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Desiguais

Eu disse, já vencida: “não fique olhando para o vazio, Carminha, porque nossa menina não volta mais. Quem sou eu, minha querida, para encarar os juízes da infância e da adolescência? Em compensação, foram três meses de felicidade absoluta, nós e a menina, nossa Cely, a viver o mais perfeito dos encantamentos: mãe, pai (no sentido figurado) e filha, juntos, irmanados numa vibração superior.”

Carminha chorava muito. É que o novo juiz pôs tudo abaixo. Fico me perguntando como os legisladores permitem que a lei se ponha acima da vida? Como uma coisa, pois a lei é uma coisa, se sobrepõe sobre o sentimento de três seres humanos, nós e a Cely, que finalmente se encontraram, viveram três meses felizes, e, quando as parcerias e irmandades começavam a se solidificar… corte! Aquele juiz, que no fundo é um homem comum, acabou por nos impedir de continuar nossa trajetória cármica, que era a de nos conhecermos, nos descobrirmos e, finalmente, nos amarmos.

Meu Deus: Cely tem somente dois anos de idade! Já havia sofrido a separação dos próprios pais, depois caíra na miséria ao lado dos mendigos que, mal ou bem, debaixo dos viadutos, a fizeram sobreviver; e aí nós aparecemos. A menina ficou conosco, clandestinamente, por algum tempo, mas tínhamos de legalizar a situação, esclarecer o assunto.

“Vocês imaginam que, realmente, podem sustentar uma criança? Sem lhes criar problemas emocionais?”, perguntou o primeiro juiz.

“É claro, meritíssimo”, eu respondi. “Emocional e materialmente: ganho muito bem e a minha parceira mais ainda. Ela é executiva de multinacional.”

“Tá bom”, falou o juiz, que era bem jovem, e politicamente avançado, “vou conceder a filiação a vocês, eu acho que amor filial não tem sexo nem fronteiras.”

“Ela é nossa filha”, garantimos ao juiz.

“É minha sobrinha”, ele disse, com muita graça, selando nossa cumplicidade.

Meses depois, a mãe verdadeira, que havia sumido, foi estimulada por um programa de televisão e entrou na Justiça, pedindo de volta a filha. E ela deixou muito claro: não teria condição de criar a menina, sendo aidética e alcoólatra, mas não se conformava que dois sapatões o fizessem.

Chegaram três, não sei por que tantos, oficiais de justiça em nossa casa. Eu e Carminha fomos atender, juntas.

“Onde está o homem da casa?”, perguntou um deles, maldosamente.

“Não existe um homem nesta casa”, eu respondi, enquanto Carminha já choramingava, “mas nós podemos substituí-los em tudo, inclusive no salário, que é muito maior do que aquele que os funcionários públicos recebem.”

Não deveria ter dito isso. O olho do homem cuspiu ódio, e ele levou nossa menina chorando. Fui tentar evitar e fiquei com um roxo no braço.

Ouvi dizer que a menina está, agora, vivendo com um casal perfeito, maduro, sem filhos. Heteros. A própria mãe de Cely o permitiu. Mas juro que não há, neste mundo, amor maior do que o meu e o de Carminha. Nós somos capazes de morrer pelos nossos filhos.

Agora, estamos tentando desaguar nossos sentimentos sobre as crianças dos faróis, oferecendo-lhes roupas, além de dinheiro, e até já prometi a um garoto pagar-lhe os estudos até a universidade.

Talvez seja melhor assim. Mas acho injusto condenarem os desiguais aos amores coletivos, às emoções institucionais.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

A Cobra Corpórea era um ser encantado. Nada mais nada menos. Assim como uma fada européia. Não, não. Era brasileira, mesmo, como o Boto Cor-de-Rosa ou o Saci-Pererê, os mais universais dos encantamentos nacionais, na minha opinião.

Só a viam os paranormais e as crianças de Recanto das Antas, um lugarejo perdido no sertão; eles se mostravam fascinados com o pequeno ser, de corpo de serpente e cabeça humana, aparentemente feminina, por causa dos longos cabelos, mas eventualmente andrógino. A voz, segundo os videntes, era de mulher, ou melhor, de pré-adolescente, de quase menina. De qualquer forma, esse talvez fosse o detalhe menos polêmico da descrição do ser. Meu trabalho é estranho: sou jornalista ateu, racional, não acredito em nada dessas coisas, mas trabalho para quem acredita e assim, como profissional sério, devo ser o mais preciso possível nas descrições.

Aceitei o emprego do portal “Encantamentos” pelo simplório motivo de que estava difícil arrumar trabalho naquela época e eu precisava pagar, além do aluguel, o complicado tratamento da minha filha Giselle, de dez anos, aidética. A mãe dela, namorada minha que engravidou, morrera no ano anterior e eu era considerado uma espécie de fenômeno, por não ter sido contaminado. Já fizera inúmeros testes, que davam negativo. O custo maior do tratamento de Giselle era coberto pelo governo, mas sempre havia os remédios por fora, as visitas a especialistas, etc. E eu ainda sonhava em levar a menina aos Estados Unidos, apenas para ouvir opiniões sobre algumas abordagens alternativas. Trabalhar num portal especializado em misticismo não é o objetivo da maioria dos jornalistas, mas, diante das circunstâncias, era pegar ou largar. Peguei.

Quando apareci na empresa, alertado por um amigo sobre a vaga, fui recebido por uma figura inesquecível, conhecido como João Abjeto, um apelido que nada tinha a ver com a etimologia do adjetivo, pois o João, apesar de franco, direto, era uma pessoa delicada e mesmo doce. Ele chefiava a Redação e fazia questão de entrevistar todos os possíveis colaboradores.

“Você é espiritualista?”, foi sua primeira pergunta.

“Não”, respondi prontamente, de reflexo. Eu costumava ser assim mesmo, sincero, mas no reflexo.

“Maravilha”, exultou o editor-chefe. “Está empregado.”

Se tivesse demorado frações de segundo para responder, como acontecera com os candidatos anteriores, ficaria fora do páreo. “Você provou que é honesto”, alegrou-se o Abjeto.

“Obrigado pela confiança”, respondi. “E gostaria de ser mais honesto ainda.”

“Assim tá bom”, João encerrou a conversa. “Honestidade em excesso vira babaquice.”

Comecei imediatamente a trabalhar. Quando ele soube que eu tinha uma filha sem mãe, e ainda por cima aidética, passou a me proteger acintosamente, o que me criava um certo mal-estar diante dos outros colegas, apesar da solidariedade geral.

Abjeto, um espiritualista sólido, chegando à erudição na matéria, apreciava a busca da objetividade no jornalismo, mesmo que se escrevesse sobre os sonhos (ou visões, sensações, estados d’alma) das pessoas envolvidas em todo aquele universo que, no íntimo, me parecia apenas delirante.

Não acreditar no que me diziam, em princípio, acabava funcionando como um atestado de credibilidade para os meus entrevistados: afinal, quem não acredita, não escreve a respeito; mas eu era obrigado. Isso premiava o texto com uma seriedade que nem eu percebia bem. E era justamente isso o que o Abjeto gostaria de passar para o leitor: uma visão formalmente realista e correta daquilo que, por definição, era irreal.

E assim eu ia aparecendo nos lugares, perguntando onde estavam os fantasmas, que jeito tinham, de que forma falavam, com ou sem sotaque, etc., etc. Ficava fácil, às vezes, desmascarar os loucos que inventavam histórias. Eles se contradiziam na primeira entrevista, ou fugiam de mim como se eu fosse um juiz.

Foi assim também que eu destruí a reputação do Coronel Epifânio, um picareta que se dizia tomado pelo espírito de um médico do século dezoito, e cujo principal delírio era o de encher um estádio de futebol de doentes e curá-los a todos, ao mesmo tempo, apenas com uma distante e simbólica aposição de mãos.

“Posso fazer uma grande entrevista com o senhor”, disse ao coronel, “mas gostaria que, antes, o senhor curasse um paciente meu.”

“Traga quem você quiser. Um parente. Um amigo. Ou até sua mãezinha, se ela estiver doente.” Além de bandido, era cínico.

“Esta, infelizmente, já se foi, coronel, mas eu tenho o meu doentinho.”

“Então traga já.” O homem era de uma autoconfiança suicida.

Levei seu Jeremias, um cego do meu bairro, que conhecia desde criança, para fazer o papel do “meu” doente. Ele sofrera um acidente aos quatro anos de idade, um certo ácido lhe caíra nos olhos, e então perdera a visão. Sua única memória visual era a de uma imensa árvore, de tronco e galhos quase negros. Mais nada. Tive o cuidado de conversar antes com ele, dizendo-lhe que não ficasse esperançoso. Que, se ocorresse um milagre, eu seria o primeiro a me ajoelhar e pedir perdão a Deus por décadas de ceticismo. Mas que, sinceramente, eu não acreditava em nada daquilo, apesar de trabalhar em um portal chamado “Encantamentos”.

“É mesmo, menino, tu não acreditas em nada?”

“Nada, seu Jeremias.”

“E se eu te disser que já vi Deus na minha escuridão?”

“Eu vou achar que o senhor ficou meio doido…”

“Pois é. Tu és mais cego do que eu.”

Seu Jeremias era assim mesmo, descontraído. E lá fomos nós. O picareta deve ter imaginado que eu levaria alguém com uma dor nos rins, ou no estômago, ou até algum maluco, sofrendo de doenças imaginárias, que ele curaria com o seu inegável dom de persuasão.

“Porra, um cego! Mas aí já é dose pra leão…”, eu o vi comentar com um dos assessores, sem saber que fiz curso de leitura labial.

“Vou curar o senhor!”, disse o coronel, dirigindo-se à minha cobaia, “mas não sei se a sua visão se recuperará ainda hoje, ou se vai levar um tempinho.” Que sacana! “Mas, pelo menos”, continuou, “uma luz o senhor vai ver agora, neste minuto. Seja honesto comigo, seu Jeremias, o senhor está vendo uma luz, não está?”

Seu Jeremias apertou seus olhos inúteis, fez uma cara de espanto, e eu comecei a me preocupar.

“Estou, estou vendo, sim.”

Os assessores do coronel quase bateram palmas. Outras pessoas por perto, populares ingênuos, entraram numa espécie de transe. Houve quem dissesse, em voz alta, “obrigado, Senhor!”

“Muito bem”, disse o bandido, cada vez mais confiante. “E esta luz irá aumentando, cada vez mais, até o senhor recuperar toda a sua visão.”

“No meio da luz, meu senhor, estou vendo um rosto…”

“Um rosto?”, estranhou o coronel. “E como ele é?”

“É todo feito de madeira, meu senhor. E pelo jeito está rindo da minha cara.”

“É o cara-de-pau!”, eu falei, no ato, e o coronel, fuzilando a mim e ao cego com um olhar de vampiro, virou-se, subitamente, e foi embora, dizendo que não estava ali para brincadeiras.

Bem, agora estou de novo no meio de uma outra ficção, essa conversa da Cobra Corpórea, só que aqui não há picaretas que a vêem, mas crianças de seis a doze anos e adultos de todas as idades, gente muito humilde do sertão. Ou seja, eles não estão mentindo. Alguma coisa vêem. É estranho.

E, por que diabos, chamam a aparição de Cobra Corpórea? De onde tiraram “corpórea”? Entrevistei dezenas deles, e todos me dizem que ouviram isso dos seus pais e tios, que a visão anda pelo lugar há séculos, que é mais antiga, até, que o Padim Cícero Romão, o mito mais próximo deles.

A descrição de todos batia de uma forma inacreditável: eram crianças falando-me de um bicho com escamas no corpo de cobra, com um rosto humano andrógino ostentando cílios negros. E a voz de menininha. A única dúvida, mesmo, era o sexo da aparição, apesar de todos os indícios apontarem para o feminino.

E qual o sentido dessa, digamos, intervenção na realidade? Por que o pequeno deus, ou símbolo, viria à terra, e ainda mais ao sertão, para conversar com os mortais? Por que não na capital? Ou em Paris? Foi um velhinho, seu Asdrúbal, que parecia ter oitenta anos mas não passara dos sessenta, que me elucidou: “Aqui só aparece coisa que a gente entende”.

É fato. Aquela é uma região infestada de cobras. Há muita gente vestindo sapatos do couro dos pobres ofídeos, mortos a porradas. No arremedo de hospital, lá perto, havia todos os tipos de antídotos. Nada mais lógico, então, do que o elemental de plantão vestir-se de cobra.

E por que andrógino, ou indefinido? Lá veio seu Asdrúbal de novo: “Ué, pra se dar o respeito para homem, menino e mulher.” É… faz sentido. Sem comentários.

“Mas o que diabo, gente, essa cobra fala? Que é que ela diz?” A resposta era mais ou menos a mesma: “Tudo o que a gente precisa saber. Se é preciso tratar de alguma peste, a Cobra Corpórea diz como. Se o mal é a cabeça doida, ela explica o que se pode fazer. Se é falta de dinheiro, ela dá palpite sobre trabalho mais rendoso. Êta cobra esperta!”. Para as crianças, a mesma coisa: aconselhamento, carinho, boas influências.

“Pois bem”, eu disse a um grupo reunido diante de um casebre, “eu quero conversar com a cobra. E se ela permitir, até a filmo com minha máquina.”

“Não sei se ela vai lhe aparecer, não”, disse uma mulher escura, cabelo escorrido e traços de índio no rosto. “Primeiro porque o senhor não acredita. Já perguntou tanto… Depois porque não sei se o senhor tem precisão.”

“Tenho uma filha que sofre de uma doença sem cura.”

Eles ficaram constrangidos, coçaram a cabeça, mas me deram uma dica. Lugar de encantamento é perto de água. E água, por ali, só num açude quase seco, onde algumas vacas magérrimas passavam o dia fuçando a lama. Eu tinha de ir pra lá, de preferência à noite, hora propícia para as aparições.

Era demais para mim. Mas lá fui eu, idiota, até a beira do açude, dois quilômetros adiante, cercado de crianças sorridentes que, logo, logo, foram recolhidas pelos pais. Escolhi um ponto que me pareceu mais simpático, próximo a uma das poças de lama, e sentei-me em uma pedra grande. Fazia frio no sertão, como acontece nos desertos. Esperei uns quarenta e cinco minutos, olhando o breu e imaginando a tragédia da cegueira, pensando no delírio que seu Jeremias experimentou, imaginando que vira Deus por dentro da escuridão.

“Cobra Corpórea, apareça!” , eu gritei em voz alta, e somente os sapos e uns pássaros de piar lúgubre me responderam. “Preciso de ajuda para a Giselle. Não tem sido fácil pra mim, sabe, ó Cobra? Não sei mais o que fazer com a menina, daqui a pouco vou ter de lhe explicar o que é menstruação, sou obrigado a viajar e fico longe dela, também não sei por quanto tempo ela vai viver. Me ajuda, Cobra Corpórea!”

Mais um pouco e estava chorando. Jamais havia rezado na minha vida, que me lembrasse, meus pais eram agnósticos, nem deixaram que eu fizesse a primeira comunhão, junto com os primos da minha idade. A menção à Giselle havia me esmagado emocionalmente. Mas logo me refiz e, no fim da crise, senti que chorava de vergonha de mim mesmo, por me prestar àquele papel ridículo, clamando por uma alucinação coletiva, à beira de um açude seco, num fim de mundo brasileiro.

Na volta, ouvi o som de um chocalho e cheguei a imaginar, no primeiro momento, que fosse um sinal da aparição. Depois, silêncio profundo, e eu me dei conta de que poderia ser cobra de verdade, no meu encalço. Cheguei ao lugarejo correndo e somente seu Zinho, o homem que me hospedara na sua ampla maloca de três cômodos, estava acordado me esperando. Antes que ele me perguntasse qualquer coisa, eu já fui dizendo “não vi nada, não vi nada.”

“Mas ouviu um chocalho?”

“Como o senhor sabe?”

“Cobra Corpórea sempre dá esse sinal quando ouve os reclamos.”

“E se o chocalho foi de cobra mesmo?”

“Aí lhe teria picado. Não avisa.”

Achei melhor esquecer. De qualquer maneira, voltei com uma excelente reportagem. Iria escrever simplesmente o que tinha visto, sem entrar nos detalhes do meu vexame. Contaria o que o povo me dizia, faria umas pesquisas sobre elementais brasileiros e outros tipos de aparições, não deixaria de especular um pouco sobre a tradição européia dos seres encantados. Um bom trabalho.

Escrever era uma bênção para mim, porque ficava, o tempo todo, perto de Giselle. Assintomática, a pobrezinha até que levaria uma vida normal, não fossem uns problemas de preconceito no colégio. Mas eu nem me importava muito com isso. Enquanto mantivesse a saúde, minha filha enfrentaria o mundo. Que é sempre perverso com os diferentes.

Um dia ela me chegou meio misteriosa, perguntando se eu lhe atenderia a um pedido. “Claro.” Aí ela me deu um papel dobrado onde escrevera os nomes de três ervas medicinais.

“Compra pra mim?”

“Já disse, compro. Quem lhe deu isso, Giselle?”

Não respondeu. Foi certamente a professora de Ciências, que ela amava, pensei. Liguei depois para a professora, sondei, perguntei diretamente, nada. Não lhe havia dito coisa alguma.

Chamei Giselle para uma conversa séria.

“Querida”, disse-lhe, “vou lhe falar uma coisa e você vai me dizer sim ou não. Entre nós, a gente combinou, não vale mentir. Está certo?”

Giselle fez sim com a cabeça, apertando os lábios, preocupada.

“Quem lhe passou tudo isso foi uma cobra? Quer dizer, uma cobra com cara de menino esquisito?”

Giselle olhou para mim, mais assustada ainda, encarou-me um tempo e explodiu numa grande risada. Há muito eu não ouvia uma gargalhada tão gostosa, regalada, saudável.

“Tá doido, pai? E eu lá converso com cobras?”

Fez uma pausa para continuar rindo, e acabou confessando:

“Eu sonhei, pai, com os nomes dessas ervas e quando me levantei tinha certeza de que o chá delas vai ajudar a cura da minha doença.”

Mais uma vez confuso, fui atrás das ervas e acabei descobrindo que já são usadas, em alguns países, em tratamentos alternativos, para a recuperação de aidéticos. Claro, Giselle ouvira em algum lugar aqueles nomes, guardara no inconsciente e acordara com a informação na mente.

Mas que é desagradável ouvir um chocalho invisível, de vez em quando, em plena cidade, em lugares onde é impossível a presença de uma cobra, ah, isso é. E tem acontecido comigo. Dia desses, no meio do shopping. Cheguei a saltar de lado, como se uma cascavel estivesse prestes a me morder os calcanhares. “Vôtes! T’esconjuro, cão danado!”, diriam as beatas do sertão.

Minha arte

Ela já deveria ter atendido um monte de gente e talvez por isso nem me olhou direito.

“Pois não…”, disse, meio distraída, ajeitando umas fichas na gaveta da mesinha. Eu permaneci calado.

“Pois não”, repetiu, e levantou os olhos, encarando-me. Gosto de ser encarado. Ela sorriu um sorriso débil. Deveria estar mesmo exausta. Esse pessoal caridoso trabalha o dia inteiro e estica a noite atendendo a gentalha. Ela:

“Por que o irmão veio nos procurar? Todos os problemas são resolvidos por Jesus. Todos.”

“O meu, não sei não.”

“O seu, o meu.” Apesar de murcho, o sorriso era bonito. Dentes grandes, gengiva bem vermelha. “Jesus resolve o problema de todo mundo, irmão.”

Suspirei fundo, como quem procura coragem.

“Até o problema de alguém que matou sua própria esposa?”

No começo, silêncio. Mas os olhos dela se abriram mais, encarando-me com aflição. A boca estremeceu, de forma sutil. E aquela expressão de cansaço sumiu de repente. Eu me agitei na cadeira, eu era gozo puro. Ela olhou para os lados, discreta, onde uns outros dez voluntários ouviam misérias.

“E isso…”, ela conseguiu balbuciar, “já faz tempo?”

Olhei o relógio, disse: “Duas horas e meia, mais ou menos. Deixei o cadáver lá e vim.”

“Pra cá, diretamente?”

A voz dela se elevara um pouco.

“Dizem que aqui as pessoas entendem a gente…”

Longa pausa. Agora, os lábios da mulher (uns trinta anos, gostosinha) tremiam como se fizesse muito frio.

“Jesus entende a todos nós”, ela ainda disse, engolindo em seco. Súbito, pôs a mão na boca. “Desculpe, não estou me sentindo bem…” Levantou-se, trôpega. “Desculpe, preciso ir ao toalete…”

Fechei os olhos. Atingira o máximo da excitação. “Grande garoto!”, eu me disse. “Teu desempenho foi perfeito!”

Aí me lembrei de outros momentos, bons e maus, em que exerci minha arte.

No Centro Espírita da Zona Leste, eu:

“O tal do maníaco que já matou dez mulheres não é quem a polícia está pensando. Sou eu.”

“Muito prazer. Eu me chamo Nossa Senhora de Achiropita”, disse a quarentona de olhos azuis. Uma mulher sisuda, fechada, sem dor. Admito: eu vacilei.

“A senhora não acredita em mim?”

“Não. Já me apareceram uns três caras dizendo que são o maníaco. Fora os outros que passaram pelos meus colegas. Mas, se quiser conversar sério, estou às ordens. O senhor, pelo jeito, precisa mesmo de ajuda.”

Aquilo foi uma lição. Aí eu decidi aprimorar a técnica, ser perfeito na minha arte.

Na Igreja do Cristo Redivivo, eu:

“Desculpe se estou chorando (estava). Sabe, sou gay. O meu marido acaba de morrer de um vírus terrível. Não pense que é Aids. É o vírus Ebola. Ele pegou na África. Acho que me contaminou. Vai contaminar o Brasil. Meu Deus…”

A mocinha, bem nova mesmo, com as últimas espinhas da adolescência no rosto, não entendeu direito. Eu repeti. “Estávamos casados há vinte anos. Nos conhecemos em Paris. Alfredo.”

Ela não conseguiu falar direito. Olhou para mim como se pedisse socorro. Pedia socorro. Levou um tempo assim.

“Sinto muito…”, foi a única coisa que disse a coitadinha.

“Eu também”, respondi. Estava excitadíssimo. É uma sensação de liberdade, de plenitude – só os deuses a conhecem.

Que magia, que delícia! Mas não procuro padres católicos, eles se escondem por trás de telas. Seriam os primeiros a tremer. Eu quero encarar. Quero olho no olho. Ver o outro sem saída, gente se engasgando de medo de mim.

Toda a família dera graças a Deus: após anos de internações por alcoolismo, perda de muitos empregos (chegara a perder, até, um emprego público), lágrimas e dor dentro de casa, com os filhos adolescentes revoltados, os irmãos ajudando com as despesas, muita novena e promessas, Yuri conseguira se acertar na vida. E tudo isso por causa do japonês.

Mestre Nagayama, como era chamado, muito mais do que um patrão compreensivo e generoso, era um verdadeiro guru para todos os seus empregados. Quando aceitou que Yuri tomasse conta da contabilidade da sua pequena indústria de produção de patinetes, foi logo avisando:

“Tomei informações do senhor e sei que tem problemas com a bebida, mas que é um profissional honesto. Se me permitir curá-lo do seu problema, seu emprego estará garantido. Se não, o senhor já sabe o que vai acontecer: o mesmo que ocorreu nos outros lugares onde esteve.”

A postura direta e generosa do novo patrão mexeu com os brios de Yuri e ele aceitou tentar curar-se. Já tentara de tudo, inclusive os Alcoólicos Anônimos, mas nada dera certo. Epifânia, sua mulher, perdera qualquer esperança, arrumara um jeito de faturar alguma coisa, vendendo perfumes naturais, do contrário ela e o casal de filhos iriam de vez para a miséria.

A transformação do ainda jovem contador foi pouco mais do que um milagre. Epifânia, os filhos, todo mundo, ninguém acreditou, nos primeiros meses. Não que Yuri fosse agitado ou violento, não era, fazia mais o estilo bêbado deprimido, que chora e pede desculpas. Mas a sua própria situação instável o deixava com os nervos à flor da pele, gaguejando, esquecendo-se de tudo, esbarrando nas portas, mexendo sem controle alguns músculos do rosto, como um piscar de olhos sem fim.

Agora, não. Sem beber um gole, pelo menos dentro de casa, tornara-se pacífico, afetuoso, compreensivo. E até fizera amor com Epifânia, numa sessão de ternuras e delicadezas que durara uma noite inteira de sábado.

“Foi o japonês também que ensinou essas técnicas pra você?”, perguntou a esposa, alegremente exausta.

“Foi. É Tantra Yoga. Nós nos tocamos, e nos tocamos, e não cansamos de nos tocar, porque você é minha deusa e eu sou o seu deus…”

“Foi o melhor jeito de fazer, Yuri, mas eu teria ficado mais feliz se você tivesse, ham, chegado lá.”

“Não, não. Se eu chegasse lá teria desperdiçado o meu amor. Seria o fim da comunhão entre nós dois. E seria a prova de que não consigo dominar meu próprio corpo.”

“Mas eu cheguei, Yuri, e nunca senti isso antes…”

“Quero que você seja feliz”, disse ele, enigmático.

Já se passara um ano de paz em casa e Epifânia participou à família, filhos inclusive, que o marido estava curado. Ganhara até um aumento na empresa, apesar da conta da livraria, um absurdo, e só de livros de meditação, espiritualismo, budismo, yoga.

Yuri evoluía mais. Tentava convencer os filhos sobre as excelências de um tal Quarto Caminho, mas não teve muito sucesso, assim como não conseguiu levar Epifânia às reuniões regulares do Grupo do Lótus Cambiante, presidido pelo genial Nagayama, cujos empregados acabavam de ganhar um prêmio de produtividade da Associação das Pequenas e Médias Indústrias. “Usamos técnicas de meditação transcendental”, ele explicara ao maior jornal da cidade, muito interessado no assunto. Na foto do grupo de meditação, lá estava Yuri, na primeira fila.

O contador, agora, pedia a Epifânia que liberasse o quarto de casal durante duas horas por dia, pois ele estava tentando mais uma técnica espiritual de equilíbrio psicossomático.

“Mas, meu amor, está tão bom assim… Você é outro homem com essas novidades todas, não precisa fazer mais nada.”

“Querida esposa: não há volta neste meu caminho. É a minha evolução, estou cuidando do meu futuro espiritual…”

Pelos livros que andava lendo e por algumas conversas ao telefone com outros adeptos, Epifânia e os filhos descobriram que Yuri tentava chegar à levitação, naquelas horas em que se recolhia ao quarto.

Certo dia, Ramiro, o filho mais velho, chegou pálido junto à mãe, que via televisão na sala, expulsa do seu canto preferido.

“Mãe, mãe, eu… estava olhando o pai pela fresta da janela…”

“O que, Ramiro, você fez isso?”

“Fiz, mãe, desculpe, mas é coisa mais séria, mãe: o pai está suspenso no ar lá dentro. Está a uns dez centímetros do chão…”

“Mentira.”

“Juro, mãe, juro. Vai lá ver.”

“Eu não. Eu respeito a privacidade do seu pai.”

Tempos depois, Epifânia respondia com alguma tristeza a quem da família perguntasse se tudo continuava bem entre eles. Ela mordia o lábio inferior (seu jeito de demonstrar preocupação) e balançava a cabeça, afirmativamente, mas não convencia. Estava tudo ótimo, ela dizia; melhor impossível, na verdade. Yuri é que andava bastante diferente. Os gestos cada vez mais lentos, harmoniosos. A fala mansa e cheia de pausas. Agora só comia arroz integral, verduras e frutas, perdera mais de vinte quilos e ganhara uma saúde inabalável. O lado afetivo, bem, desse ela não podia se queixar, mesmo. Mas alguma força superior se apoderara dele, força do bem, é claro, pois ele andava, assim, alheio ao que não fosse sua obrigação para com a família e a evolução do eu superior.

Ela não sabia se explicar direito, mas sentia que Yuri não conseguia pôr os pés no chão (literalmente, até) e isso não poderia ser, na verdade, o melhor dos mundos. Não combinava com a humanidade das pessoas e muito menos com a crueza da cidade. Talvez um pouco de boemia, de sacanagem, até uma certa inconseqüência, fizesse bem à vida dele e da família. Mas já perdera as esperanças.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

A secretária do Instituto de Testes Vocacionais (Intevoc) olhou sorrindo para mim (sorrisos, odeio sorrisos).

Nem Ciências Exatas… disse ela, mordendo a tampa da caneta esferográfica (uma porca)…

“… nem Biológicas!”

Deu uma risadinha fina e eu, não suportando, lancei-a a três metros de distancia, no chão, com um murro no seu rosto. Ela caiu de pernas para cima, ostentando o fundilho fummée.

“Oh…”, ela fez, tentando se levantar, querendo consertar os óculos partidos. “É exatamente isso! É isso!”

Levantei-a pelo pescoço, o rosto dela arroxeou todo (havia só uma pequena circunferência marcada, do murro) e ela ainda gemeu: “É isso, acertamos…”

“O quê? O quê? O quê?”, eu disse, mordendo a língua, a língua sangrando e eu cuspindo sangue na cara da mulher. “O quê? Hem, sua vaca?”

“Sua única vocação”, disse ela estrangulada, ainda segura por minhas mãos enormes, “é para o homicídio profissional . . .”

Fiquei surpreso e larguei-a. A secretária jogou fora os óculos, tirou outros da mesinha (onde também havia um pronto-socorro portátil) e, ainda sorrindo (sorriso deformado pelo inchaço, já não me irritava tanto), completou:

“O senhor é a pessoa mais agressiva que já passou pelo Intevoc. Por favor, vá correndo procurar o Sinexin (Sindicato dos Exterminadores Independentes), vá correndo… Agora!”

E, ao dizer isso, aproximou seu rosto espancado do meu e suplicou, com cheiro de Halitol (odeio perfumarias).

“Me mata agora, bem. Me mata.”

Um clip, que eu já havia transformado em arma com minhas mãos nervosas, foi-lhe enfiado no pescoço, à altura da jugular. A secretária caiu, sangrando, exclamando na agonia: “Meu amor…” (Mas que ódio!)

Sai do Intevoc derrubando a porta com os pés. O Sinexin ficava a alguns quarteirões. Com um paralelepípedo, que apanhei na rua para qualquer eventualidade, esmigalhei o crânio da mulatinha que me veio vender pentes (tenho ojeriza a gente pobre e de cor parda); imobilizei o guarda de transito da esquina, tomei-lhe o revólver, pedi que ele abrisse a boca, ele abriu, e eu descarreguei o revólver dentro. Ouvi as pessoas comentarem perto:

“É um Exterminador! De berço! Dos bons! Incrível! Chuchu-Beleza!”

As pessoas estavam encantadas e eu muito orgulhoso. Enfim, sabia, tinha certeza da minha verdadeira vocação.

O prédio do Sinexin, como você sabe, imbecil, é uma fortaleza blindada com o robô Armando à porta. Armando engatilhou sua metralhadora, acendeu as luzes e perguntou, com a voz de fita já meio estragada:

“Falar com quem? Falar com quem? Falar com quem?”

Saltei de lado, com minha agilidade nata, a metralhadora disparou automaticamente, matando pelo menos quinze pedestres. Com aquele mesmo paralelepípedo amassei a velha lataria de Armando. Ele caiu, só uma luz vermelhinha ficou piscando, mas a fita não se danificou.

“Falar com quem ? Falar com quem ? Falar com quem?”

Irritadíssimo com aquela ladainha nos meus ouvidos, evitei o elevador e subi as escadas de mármore, dois degraus de cada vez. Cheguei ao décimo andar em alguns minutos e nem estava cansado (não fumo, não bebo, não jogo).

Havia uma porta de jacarandá anunciando: Presidente. Num impulso inconsciente (quase todos os meus impulsos são assim), tentei derrubar a porta, não consegui, fui tomado de fúria absurda. Fiquei como um tonto, um louco, procurando no chão alguma coisa pesada, para derrubar, ou forçar, aquele impedimento (não posso ser impedido). Mas a porta abriu-se sozinha e o Presidente apareceu, portando uma metralhadora igual a de Armando. Eu já o conhecia de fotografias nos jornais e da tevê.

“Você é brilhante”, disse-me ele, e a voz também me pareceu gravada. (Seria um robô, talvez?]

Fiquei muito feliz e preocupado ao mesmo tempo porque senti que o elogio destrói  90% do meu potencial agressivo. Então reagi:

“Brilhante é sua mãe, corno safado! Chupador de buceta! Cara de sapo! Cocô de galinha!”

Ele repetiu “você é brilhante”, enquanto arremessava, com um gesto de mágico, quase imperceptível, um punhal sobre o meu peito. Por um segundo, eu me senti como uma câmera de Cinema Novo (e logo eu, que odeio o Cinema Novo!), meus olhos acompanhando a queda do meu corpo, rodando pela sala, fixando um detalhe aqui, um relógio de ouro na parede, o pedacinho do carpete queimado de cigarro, eu morrendo no duro, e os arrepios da morte lembrando sensações esquisitas do tempo em que eu comia (ugh!) mulheres, e o Presidente do Sinexin, com a voz sumida (em off, em off) afirmando que, realmente, eu sou um gênio, uma capacidade, um exterminador nato, eu sou Jesus, Jesus!

Do livro “Leonora Premiada”, Editora Duas Cidades, São Paulo, 1974.

Grades

O sujeito bateu no portão que o professor Bernardo mandara gradear na semana passada, depois que assaltaram a venda de seu Quinha, na esquina, a uns cem metros dali.

“Vim desentupir a fossa. Aqui é a casa de…”

Não conseguiu completar: Varão, o mestiço de boxer com mastim napolitano, saiu desajeitado da sala e voou sobre o portão; o homem, certamente, chegou a sentir o hálito de Tutancamon que o bicho exala. É um fedor tenebroso, raro.

“Seu Benardo, pelo amor de Deus!”, o homem deu um salto pra trás, enquanto Varão, enlouquecido, tentava abrir as grades com os dentes. “Fiquei com taquicardia, aqui… O senhor não pode criar uma fera como esta em casa.”

“Eu não sou Benardo, sou Bernardo, um erre antes e outro depois. Cala a boca, Varão! Chispa pra dentro de casa!”

A metade boxer de Varão sempre obedecia. O problema era quando o cachorro assumia seu lado mastim: não havia quem o fizesse mudar de idéia. Foi assim quando ele abocanhou a enorme batata da perna de dona Rosinha, sogra do professor. Cinco pontos no pronto-socorro e uma inimizade para sempre.

“Puxa, seu Benardo”, continuou o sujeito do outro lado da grade. Seu carteiro ainda está vivo? E aí, vai limpar a fossa ou não? Se for, vai ter de prender o Totozinho.”

“Por que o senhor não chama as pessoas pelo nome? O cachorro é Varão. Eu sou Bernardo.”

“Tô me lixando se é Varão ou Maricão, porra! E como é que fica a limpeza da fossa?”

“Ó mar da marejada/ ó mar de plenilúnios, moluscos e marolas/ garbosa e guapa vaga irrompe/ lava a crosta, retorna e se repete…”, recitou o professor, de olhos sem expressão voltados para um céu que ele nem via, por causa do telhadinho que mandara fazer para proteger o novo portão.

“O que o senhor disse, meu senhor?”, perguntou o homem, mais calmo e bastante embaraçado.

“Nada. É somente um poema. Meu.”

“E o que cacete isso tem a ver com a fossa?”

“Calma, seu, seu…”

“Borrachão. Chama logo pelo vulgo.”

“Muito próprio. Mas, é o seguinte: quando sinto o estresse me invadir, como aconteceu agora, eu simplesmente me largo do mundo e recito um dos meus poemas…”

O homem balançou a cabeça, mais constrangido ainda, e baixou ao chão o material que levava numa espécie de saco, às costas. Resolveu fumar um cigarrinho.

“Me desculpa, seu Benardo, mas qual é a profissão do senhor?”

“Professor.”

“De escola do Estado?”

“Sim. Por quê?”

Borrachão não pôde deixar de rir. “Está explicado”, disse.

“O que está explicado?”

“O senhor é funcionário público. Tem tempo de fazer essas coisas que o senhor falou aí. Mas, por favor, seu Benardo: tem limpeza de fossa ou não tem?”

“Não tem.”

“Como? Eu fui chamado pra isso! Peguei um lotação pra chegar até aqui. Investi uma fortuna. Estou deixando de atender outro cliente. Por que me chamaram, então?”

De repente, olhando para Borrachão através da grade, o professor teve a inquietante sensação de estar preso dentro da sua própria casa. A violência da cidade exigia não só aquelas grades como justificava toda e qualquer atitude defensiva. A um custo muito alto. Como perder a amizade da sogra por causa de um cão de guarda. Esse pensamento o arrepiou e ele deixou sua mente voar. O outro reagiu de imediato.

“Ei, você fez uma cara agora de quem vai falar aquelas coisas de novo…”

“Não, não vou não, esqueça. Seguinte: não vai ter limpeza de fossa porque não tenho mais um tostão no bolso. E só recebo sexta-feira que vem.”

“Sabia que você ia me convencer a receber com pré-datado. Vamos fazer assim: metade hoje e metade na sexta-feira.”

“O senhor não entendeu, seu Borrachão. Não posso pagar. Deve ter sido Marília, minha mulher, que chamou o senhor. Ela errou, reconheço. E não pode nem lhe pedir desculpas, foi levar as crianças pra vacinar.”

“E eu fico como? Sem trabalho, perdi o tempo, a passagem… Estou aqui há quinze minutos atrás dessa grade, o cachorro quase me comeu e o senhor nem me convidou a entrar.”

“O senhor vê. Vida de merda.”

“Merda o senhor vai ver quando sua fossa arrebentar. Sabe que tem gente que desmaia quando o cheiro de merda é muito forte? Aquilo são gases quase venenosos.”

“De certa maneira, seu Borrachão, eu já estou nadando na merda.”

O professor disse isso como uma defesa, sem a menor convicção. Estava vendo, na sua mente, a massa de matéria fecal arrebentando o cimento, extravasando, invadindo o quintal, fazendo submergir as mudas de árvores frutíferas que sua consciência ecológica havia insistido em plantar, apesar dos protestos das crianças que reivindicavam o espaço para brincadeiras. A bosta subindo e invadindo a casa pela cozinha, as cadeiras arrastadas, ele e Varão, em pânico, escalando a cômoda, de narinas inflamadas; Varão, com seu olfato privilegiado, chegava a ganir de desespero.

“Ah, mar dos ancestrais/ medusas abissais/ e o monstro da maldade, escamas sublevadas/ cetáceos dilacera e polvos e sereias/ seus olhos verde-musgo garantem que a Morte/ é única verdade/ é meta e esperança…”

O professor Bernardo gesticulava agora, agitado, ao ritmo dos seus próprios versos. Varão se aproximou, tímido, sacudindo o rabo. Borrachão recolheu seu material, não sem uma certa angústia, olhando o professor com piedade, e deu meia-volta em direção do ponto do lotação.

“Não deve ser fácil ganhar o que ele ganha”, resmungou para si mesmo. “E eu, que deveria ficar com raiva, ainda vou embora de coração apertado.”

Durante muitos dias, o bombeiro não conseguiu tirar da mente a figura do monstro da maldade, de olhos verde-musgo, a garantir que a Morte é a única verdade.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

Foi de repente: Geneide estava num canto, perto da churrasqueira, conversando com tia Sinhá; pouco antes do acontecido, dizem que ela olhou em derredor, com ar beatífico, mediu cada um dos oito participantes da reunião e aí começou a debulhar-se: lágrimas compridas, grossas, sentidas.

Tia Sinhá não confirma esse olhar de reconhecimento. Ou, pelo menos, não percebeu. Para ela, Geneide chorou de repente, tão de repente como quem sofre um infarto fulminante. Estava ali, falando sobre receitas, e de repente – chuá! – as lágrimas foram surgindo, rolando pelo seu rosto, molhando o vestido fechado no pescoço.

Ainda não comentei, mas já está na hora: Geneide é linda. Não deveria falar assim de uma prima-irmã minha, talvez seja meio incestuoso, mas eu me casaria com ela. Enxuta e esguia como uma top-model, cabelo loiro curto, liso, de franjinha sobre a testa. Jeito inocente, de criança, apesar dos vinte e um anos. Giancarlo, o padeiro italiano, não a deixa passar sem a frase: “coscia lunga, che bella!” É o único que consegue mexer com Geneide, já que, no bairro, poucos entendem italiano; ele, na verdade, está falando das coxas dela, sem que ninguém reclame, ou o pai da moça, meu tio Gerson, lhe arrombe a cara.

Bem, em outra língua fica diferente, parece só elogio. Mas vá alguém dizer em português: “que belas coxas você tem, boneca!” Tio Gerson viraria bicho. Ele morre de ciúmes da filha.

Mas são lindas mesmo, as coxas da minha prima. Ela tem perfeita consciência disso, ou não usaria aqueles shortinhos curtos. Ora, ora, estou desviando: meu assunto é o choro repentino de Geneide, no meio do churrasco da família. Todo mundo junto: tio Gerson, tia Dora, tia Sinhá, irmã de tio Gerson, os três irmãos de Geneide e eu, sempre sozinho e sempre por perto dela. Até agora ninguém desconfiou da minha paixão. Nem ela.

Mas, quando ela começou a chorar, naquele domingo, assim, sem o menor pudor, sem se esconder, nem o rosto, chorando e olhando pra gente, eu me assustei. Tio Gerson empalideceu: “Meu amor, meu amor, o que é que você tem?”

Geneide só balançava a cabeça, fazendo não, como quem diz, “não me aborreçam”, mas sua expressão não era exatamente de dor.

“Meu amor, que foi…?” Tio Gerson ficou mais nervoso.

“Felicidade, pai. Felicidade.”

“O quê, filha? O quê?”

Todos nós já a cercávamos, naquele momento. Meu coração disparara, e eu descobri mais uma medida do meu amor por ela.

“Estou feliz, pessoal. Estou feliz. É só isso”. Geneide repetiu.

E foi aí que se deu o inusitado: ela se levantou e, chorando, pendurou-se no meu pescoço (eu sou ligeiramente mais baixo do que ela).

“Oh, primo, estou tão feliz… tão feliz…”

Eu, idiota, ainda perguntei:

“Então por que está chorando, prima?”

Ela não respondeu de pronto. Depois de um tempo, que na verdade me pareceu um século, largou-me devagar, acariciando-me os ombros (ahhh…) e apenas contou que, de repente, dera-se conta do quanto sua vida era perfeita: tinha um pai e uma mãe supercarinhosos, irmãos protetores, cursava a Universidade, podia comer churrasco todos os domingos num país onde boa parte come mal ou passa fome. Ou seja, descobriu o quanto era um ser privilegiado. Isso a comoveu e aí começou a chorar.

Tia Sinhá se emocionou ao ouvir aquela explicação, e resolveu chorar também. O choro da tia, no entanto, era agressivo, vinha acompanhado de uns grunhidos, uma coisa feia. O choro de Geneide, não: leve e estético, como seus sorrisos.

Tio Gerson aceitou a explicação, mas manteve a pulga atrás da orelha: comentou com o filho Gervásio que aquilo ali parecia mais um choro de mulher apaixonada.

“Será que ela está grávida, pai?”, perguntou o idiota.

“Repita isso e eu te mato!”

‘Giancarlo, será?’, eu pensei, mas depois pedi desculpas, mentalmente, à minha amada. Ela jamais se aproximaria daquele carcamano grosseiro.

Espalhou-se no bairro que uma moça linda havia chorado de alegria. E aconteceu, primeiro, a incredulidade geral. “Mas, de felicidade?”, era o que todos perguntavam. “Na merda em que a gente vive?”, era uma segunda pergunta. Crisóstomo, o açougueiro, que é evangélico e diretor social lá da igreja dele, foi convidar minha querida para que proferisse uma palestra no domingo seguinte sobre, justamente, “A Felicidade”. Geneide recusou, usando uma desculpa bastante dúbia: “Minha felicidade é muito íntima; não posso compartilhá-la com uma multidão…”

Íntima? Hum… Pensando bem, ela tem razão. O que dizer àquele povo simplório sobre um tema tão complexo?

Mas não parava de chegar gente na casa de tio Gerson querendo ver a “santinha que tinha chorado”. Santa, por quê? Começou a correr um outro boato: Geneide havia visto a Virgem Maria num nicho que se armou num dos caquizeiros do quintal de tio Gerson. Povo doido. E o vereador Armandinho Muniz veio pedir à minha prima que revelasse o seu voto, ou que, pelo menos, o deixasse fazer uma faixa com os dizeres: “A linda moça feliz vota no Muniz”. Geneide também recusou, com gentileza.

Há quem diga que, depois do episódio, o astral do bairro mudou. Que outras pessoas começaram a chorar de felicidade, inclusive gente ruim, perversa. O que eu sei é que todas as religiões representadas na comunidade, e não só os evangélicos, aproveitaram o tema para convencer o pessoal de que é possível ser feliz no planeta Terra e, melhor ainda, no Brasil. A dor, eles disseram aos seus fiéis, é apenas um ângulo da vida, e existe para que a gente aprenda a valorizar nossa passagem pelo planeta. É perfeitamente normal, pois, que alguém chore porque é feliz. A felicidade é, ou deveria ser, o nosso estado habitual, e por isso é emocionante.

Sei não. Sei que minha prima adorada ficou famosa de repente. As mulheres dizem que se fossem lindas como ela também chorariam de felicidade. Alguém chegou a comentar que Geneide receberia um convite para desfilar para uma grife conhecida.

Os homens, ao contrário, em vez de lhe darem respeito, passaram a olhá-la com olhos de pecado. Giancarlo mudou um pouco suas observações; agora diz, quando o meu amor chega à padaria: “coscia lunga: piangi che te faccio felice”.

Está exagerando, o filho da puta. Qualquer dia desses, eu e o tio Gerson vamos encher a cara dele de porrada.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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