra tudo e contra todos. Ela, que não chegara ainda aos vinte e seis, parecia muito mais vivida do que ele. Só que ninguém sabia o que ela havia realmente vivido. E com quem.

“Gosto de fazer umas brincadeiras de vez em quando. Você se importa, Claudius?”

“Depende da brincadeira, meu amor.”

“Não gosto que me chame de ‘meu amor’, Claudius. Prefiro assim: ‘sua vadia’!”

“OK, sua vadia! Por que você quer ser… insultada?”

“Para ter raiva de você, sempre.”

“O que foi que eu fiz?”

“Nada. Mas vai fazer um dia. Homens não são confiáveis.”

“Que é isso, meu amor…”

“Está vendo? Voltou a dizer bobagem, mesmo tendo prometido que a evitaria. Homens são inconfiáveis, são falsos. Você vai passar a vida inteira jurando fidelidade e vai me cornear por trás.”

“Acho melhor ficar calado diante desse radicalismo.”

“Também acho melhor você ficar calado, sim, Claudius, o timbre masculino da sua voz me cansa.”

Era morena jambo de cabelos lisos e longos, corpo cheio de curvas, altura média, rosto comprido e delicado, um nariz escultural, reto, como o de uma estátua antiga. O mau gênio poderia ser sugerido pelos lábios mais finos e o mistério pelo olhar sempre distante, vendo além do objeto enquadrado. Morava sozinha com a mãe, dona Iwone, proprietária e principal funcionária de uma escolinha maternal na cidade, havia trinta anos. Dona Iwone era uma pessoa doce, mas reservada.

Quando começaram o namoro, procuraram fugir dos olhares curiosos do lugar, afinal era uma cidade do interior, não mais do que cem mil habitantes. Claudius Federico nem lhe havia tocado na mão, nem Rossana lhe dera qualquer esperança de intimidade. Andaram em direção a um dos bosques próximos do pequeno zoológico, falando sobre o assunto preferido dela: bichos. De repente, já haviam entrado em uma reserva de mata atlântica, ela começara a lhe dar aulas sobre ruídos que identificam insetos, eventuais cobras, pássaros e roedores, quando, como um felino raivoso, pulou sobre ele, arrancando-lhe os botões da camisa, mordendo-lhe os lábios e o peito, desvairada, misturando afagos com violência.

Ele levou um tempo para entender que aquilo era amor. E, quando começou a responder-lhe, fisicamente, ela o fez parar, gritando que não gostaria de ser violentada.

“Mas foi você que me violentou…”

“Eu? Como poderia, sendo mulher?”

Voltaram logo depois e ela jamais tornara a tocar no assunto. Mas ele se apaixonou. E passou a cortejá-la, procurando-a todos os dias, telefonando, ela dizendo que se sentia abafada, amordaçada, restrita. Foi quando fugiu pela primeira vez, junto ao gato.

Dona Iwone, na sua gentil discrição, ficara bastante preocupada e explicou que a filha costumava sumir assim desde a infância; que, certa vez, ela com dez anos, a encontraram no meio do mato, conversando com uma raposa, doze horas após o sumiço. Até os bombeiros haviam sido convocados. Seu Asdrúbal, o pai, que estava vivo na época, dera-lhe uma surra de chicote tão forte que até um vizinho queixara-se à polícia. Aí a menina sumiu de novo e apareceu dias depois, lanhada e deprimida, diante da piedade geral.

“A partir desse dia, Claudius”, dona Iwone esclareceu, “ela mudou completamente e desenvolveu uma certa ojeriza pelos homens. Menos de você, que ela trata bem, eu acho.”.

“Mas para onde ela foi agora, dona Iwone? Pro mato?”

“Sei lá, meu filho. Rossana não trabalha, não temos muito dinheiro, ela não poderia ir muito longe. Sinceramente, não sei. Saiu com uma mochila onde cabem, no máximo, duas mudas de roupa.”

‘Meti-me numa bruta encrenca’, pensou Claudius Federico, e resolveu pesquisar por conta própria nos bosques que circundavam a cidade. Ouviu todos os ruídos que ela lhe havia ensinado e isso, em vez de lhe meter medo, multiplicou o carinho que sentia pela moça. Escorregou numa ribanceira, passou perto de mortíferas cobras-coral, molhou os pés atravessando ribeirões. Gritou, dentro da mata, chamando pela amada. Nada.

Aconteceu, no entanto, uma coisa extraordinária: começou a ouvir murmúrios, primeiro, depois gemidos… de alguém que faz sexo com volúpia. Eram duas as vozes, um homem e uma mulher. Enlouquecedor: a voz de mulher era a de Rossana; e a de homem… a dele! Mas, como, se ele estava ali, mudo? Começou a correr, de um lado para o outro, procurando o improvável casal de amantes, no meio do mato, e acabou assustando um bicho que parecia um veado (nem sabia que eles ainda existiam naquela mata), até que escorregou e caiu de uma pequena encosta. Ralou-se todo. Os gritos de prazer (agora eram gritos) foram aumentando e o rapaz preferiu fugir daquele lugar. Até hoje se pergunta o que lhe aconteceu.

Dia seguinte, mais um susto: Rossana voltara, como anunciava o gato Querêncio da janela. Claudius Federico, ainda confuso com os acontecimentos da véspera, bateu à porta. A mulher que abriu não parecia Rossana: um sorriso de fada lhe enchia o rosto e até lhe engrossava os lábios; olhos brilhantes, a testa sem uma ruga.

“Sonhei com você a noite toda, meu amor”, ela disse, antes que ele abrisse a boca. Estava dengosa, faceira.

“Onde você esteve, vadia?”

“Puxa, você aprendeu, finalmente…”

“Ah, que bom. Mas onde você esteve, putona?”

“Quando? À noite? Ora, dormi aqui, depois que voltamos da mata…”

“Voltamos?”

“Claudius, jura para mim que me leva lá, de vez em quando, e faz amor comigo do jeito que você fez ontem…”

“Eu? Sim, juro!”

Claudius Federico sentia-se feliz como nunca na sua vida. Não poderia negar. Mas esta felicidade poderia ser completa, se conseguisse alguma explicação para aqueles murmúrios, gemidos, gritos de prazer. Por algum tempo, imaginou que estivesse louco, o ego repartido em dois; ou, pior ainda, projetando um duplo que se especializara em fazer sexo, com a sua namorada, sem o seu conhecimento.

“Na cama vai ser como no mato?”, ela quis saber.

“Só experimentando, né mesmo, grande vagabunda?”

Um sorriso libidinoso enfeitou o rosto da moça.

 

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003

Quando voltei ao Brasil, a juventude sumida, o físico bombardeado, muito deprimido com o fim de um casamento sem filhos, encontrei-o quase que exatamente do jeito que o deixei, quando completei vinte e um anos e, radiante, peguei um avião para Nova York.

Lembro-me bem dele naquele dia distante, no aeroporto. Ali estava o folclórico Genival, a figura da família, o mais velho dos oito irmãos do meu pai. Comportava-se com aparente discrição, sempre, mas costumava se vestir com algo que chamava – e muito, às vezes – a atenção do público. Naquele dia da minha despedida gloriosa, a estrela da despedida foi um chapéu dos anos trinta, marrom, de abas, que imediatamente associei aos filmes de gângster. O tio ficou igual a um guarda-costas de Al Capone. Era viúvo e tinha quatro filhos adultos que fugiam dele socialmente; não o entendiam e sentiam-se envergonhados, apesar de ele ter sido, sempre, um ótimo pai. Anos depois, eu entenderia que o tio quis marcar minha memória, no dia mais importante da minha vida. Que chapéu, aquele!

“Marcelo”, disse-me, no aeroporto, nos intervalos dos soluços da minha mãe, “eu acho que você não voltará tão cedo. Gosto muito de você, que é o único sobrinho inteligente que tenho, mas você, infelizmente, é americanófilo. Você se deixou corromper pelos musicais coloridos e acredita na porra do capitalismo. Se existem demônios no mundo, para dar sentido a Deus, são eles, os Estados Unidos”.

Tio Genival sempre aprontava alguma em todas as suas aparições, e naquele dia perdeu mais uma amizade: foi a do meu irmão mais novo, Oscar, por causa da frase sobre ‘o único sobrinho inteligente’. Oscar, arrogante e desagradável desde muito pequeno, cortou-o de sua vida para sempre.

O tio sentia, realmente, certa predileção por mim. Segundo ele, astrológica. “Aquarianos e geminianos se dão bem, é histórico”, afirmava. Para ele, a Astrologia era a única ciência que se devia levar a sério, a mãe de todas as outras. Costumava discorrer, durante horas, sobre a lógica das estrelas; costumes de sociedades antigas; e líderes contemporâneos que se guiavam pelos mistérios do Zodíaco. “Até os filhos de Lúcifer, como Hitler.” Eu ria, com generosidade quase piedosa.

Agora, lá estava eu, quinze anos depois da minha partida, voltando ao mesmo aeroporto, ampliado e modernizado, com ar-condicionado até nos salões de recolhimento de malas. Eu peguei meu saco de viagem, muito usado, que havia comprado numa casa de produtos de caça, e que disfarçava sua indigência com o charme militar dos mil bolsos com zíper, e fui saindo de fininho, com medo de ser reconhecido por alguém do meu tempo. Não havia avisado a nenhum dos meus irmãos da minha volta. Nossos pais haviam morrido há anos e eles jamais perdoaram a minha ausência nos enterros. Oscar, o ‘não-inteligente’, parecia o mais revoltado. Eu ainda tinha alguns amigos, sim, como o João Sinfrônio, com quem jamais deixei de me corresponder. João se transformara em um empresário de muito sucesso e vivia me chamando para ajudá-lo na ‘divisão internacional’ da sua empresa, produtora de sucos de frutas tropicais. Havia outros, um ou dois, mas João era o mais próximo da minha necessidade de sobrevivência. Ele foi um dos poucos a me visitar nos Estados Unidos.

Tudo o que acontecia com as pessoas queridas vinha em forma de pequenas notícias que minha mãe escrevia. Ela não gostava de falar comigo ao telefone porque isso lhe dava a estranha ilusão de que eu jamais saíra da cidade. Meu tio figura jamais me escreveu ou telefonou, mas eu sempre recebia os recados dele, nas cartas da minha mãe: “diga ao Marcelo que não nos comunicamos fisicamente, através de papéis, mas que eu tenho certeza de habitar seu pensamento, assim como ele passeia pela minha mente”.

Era verdade. Eu o sentia sempre ao meu lado e, o que é mais incrível, dando-me conselhos. Ele insistia, surgindo como um guia virtual, que se intrometia nos meus mecanismos mentais. Chegava a ser invasivo, às vezes, repetindo que eu não deveria me casar com Joyce Lee, por exemplo. “Vai lhe cornear de todas as formas, com todos os seus amigos ou conhecidos”, era a voz do tio imiscuindo-se entre meus pensamentos, sempre irônico, o chapéu de Al Capone meio penso para um lado.

Quando surpreendi Joyce Lee transando na nossa cama com o vizinho, um policial aposentado do andar de cima, meu primeiro e surpreendente pensamento foi de preocupação com a mulher do sujeito, Catherine, uma irlandesa de sorriso bondoso, que carregava o marido para cima e para baixo, numa cadeira de rodas; dava-lhe banho, trocava as fraldas e limpava a bunda.

Oficialmente, o tenente Grover havia sido atingido a bala, na coluna, por um adolescente flagrado por ele, numa rua escura ali perto, com uns papelotes de cocaína.

‘Esse puto enganou todo mundo, fingindo-se de paraplégico, inclusive os médicos da polícia e até a pobre da dona Catherine, e ainda vem aqui comer minha mulher… ’ , foi o que me passou pela cabeça.

Joyce Lee pulou da cama, pelada, vestiu-se com uma camisa minha, que era o pano mais próximo, e disse-me com sua voz invariavelmente doce:

“Não nos faça mal, my darling, eu estou dando a Grover apenas a ilusão de que ele consegue trepar.”

O tenente não se mexia, a cabeça enfiada no travesseiro, e não pude deixar de me espantar com a brancura quase celestial das suas nádegas. Como se sangue algum corresse por elas.

“Oh, Jesus, oh, Jesus!”, soluçava ele num inglês texano. “Eu estou morto, mister Marcelo, sua esposa está sendo caridosa comigo…”

“É verdade, my darling, vamos ter de ajudá-lo para sair da cama. Ele é paraplégico. Ele imagina que seu tesão pode voltar… com alguém…”

“Logo com você.”

“Comigo, my darling. Eu sei que estou errada. Mas achava que fazia uma boa ação.”

Tive ganas de correr até o apartamento do filho da puta e trazer a pobre Catherine para ajudar-nos na remoção do corpo inerte que, afinal, poderia estar fingindo ou não sua imobilidade. Eu acreditava até que não, em função da minha confiança na polícia de Nova York. Como um idiota como Grover enganaria uma das melhores corporações policiais do mundo?

Assim, Joyce Lee e eu vestimos o pobre canalha e o ajeitamos na sua cadeira de rodas, deixando-o no elevador. Percebi, apesar da minha completa confusão mental, ódio misturado com ressentimento, raiva com piedade, que não houve sequer uma troca de olhares cúmplices entre o traste e Joyce Lee. Será que ela falava a verdade? Que estava tentando ser piedosa? A mente da minha mulher era bastante complexa. Bem que tio Genival, nas suas invasões da minha mente, aconselhara: ‘caia fora dessa vagabunda!’.

Nosso casamento, é claro, não sobreviveria à tragicomédia. E foi com esse estado de espírito que desembarquei no aeroporto, com vergonha de ser reconhecido. No entanto, lá estava ele, meu querido tio. Fiquei muito assustado: como descobrira que eu desembarcaria na cidade, naquele voo, naquela hora? Incrível como ele conservara o mesmo rosto que tinha há quinze anos, no dia da minha despedida gloriosa.

“O.k., você deve estar se perguntando como adivinhei sua volta, o que não tenho como explicar. Deu-me vontade de vir até o aeroporto. Pensava em você, sim, mas penso em você sempre. Só posso lhe dizer, mas já lhe disse mil vezes, que a vida é um mistério. Mas, esqueça! Não deveria lhe dar qualquer atenção, você não seguiu nenhum dos meus conselhos. No entanto, como sou idiota, vou preparar seu retorno à normalidade…”

Disse isso e me abraçou. E somente aí pude reparar o detalhe que vestiu para chamar a atenção de todo mundo. Um brinco discreto, de ouro, com um ponto azul, mínimo, ao centro. E ele já completara oitenta e seis anos.

Do livro “Memórias Embriagadas” – Editora Noovha América, São Paulo, 2008.

 

 

 

Fico olhando estas meninas, aqui no Jóquei, e não saberia dizer se as desejo ou se elas me encantam apenas esteticamente, como se eu manuseasse um luxuoso álbum de fotografias.

Acredito que não seja eu somente que, aos sessenta e seis anos, tenha perdido a noção da própria sexualidade. Pergunto a alguns amigos mais íntimos e eles revelam a mesma perplexidade. Já não sabem mais o que são: se homens ou sátiros.

As meninas, neste verão, têm-me assustado com suas ousadias: já não existe mais aquela peça tão sensual, insinuante, clássica, chamada sutiã. Elas se expressam de seios nus, de biquinhos colados aos organdis, lãzinhas ou sedas puras; as saias já não são mini, mas micro. E as atitudes deixariam envergonhada minha mulher, tida como bastante avançada, nos anos sessenta, a primeira a ensinar em uma escola de engenharia para plateias noventa por cento masculinas.

Quantos anos estas meninas têm? Dezoito, vinte e um… Não passam disso. Mas é incrível o que falam de palavrões; o jeito profissional de pegar um cigarro; o descuido ao revelar os fundos das próprias calcinhas.

Sou um homem velho, mas magro e esguio e ainda, no meu rosto, notam-se fulgores da juventude. Enfim, sou um velho bonito, como diria Carol, meu último caso extra-conjugal, morta o ano passado, coitada, de esclerose múltipla.

Talvez por isso, por essa consciência, eu não tenha feito cara de trouxa ao ser abordado por uma das meninas de álbum colorido que vejo passar, incólumes, diante da minha mesa e da minha dose light de uísque.

“Posso sentar com você?” (Branquinha de cabelos negros, sorriso infantil, cintura finíssima, bundinha empinada, coxas de aço, seios como sentinelas, camiseta distraidamente aberta, deve malhar o dia todo.)

“Claro, minha filha.” (Poderia ter dito “minha neta”.)

O garçom, muito jovem, veio correndo atendê-la, e percebi que estava especialmente interessado nos seus seios venusianos. Olhou-os do seu ângulo privilegiadíssimo, levou um tempão para escrever a bebida e salgadinhos de queijo na comanda. Não pude deixar de me irritar.

“Está com alguma dificuldade de escrever, meu jovem?”

“Não, não senhor. A caneta está falhando.”

“Sei.”

Ela sorriu para mim e para ele, como quem diz “meninos, eu traço vocês dois, é uma questão de agenda.”

E era. Não perdeu muito tempo. Agradeceu (“obrigado, guri”, ela disse… seria gaúcha?) e foi direto ao assunto:

“Sei que o senhor pode estranhar, mas sou uma menina de programa.”

Fingi, é claro, que não estava chocado.

“Ah, sim, minha menina, hoje é muito comum. Aqui no Jóquei, hoje em dia, mais ainda…” (Décadas de reuniões empresariais me fizeram um craque da desfaçatez; com meus botões estava pra morrer. Como? Uma puta, logo ali, no meu santuário social?)

“Olha, que esperto! (Fez uma cara de quem acreditara. Prostitutas são sempre crédulas, desde a Babilônia, ou não teriam escolhido aquela profissão.) E eu pensei que estava enganando bem…”

“Mas está, sim. Todo mundo acha que você é uma patricinha.”

“Sabe que até já estou me sentindo assim, tanto que me confundem com elas? E também por causa dessas roupas que visto. E, é claro, porque comecei a fazer compras nas mesmas lojas.”

“Está faturando alto, então.”

“Não posso me queixar. Pra minha idade…”

“Vai largar tudo, depois?”

“Claro. Quero ter dois filhos.”

“Já conhece o pai?”

“O pai não importa.”

Pouco antes de sofrer o meu primeiro enfarte, há vinte e cinco anos, quer dizer, antes da dor aguda, senti uma sensação estranha de alheamento, de fuga da realidade. Eu estava envolvido numa operação extremamente tensa, de compra milionária de um estoque de máquinas, não dormia há dois dias e bebia sem parar. Essa sensação voltava sempre que alguma coisa me perturbava além do normal. Foi o que comecei a sentir naquele momento: uma menina linda, perfeita, inteligente, e já destruída pelo materialismo e a usura – principais características da nossa lamentável sociedade.

“Está tudo bem, gatão?”, ela perguntou. (Eu deveria ter mudado de expressão, subitamente.)

“De onde você é, minha filha? De que bairro?”

Ela desconversou, disse que morava em um apartamento de área nobre da cidade, com mais duas amigas. Mas eu insisti e ela acabou me falando o nome de uma vila que me era completamente desconhecida.

“Jovens nos botequins jogando sinuca. Bêbados batendo nas mulheres e nos filhos. Cachorro latindo por todo lado. Garotos vendendo drogas no meio das ruas…”, eu descrevi seu ambiente.

“Onde quer chegar, cara? Todo mundo sabe como é bairro de pobre.”

“Eu acredito que você seria mais feliz, menina, se em vez de abordar velhinhos com propostas indecorosas, passasse a defender sua gente de alguma maneira, e usar sua esperteza, sua inteligência, porque você tem uma boa cabeça, para transformar aquela gente em pessoas respeitáveis. Esse caminho que você está trilhando é individualista, equivocado, e só vai levá-la à morte prematura.”

“Que é isso? Um comunista aqui no Jóquei?”

Ela sorriu um sorriso de mulher feita, gasta, como se já estivesse viciada e morta. Fiquei com pena também de mim que, a vida inteira, não fizera outra coisa além de vender, exatamente como ela, o meu michê profissional, tendo apenas como objetivo a progressão das minhas contas bancárias.

“Ei, cara, você, além de comunista, é meio louco, não? De repente faz umas caras esquisitas, tristes e alegres…”

Agora estava, sim, alegre. Descobrira, afinal, como fugir daquela sensação de alheamento do próprio corpo. Senti-me até rejuvenescido. E não iria perder jamais essa nova energia com aquela pobre menina egoísta.

“Desculpe-me, querida”, disse-lhe, com um certo carinho, “mas os velhinhos são assim mesmo, cambiantes. Por que você não pensa um pouco no que lhe falei? Eu lhe confesso que jamais disse algo tão profundo e tão útil a alguém, na minha vida, mas hoje estou certo de que, se o tivesse feito sempre, teria sido muito mais feliz. Como estou agora.”

Ela insistiu com sua expressão carcomida, levemente devassa, e eu me assustei ao perceber que a estava captando no futuro. Eu precisava fazer algo mais, inventar uma motivação mais forte para tirá-la daquela barra pesada, mas ainda não sabia o quê.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003

Cansei de dizer a Sizenando que o paladar é uma questão de educação, de repetição e de estudo. O paladar, em si mesmo, é uma força positiva, talvez uma dádiva. Eu sempre tive bom paladar, sempre consegui captar nuances de sólidos e líquidos, as marcações subliminares, o salgado mas nem tanto, o falso doce – e o agridoce.

Nasci assim. E foi por isso que me transformei em um dos maiores críticos de restaurantes do País. Se não fosse modesto, diria O maior!

Foi uma época feliz, a que vivi com Sizenando no começo do nosso caso. Eu já completara cinquenta e dois anos e Sizenando nem chegara aos vinte e cinco. É comum, eu sei, o “cabeça do casal” ser um pouco mais velho e possuir um poder aquisitivo estruturado. É comum também que o mais velho possua cultura, e o outro seja, digamos, emergente. Talvez fosse comum que o mais experiente, como era o meu caso, tivesse nascido no Sudeste, enquanto o companheiro fosse um nordestino ou um nortista.

Sizenando era nordestino. Que homem incrível! Eu o encontrei fazendo faxina numa loja de vinhos. Olhei para ele: um metro e oitenta de altura, apolíneo, o rosto esculpido em pedra, lindo, de uma beleza definitiva. Aproximei-me dele, perguntei da sua vida, e percebi, coitadinho, o quanto era carente. Não tivera pai, pouco vira a própria mãe, aos seis anos já andava pelas ruas da capital do seu estado pedindo comida. Ou seja, todo o seu encantamento e a sua estética natural (abdômen definido como jamais o vira, nem em fotos) provinha da Natureza, do acaso, ou, numa análise mais profunda, de Deus.

Eu o convidei a me visitar no meu apartamento, apesar do perigo que poderia estar correndo: quantos de nós, boa parte da minha geração, não haviam sido assassinados por meninos jovens, drogados, ou simplesmente gananciosos, à procura de tesouros escondidos nos nossos antiques de bichonas?

Tantos… E foi por isso que engoli o calmante da moda antes de Sizenando chegar. Tadinho: ele veio de calça cáqui que havia comprado na feira de Santana dos Aflitos, sua cidade, e de camisa alegre, com motivos quase carnavalescos, muito desbotada, apesar de ter sido lavada poucas vezes, como me confessou depois. A camisa se abria naturalmente por causa da largura dos seus ombros gregos. Eu, que já me sentia fisgado, fiquei mais. E ao contrário de um assassino de homessexuais, Sizenando foi tão doce!

“O senhor me chamou pelo motivo que estou pensando?” Foi assim, desse jeito gracinha, que ele me abordou. Procurei não ser falso.

“Claro, Sizenando, o que você acha que um homem de meia-idade quereria fazer com você?”

“O senhor poderia ser meu pai.”

“Poderia mas não sou, pombas!”

“Não quis agredir.” Ele era íntegro, mas… tão naif.

Para encurtar: fomos terrivelmente felizes nos primeiros três meses da relação. Eu paternal, ele dócil, mas consciente da sua masculinidade exacerbada, que não via obstáculos na diferenciação sexual… sei lá como explico! Era uma macchina.

Eu sempre o levava aos restaurantes, consciente de que os proprietários e os maitres, que tanto me bajulavam, procuravam os donos da revista, meus patrões, acusando-me, sobretudo se tivessem sido vítimas das minhas críticas: “O Fulano sempre vem aqui com um bofe!”.

Ou seja: como era tensa minha relação com meu próprio ganha-pão! E, no entanto, nunca vendi minha opinião, jamais tentei agradá-los de alguma forma, apesar dos presentes finos, dos vinhos caros que me enviavam. Minha profissão sobrevivia sobre um fio de navalha. Mas eu continuava a receber o prestígio dos meus empregadores. E isso anos a fio. Eu fazia questão de pagar as refeições de Sizenando, enquanto as minhas eram cobertas pela revista. Uma relação sadia.

Mas aí veio a desgraça. Numa noite, ao experimentar um fricassé de frango, senti-me o sangue fugir do rosto, fiquei gelado e pensei que iria desmaiar. Sizenando me levou ao toilette e vomitei. O maitre tentou invadir o banheiro, mas o impedi. ‘Ninguém pode saber dos meus segredos’, decidi comigo mesmo. Depois, refeito, disse ao maitre que havia me sentido mal por causa de estresse. Já Sizenando me olhou com um olho estranho.

“Paizinho”, disse, “achei que o senhor tava morrendo…”

“Me chamando de senhor de novo, Sizenando? A gente dorme juntos e você me chama de senhor?”

“É o costume, paizinho.”

“Costume o caralho.”

Naquele dia não pude julgar o fricassé. Tentei comer a sobremesa, um pudim de nozes, mas não fui feliz, uma vez mais. Tive de voltar ao toilette; Sizenando junto, contrafeito.

Vesícula. O médico me disse que deveria operá-la imediatamente, mas resisti. “Só depois do Festival de Inverno”, disse-lhe. “O senhor sabe, doutor, sou crítico de restaurantes e não posso deixar de trabalhar.”

“Mas é a sua vida”, disse o doutor, piedoso.

“É por isso mesmo: a crítica é a minha vida.”

Ele se calou e completou: “O senhor é que sabe.”

Eu sabia. Antes do festival, precisava escrever umas três críticas, dois restaurantes franceses e um italiano. O proprietário do italiano, Lugi Pastore, era um homem mau. Falava horrores de mim, profissionalmente. Insistia no que ele chamava de “ignorância atávica”. Sempre tive medo de que ele adentrasse outros terrenos, os pessoais, nas suas manifestações. Mas, até então, ele jamais me atacara por causa de preferências sexuais.

Escolhi o italiano como o primeiro a ser visitado. Mas chamei Sizenando e, gentilmente, fiz-lhe ver a minha real situação.

“Querido, estou vivendo à base de pílulas, não posso pôr nada na boca. Você vai ter de me ajudar…”

“Como, paizinho?”

“Seguinte: vamos ao restaurante, pedimos dois pratos, o seu meia-porção, e aí você vai comendo as coisas e me dizendo como elas são.”

“Mas eu só sei, paizinho, o que é doce e o que é salgado.”

“Sizenando: eu já lhe falei sobre paladar, não falei? Paladar é uma questão de educação, de repetição e de estudo. Você já me acompanha há muito tempo nesses jantares e pode, sim, discernir entre o bom e o menos bom. Já sabe o que é um vinho redondo e um ácido.”

“Mais ou menos, paizinho.”

“Nã, nã, você vai me ajudar. Eu faço o seguinte: entrevisto você. Vou pedir um prato, vou fingir que comi, aí a gente enrola o garçom, fica de olho no maitre, mas só quem come é você… OK?”

“Tá bom, paizinho.”

Luigi Pastore quis ficar na nossa mesa e esse foi o meu primeiro problema. Com jeito o afastei. “Você acha que eu sou pior companhia, gastromicamente falando, do que esse… esse rapaz?”, ele me perguntou, olhando feio para o meu querido garoto.

“Acho sim. Você é o dono e pode me inibir.”

“Tenha cuidado, garoto”, disse Luigi Pastore ao meu menino, “tem aí um comando nazista matando negros e nordestinos.”

“Eu corto o saco deles e dou pro senhor fazer uma dobradinha!”, respondeu Sizenando, sério. Eu, às vezes, me sentia muito orgulhoso do meu afilhado.

De repente, chegou, fumegando, um cabrito com “profumo del sud”, ou nome parecido. Todos os empregados do restaurante, além de Luigi, nos observavam. Fui obrigado a encará-los para ver se eles desviariam o olhar. Tivemos uma chance.

“Agora, Sizenando, morde aí a carne e me conta como está…”

Sizenando o fez, constrangido, mas se atrapalhou na análise: “Está com pouco sal e com muito gosto de mato”.

“São as ervas aromáticas, porra. Diga-me: elas são agradáveis ao seu paladar?”

“São uma bosta. Eu prefiro coentro com carne de bode.”

“Sizenando: me escuta. Estou fudido. Eu sustento você, lhe dou casa, comida e roupa lavada. Agora estou doente. Eu só quero que você me responda com alguma precisão às perguntas que lhe faço…”

“Desculpe, paizinho, é que às vezes eu tenho vergonha de ser marido de viado.”

“Que é isso, Sizenando?”

“De ser bofe.”

“Minha flor: você é apenas o meu companheiro emocional. Você poderia ser uma mulher, ou um cachorro, assim como eu poderia ser uma instituição, uma empresa… No fundo, no fundo, a gente, homem, mulher, viado, lésbica procura fugir da solidão. Por coincidência, eu sou a bicha velha e você o menininho. Mas eu preciso que você coma esta coisa aí e me diga mais ou menos o que você achou, ou eu perco o emprego.”

“Tá bom, paizinho, pode perguntar.”

“Obrigado. Então me diga: essas coisinhas verdes que vieram ao lado da carne de cabrito estão com gosto bom? Sabem a alho, quer dizer, parece que foram cozidas com alho?”

“Hummmm… mais ou menos.”

“Puta que o pariu, Sizenando: você é uma anta.”

“Prefiro mesmo carne de anta a essa coisa aqui. Sabe, fala lá pra tua revista que este restaurante é uma enganação. Não consegue nem agradar a quem já passou fome.”

“Olha, Sizenando, sinceramente: este é um ângulo novo e muito importante para mim.”

Talvez tenha sido a melhor crítica que escrevi, nos últimos tempos, a partir da rústica sensibilidade do meu amor. Não sobrou pedra sobre pedra do “ristorante”. Luigi Pastore enviou uma carta desaforada à direção da revista. Mas em nenhum momento aludiu à minha sexualidade. Acho-o arrogante, muito convencido, e até meio fascista. Mas é elegante, apesar de grosso, socialmente. Quem sabe, da próxima vez, ele não acerta a mão no tempero?

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